Castelo de Elmina, 1668. No Copyright
Castelo de Elmina, 1668. No Copyright

A Herança da Língua Portuguesa na África

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Escrito por Marco Ramerini. Tradução feita por Dietrich Köster.

Após a conquista da fortaleza árabe de Ceuta em Marrocos em 1415 os portugueses foram os primeiros europeus a explorar a costa africana e na década de 1460 eles construíram o primeiro forte em Arguim (Mauritânia). 1482 foi o ano da construção do castelo de São Jorge da Mina na Costa do Ouro (Gana). Em 1487 o explorador português Bartolomeu Diaz dobrou o Cabo da Boa Esperança e em 1497 Vasco da Gama circumnavegou o continente africano e chegou à Índia (1498).

Os portugueses dominaram incontestavelmente a costa africana durante os séculos XV e XVI. Os assentamentos portugueses em África foram usadas pelos navios portugueses como estações de fornecimento na rota para a Índia, mas também eram estações comerciais, onde os portugueses fizeram negócios de ouro, escravos e especiarias com os africanos e o idioma português foi usado como língua franca ao longo das costas de África.

Agora o português é falado em vários países da África, principalmente nas ex-colónias portuguesas: É a língua oficial em Moçambique, Angola, São Tomé e Príncipe, na Guiné-Bissau e em Cabo Verde. Uma espécie de crioulo português é usado no Senegal, na Guiné-Bissau, em Cabo Verde, em São Tomé e Príncipe e também na Guiné Equatorial. Uma grande comunidade de portugueses de Portugal, Angola e Moçambique reside na África do Sul.

O idioma português também influenciou várias línguas africanas. Muitas palavras portuguesas foram permanentemente emprestadas a vários tipos de línguas africanas como o suaíli e o africâner.

COSTA DA ÁFRICA OCIDENTAL E ILHAS DE CABO VERDE

No século XVI ao longo da costa do Senegal, da Gâmbia e da Guiné o assentamento de vários grupos de comerciantes portugueses e de Lançados (mestiços) contribuíram para a difusão da língua portuguesa nessas áreas. Hoje um crioulo português é ainda falado em Casamança (crioulo de Ziguinchor), na Gâmbia e na Guiné-Bissau (crioulos de Bissau-Bolama, Bafatá e Cacheu), seu nome local sendo Kriol. Esta linguagem é a primeira língua crioula, que surgiu a partir do contato entre europeus e os povos africanos.

Na Guiné-Bissau o Kriol é a língua nacional e o português é a língua oficial. As Ilhas de Cabo Verde foram uma colónia portuguesa até 1975 e assim o português é hoje a língua oficial do arquipélago. O crioulo de Cabo Verde é falado por toda a população e é semelhante ao da Guiné-Bissau e da Casamança. O português é a segunda língua para muitas pessoas.

Cabo Verde: Para 350.000 caboverdianos o crioulo é a primeira língua (1990), enquanto que o português é a segunda língua para a maioria.

Guiné-Bissau: 150.000 falantes de crioulo como primeira língua (1996) e 600.000 usuários do crioulo como segunda língua; 20.000 falantes de português como primeira língua (1991).

Senegal e Gâmbia: 55.000 falantes do crioulo de Ziguinchor na Casamança como primeira língua (1990). O dialeto do Senegal é um pouco diferente que na Guiné-Bissau. Tem algum vocabulário francês.

Comunidades de língua portuguesa na África hoje. Herança da língua Portuguesa em África. Autor Marco Ramerini

Comunidades de língua portuguesa na África hoje. Herança da língua Portuguesa em África. Autor Marco Ramerini

GOLFO DA GUINÉ

Uma espécie de português (crioulo) desenvolveu-se ao longo da costa de Gana (Costa do Ouro) e foi falado por comerciantes nativos nos seus negócios com os outros europeus (neerlandeses, ingleses, dinamarqueses, brandenburgueses, franceses, suecos) durante os séculos XVI, XVII e XVIII até mesmo vários anos após o abandono português da Costa do Ouro. Até 1961 Portugal teve um forte em Daomé, hoje chamado Benim. Seu nome é São João Baptista de Ajudá (Ouidah). Aqui o português foi usado nos últimos séculos por uma comunidade de descendentes mistos portugueses. O português foi também utilizado no Reino do Daomé como língua para as relações externas com os outros europeus.

Em algumas ilhas do Golfo da Guiné o crioulo português é falado ainda hoje. Estas ilhas são: as Ilhas de São Tomé e Príncipe (São Tomé e Príncipe) e a Ilha de Anobom (Guiné Equatorial). Sãotomense (Forró) e angolar (Moncó) são falados na Ilha de São Tomé e principense na Ilha do Príncipe. Estes crioulos são bastante distintos dos crioulos de Cabo Verde, da Guiné-Bissau, do Senegal e da Gâmbia.

O português é a língua oficial de São Tomé e Príncipe e é falado como segunda língua pela maioria dos habitantes em 1993, apenas 2.580 pessoas usaram-o como primeira língua. Na ilha de Anobom (Pagalu, Guiné Equatorial) a população fala um tipo particular de crioulo português, chamado anobonense ou Fá d’Ambô, uma rara mistura de dialetos angolanos Bantu e de português antigo, que é semelhante ao de São Tomé. O português tornou-se a terceira língua oficial da Guiné Equatorial desde 20 de julho de 2010.

São Tomé e Príncipe: 85.000 falantes de sãotomense como primeira língua (Ilha de São Tomé), 9.000 falantes de angolar como primeira língua (Ilha de São Tomé) e 4.000 falantes de principense como primeira língua (Ilha do Príncipe) em 1989; 2.580 portugueses falantes de português como primeira língua (1993) e uma grande parte dos habitantes fala o português como segunda língua.

Guiné Equatorial: 8.950 falantes de Anobonense como primeira língua (Ilha de Anobom) em 1993. O português tornou-se a terceira língua oficial da Guiné Equatorial desde 20 de julho de 2010.

ÁFRICA AUSTRAL: Congo, Angola, África do Sul e Moçambique.

Durante o século XVI no Reino do Congo muitas pessoas da classe dominante falavam português fluentemente. Esta lingua foi também o veículo para a propagação do cristianismo. O testemunho de um viajante europeu em 1610 prova que no Soyo todas as crianças aprenderam o português. No Reino do Congo há provada da existência de escolas portuguesas gerenciadas pelos missionários durante os séculos XVII e XVIII. Nos séculos XVI, XVII e XVIII a influência e o uso do português como língua de comércio espalhou-se ao longo da costa do Congo e de Angola de Loango para Benguela.

Em Angola – uma colónia portuguesa até 1975 – o português é a língua oficial e é falado por muitas pessoas. A maioria dos mestiços (em 1995 cerca de 1,5% da população angolana, que resultam em 170.000) fala o português como língua de casa e eles tendem a se identificar com a cultura portuguesa. Em Moçambique – uma outra colónia portuguesa até 1975 – o português é a língua oficial e é falado por muitas pessoas, principalmente como segunda língua. Na África do Sul o português é falado por pessoas de ascendência portuguesa e pelos imigrantes de Angola, Moçambique e Brasil (600.000).

Angola: 57.600 falantes de português como primeira língua (1993) e uma grande parte dos habitantes fala o português como segunda língua.

Moçambique: 30.000 falantes de português como primeira língua e quatro milhões de habitantes falam o português como segunda língua, cerca de 30% da população (1991).

África do Sul: Mais dum meio milhão de falantes de português como primeira língua.

ÁFRICA ORIENTAL: Quênia e Tanzânia.

O português foi usado como língua franca nos séculos XVII e XVIII. Isto foi devido à dominação portuguesa da costa oriental da África até o fim do século XVIII. Mombaça foi mantido até 1698 e uma reocupação breve foi tentada em 1728/1729. Há evidência dada por um tenente britânico que em 1831 um português confuso foi falado por um homem em Mombaça. O contato entre os portugueses e os africanos também influenciou a língua suaíli, que hoje é usada ao longo de toda a costa oriental de África. Há mais de 120 palavras de origem portuguesa na língua suaíli.

BIBLIOGRAFIA SOBRE A LÍNGUA PORTUGUESA EM ÁFRICA:

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