Mapa de Trincomalee (1775), Sri Lanka. Jean-Baptiste d'Après de Mannevillette, Le Neptune Oriental, 1775
Mapa de Trincomalee (1775), Sri Lanka. Jean-Baptiste d'Après de Mannevillette, Le Neptune Oriental, 1775

A História de Trincomalee durante os domínios português e neerlandês: Introdução

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Escrito por Marco Ramerini. Tradução feita por João Bergmann

1.0 INTRODUÇÃO

A baía, chamada pelos portugueses de Baía dos Arcos, onde fica a cidade de Trincomalee1 na ilha de Sri Lanka (antigo Ceilão), sempre foi considerada como um dos melhores portos do mundo, com sua posição altamente estratégica no centro das rotas comerciais do Oceano Índico, e seu controle de todo o Golfo de Bengala, teria feito dela o local ideal para o desenvolvimento de um grande porto e centro de comércio, mas isso não aconteceu. Na verdade, ao contrário do que se poderia pensar, admirando-se a beleza e a importância de tal local de ancoragem, Trincomalee nunca se tornou um centro de grande importância durante a era colonial portuguesa e holandesa. As primeiras duas potências coloniais que dominaram e ocuparam as áreas costeiras da ilha de Ceilão durante cerca de 300 anos (1505/6 – 1796) preferiram focar seus interesses na região sudoeste da ilha (onde ficavam os portos de Colombo e Galle), enquanto que ao longo da costa leste a presença portuguesa e holandesa era inexistente, ou pelo menos durante parte do período mencionado limitada à região dos fortes de Trincomalee e Batticaloa.

Esta falta de interesse por Trincomalee e, de uma maneira geral, pela costa leste da ilha, foi causada por diversos fatores. A razão principal foi que, à época da chegada dos portugueses ao Ceilão, o reino mais importante da ilha, e aquele com o qual os portugueses mantinham relações comerciais (principalmente devido ao comércio de canela) era o de Kotte, cujos territórios se estendiam pela região sudoeste da ilha2 , e cuja capital, Jayawardhanapura Kotte, ficava somente a poucos quilômetros de Colombo, de maneira que esta localidade foi utilizada pelos portugueses como base principal para a subseqüente expansão da ilha. Durante o primeiro período de colonização lusa, a costa leste do Ceilão ficou praticamente esquecida, e somente após os primeiros invasores europeus (dinamarqueses e holandeses) alcançarem ameaçadoramente os mares asiáticos foi que os portugueses se deram conta da necessidade de ocupar e fortalecer Trincomalee e Batticaloa.

Outra razão pela qual Trincomalee nunca se alçou à posição de importante centro comercial durante o período português foi bem explicada por Queyroz: “[Trincomalee] …tinha um grande inconveniente, que era o de que, na época, não havia outros vizinhos a não ser os bedas, que são homens tão bárbaros e indisciplinados que raramente aparecem para outras pessoas.” 3 Queyroz mais adiante observa que se a região de Trincomalee se tornasse habitada e cultivada, ela poderia facilmente ser auto-suficiente. 4

O porto de Trincomalee, juntamente com Kottiar e Batticaloa, foi usado no século XVI pelo reino de Kandy como porto de exportação de elefantes e nozes de areca, e importação de bens de primeira necessidade de outros países asiáticos. Embora Barros cite Trincomalee como um dos nove reinos da ilha de Ceilão,5 este era apenas um pequeno principado sob o domínio do Vanniyar 6 de Trincomalee e Kottiyar, que era tributário e súdito, pelo menos nominalmente, do rei de Kandy. O território do Vannyar de Trincomalee era esparsamente habitado e tinha uma extensão de 23 léguas.7 Trincomalee ficava situado entre as áreas nominalmente controladas pelos reinos de Kandy e Jaffna. A presença do rio Mahaweli Ganga, que passa perto de Trincomalee, facilitou as conexões com o planalto e com Kandy, e graças a isto, um intenso tráfego de mercadorias acontecia entre os portos de Kottiyar e Trincomalee. No vilarejo de Vintêna, que ficava a três léguas de Trincomalee, os kandyanos costumavam comercializar e trocar os produtos do Ceilão (principalmente elefantes e nozes de areca) por roupas, ópio e outros bens de consumo, com os mercadores procedentes do resto da Ásia.8

De acordo com o que Queyroz escreveu, Triquilemalê significa “montanha dos três pagodas”9 , estes pagodas foram construídos pelo rei do Ceilão num elevado promontório com vista para o mar; dois deles situavam-se na extremidade de um penhasco à beira-mar, enquanto o terceiro ficava no ponto mais alto do promontório. Este último pagoda, o templo de Koneswaram, era o mais importante de todos e um dos mais venerados de toda a Índia.10 A razão principal da importância de Trincomalee era este pagoda, que Queyroz denominou a Roma das populações do Oriente ou a Roma dos pagãos.11 O templo é assim descrito, numa carta datada de 1613 escrita pelo jesuíta Frei Barradas: “[O templo é] …uma estrutura maciça, uma obra de arte singular. Era um prédio de grande altura, construído com maravilhosa habilidade em granito escuro, numa rocha que se projeta para o mar, e ocupava uma grande área no topo do promontório.”12 A vila de Trincomalee situava-se no istmo do cabo onde ficavam os pagodas.

Continua: Os primeiros contatos com os portugueses

Mapa de Sri Lanka (Ceilão) (1681). Robert Knox. An Historical Relation of the Island Ceylon.

Mapa de Sri Lanka (Ceilão) (1681). Robert Knox. An Historical Relation of the Island Ceylon.

NOTAS:

1 Denominada pelos portugueses como: Triquinimale (Bocarro “Livro das Plantas…”, vol. II, pág. 238; Bocarro “Década 13 da História da Índia”, vol. I, pág. 11, Triquilemalê (Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. I, pág. 66), Trinquilamale (Bocarro “Década 13 da História da Índia”, vol. I, pág. 277), Triquilimale (“Carta do Vice-Rei da Índia”, Livros das Monções, Goa, vol. 37, fls. 129-129 v).

2 O monarca do reino de Kotte se auto-denominava imperador de toda a ilha, mas a autoridade dirigida do reinado de Kotte nas primeiras décadas do século XVI se estendiam exclusivamente pelas ricas e densamente povoadas terras compreendidas entre o curso dos rios Malwatu Oya ao norte e Walawe Ganga ao sul, enquanto que para o interior alcançava o limite das montanhas do planalto central. O reino que ocupava a parte montanhosa da ilha, pobre e escassamente povoada, era o de Kandy ou Udarata; este pelo menos nominalmente reconhecia o poder do reino de Kotte. Algumas zonas pouco habitadas situadas no lado leste da ilha e sujeitas a pequenos chefes ditos “vanniyars” ou “príncipes” nominalmente reconheciam a autoridade do reino de Kotte, e até mesmo eram de fato independentes. Já na região norte da ilha ficava o reino de Jaffna; este não reconhecia as pretensões de Kotte sobre toda a ilha. Em 1521, revoltas internas levaram à divisão do reino de Kotte e à subseqüente formação de três reinos: Kotte (governado por Bhuvanekabaho VII), Sitavaka (governado por Mayadunne) e Raigama (governado por Pararajasimha).

3 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. II, pág. 735

Os Veddah (Bedas) são a mais antiga população aborígene original da ilha. A palavra veddah é de origem cingalesa e significa selvagem. Ainda nos dias de hoje algumas comunidades Veddah remanescem, sendo que as três mais importantes situam-se perto de Batticaloa, Trincomalee e Anuradhapura.

4 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. III, págs. 1153-1154

5 Barros “Década III”, pág. 117

6 Chefe hereditário

7 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, pág. 286

8 Este comércio estava principalmente nas mãos de mercadores muçulmanos. Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. II, pág. 736

9 De acordo com os escritos de Queyroz, os pagodas foram construídos 1300 anos antes de Cristo. Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. I, pág. 67

10 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. I, pág. 66 e vol. II, pág. 736

11 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. I, págs. 236-237

12 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. II, pág. 366

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