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Os Estados-Membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)

por Dietrich Köster

Resolução dos Chefes de Estado e de Governo na Cimeira de Díli no dia 23 de julho de 2014

                          (por ordem alfabética) 

1.o  República de Angola / África 

2.o  República Federativa do Brasil / América do Sul 

3.o  República de Cabo Verde / África 

4.o  República da Guiné-Bissau / África 

5.o  República da Guiné Equatorial / África 

6.o  República de Moçambique / África 

7.o  República Portuguesa / Europa 

8.o  República Democrática de São Tomé e Príncipe / África 

9.o República Democrática de Timor-Leste / Ásia 

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Colonialismo português Indonesia

Pegada Portuguesa em Paga, Ilha das Flores, Indonésia

Escrito por: Fransisco Soarez Pati – Email: fransisco78@gmail.com
Corrigido por : Jose Luis Forneiro Perez

“Dedico este escrito a todas as pessoas da Regência de Sikka e àqueles que se interessam pela história colonial Portuguesa em todo o mundo”

Paga é um subdistrito do distrito de Sikka, Ilha das Flores, na província de Nusa Tenggara Oriental, Indonésia. Esta área ainda está incluída na região étnica Lio, que faz fronteira com o distrito de Ende, a oeste. A mitologia local conta que Paga vem da palavra “Pagão”, dada pelos portugueses que significa adorar ídolos.

Desde a antiguidade, a pegada portuguesa em Paga só é conhecida através do clã da Costa. Quer ele reconheça quer não, a história da presença colonial portuguesa no distrito de Sikka, ilha das Flores na província de East Nusa Tenggara, na Indonésia, foi dominada por histórias sobre a presença portuguesa em uma pequena cidade chamada Sikka. Em meados de fevereiro de 2014, o site português com sede em Lisboa “Jornal de Noticias” publicou um artigo com o título “Descendentes Do Rei De Sica Querem Museu Para Tesouro Português“. Não sei por que a geração moderna de hoje só imagina se é verdade ou não que a colônia portuguesa deixou sua marca em Paga.

Paga é um território colonial português na parte sul da ilha das Flores, na Indonésia. Na época do apogeu português dos séculos XV a XVII, a maior parte das áreas do arquipélago das Flores que foram influenciadas pelo colonialismo português situavam-se geralmente no lado sul da ilha. A partir da Ilha Solor, Ilha Adonara, Larantuka, Sikka, Paga e Ilha Ende, todas elas são localizadas na área costeira sul do Mar de Savu. Na época, a Ilha do Ende era conhecida como Ilha Grande para substituir Nusa Eru Mbinge como nome original da ilha.

Enquanto isso, no lado norte da ilha das Flores, os portugueses não deixaram vestígios de colonialismo, exceto os nomes Kewa (Queva) e Dondo dados pelos missionários dominicanos no século XVI. No lado norte da ilha das Flores, existia também um local que foi visitado por São Francisco Xavier. Localizado a 12 km de Maumere, acredita-se que o local foi passado de geração em geração como o local onde São Francisco Xavier parou pela primeira vez na ilha das Flores para reabastecimento, que mais tarde ficou conhecido como “Wair Noke Rua”, que significa santo primavera.

A principal razão pela qual os portugueses controlavam a costa sul da Ilha das Flores era porque controlando a costa sul da ilha das Flores podiam facilmente navegar para a ilha de Timor, que era separada apenas pelo mar de Savu, que tinha sândalo branco, produto muito caro no mercado europeu na época.

Vários escritores da história colonial portuguesa como Francisco Vieira de Figuerido, que escreveu o livro “Portugues Merchant Adventure In South East Asia 1624-1667”, Fernando Figuerido com a sua obra “Timor, A Presence Portugesa”, Isabel Boavida com a sua obra “A Presenca Portuguesa No Pasifico. A Missionação, No Preceso Colonial de Timor O E Seu Patrimonio Arqueitecnico Hoje”, ou Hans Hagerdald através da sua obra intitulada “Lord of the Sea, Lord Of the Land, Conflict And Adaptation In Early Colonial Timor, 1600-1800”, quase nunca escreveu histórias sobre a presença dos portugueses em Paga e na ilha de Ende. Um artigo de jornal publicado pela Universidade Nacional Australiana cita o relatório de Visser “Pagando no sudoeste de Kabupaten Sikka e Sikka Natar em si eram os locais de tais estações na costa sul. Embora haja uma vaga tradição entre os contemporâneos de que a sua vila Sikka Natar era o local de uma estação missionária dominicana, como relata Visser, é possível que a vila fosse, se não uma estação dominicana, pelo menos um lugar visitado, mais ou menos regularmente, por dominicanos embarcados nos navios portugueses que passavam pela costa sul das Flores”. Ainda que a história da presença portuguesa na ilha de Timor não possa ser dissociada da presença dos portugueses na ilha das Flores e arredores, mesmo o primeiro centro colonial português nas Flores, Solor e Timor foi na ilha de Solor, na província de East Nusa Tenggara, Indonésia, antes que os portugueses a mudassem para Lifau e em 1769 a mudassem novamente para Díli, que mais tarde se tornou a capital de Timor-Leste. No Paga hoje não há vestígios como o relatado por Visser, exceto um terreno baldio que a população local acreditava ser o local onde a Igreja foi fundada pelos portugueses e assim por diante, sobre o qual se tratará neste artigo.

Para além da ausência de dados do colonialismo português em Paga pelos autores supracitados, se os leitores deste artigo são parentes de sangue, casamento ou amizade ou pelo menos visitaram Paga, então em Paga podemos ver facilmente que alguns populares de Paga hoje têm características físicas diferentes da maioria dos florinianos em geral, portanto é muito provável que sejam descendentes de Portugueses o que não está escrito na história colonial Portuguesa.

A principal razão pela qual os portugueses casaram sempre com mulheres locais na terra colonial foi para criar uma nova pátria após a assinatura portuguesa do Tratado de Tordesilhas em 7 de junho de 1494, um novo acordo de divisão de terras entre os portugueses e Castela (Espanha): as novas terras em português ou las nuevas tierras em espanhol que estarían localizadas fora da Europa. Portugal recebeu a liberdade de controlar completamente todas as regiões fora da Europa ao longo da linha do meridiano da légua 370 através de Cabo Verde, África do Sul a leste, enquanto a Espanha controlava tudo a oeste de Cabo Verde em direção às Américas. Com este tratado os portugueses implementaram uma estratégia política chamada politica de assimilados ou casados através do casamento com mulheres locais ou a filha do rei para que sua presença na terra colonial fosse sentida como uma nova pátria ou recebesse o apoio da comunidade ou do rei local. Um novo fator na composição da população florinés/solores preocupou-se com os portugueses que chegaram a essas águas com a intenção de participar do lucrativo comércio de especiarias, sândalo e escravos. Alguns decidiram se estabelecer em coabitação permanente com meninas escravas casadas com famílias locais. Sob a lei portuguesa, esses colonos eram chamados de casados ​​​​ou moradores, que se tornaram a espinha dorsal do assentamento português, apoiando o comércio português e as atividades missionárias. Segundo a lei portuguesa, eram Portugueses, Cristãos de religião e tinham sobrenome português. Quando os portugueses abandonaram esta área no século XVII e os holandeses fizeram esforços para incorporá-la à sua esfera de atividade, os mestiços desempenharam o papel de intérprete entre os holandeses e a comunidade lusófona local. O Rei de Portugal através da Lei Real Portuguesa de 15 de março de 1538 concedeu uma concessão especial aos homens portugueses que se casassem e se fixassem e cultivassem uma nova pátria (terra nova) fora da Europa, concedendo privilégios aos homens portugueses que realizassem missões no estrangeiro.

Os descendentes do casamento português que usaram a estratégia “politica assimilados o casados” foram posteriormente chamados de Topass ou Mestizo, que significa português negro (português negro), enquanto os holandeses o chamam de português Zwart. A estratégia política portuguesa era muito diferente e com a estratégia política holandesa conhecida como Devide et Impera ou política divisória.

Mateo da Costa e Antony da Hornai da Costa são dois irmãos nascidos do casamento de um cidadão português com uma mulher Larantuka. Estas duas figuras formaram mais tarde um grupo denominado “Larantuqueros”, ou seja, o povo Larantuka, grupo considerado perigoso e temido pelos portugueses e holandeses. Jacob van der Hijden, o comandante das tropas holandesas de Solor e Timor que haviam conquistado o reino de Sonbai, foi morto na ponta da espada de Antony a Hornay da Costa.

Além do clã da Costa, em Paga existe também um túmulo de pedra que na língua Lio é chamado de “Musu Mase” em Paga. Os moradores acreditam há gerações que o túmulo de pedra é onde as cabeças e os corpos de dois portugueses foram enterrados após serem decapitados por Antônio da Costa, um bravo morador local de ascendência portuguesa. Esta geração de Antonio da Costa ou conhecido como Mamo Ndona mais tarde deu à luz o Sr. Daniel Woda Palle, ex-regente de Sikka (1977-1988) e ex-presidente da Assembleia Regional Popular Representativa da Província de Nusa Tenggara Oriental (1999-2004). Além do Sr. Daniel Woda Palle, genealogicamente as gerações de descendentes de Antony da Costa estão agora espalhadas em quase todas as partes da Indonésia.

Além disso, em Paga existe um canhão da herança portuguesa, bem como um lugar na praia que é como o local onde os portugueses pisaram pela primeira vez em Paga e fundaram a Igreja Católica que em termos locais chamavam de “Gereja Manu”. Atualmente, o prédio da Igreja não existe mais, restando apenas um terreno baldio no antigo prédio da igreja. A dança Bobu como dança influenciada pelos portugueses ainda hoje é mantida pelos pagãos. A descrição acima é a situação de fato de que Paga é um território colonial português esquecido.

Entretanto, de jure num documento denominado Tratado Demarcação E Troca De Alguns Possessoes Portugueses E Neerlandezas No Archipelago De Solor E Timor que significa Acordo sobre a demarcação e troca de vários proprietários portugueses e holandeses nas ilhas Solor e Timor assinado por Dom Pedro V e Mauricio Helderwier em 20 de abril de 1859, a área de Paga juntamente com Sikka, Larantuka, Wureh na ilha de Adonara, Pamong Kaju na ilha de Solor, Lomblen, Alor e Pantar foram regulamentados no artigo 7 do acordo a ser entregue pelos portugueses aos holandeses.

O texto original do acordo, que estava em português, tem a seguinte redação:

Artigo 7

Portugal cede à Neerlândia com os seguintes proprietários:

Na ilha das Flores, os estados de Larantuca, Sicca e Paga com suas dependências; na ilha de Adonara, ou estado de Wureh, na ilha do Solor, ou estado de Pamang Kaju.

Portugal renuncia a todas as pretensões que porventura possam ser válidas sobre outros estados ou logares, situados nas referidas ilhas, ou em Lomblen, Pantar e Ombay, que estes estados usem a bandeira portuguesa, quer da neer.

Em vez disso, em outras disposições do acordo, os portugueses receberam o direito de controlar todo o território de Timor Leste (atual Timor Leste), Oecuse e a Ilha de Kambing (Ilha de Atauro), conhecida como Ilha de Ataúro. A compensação total dada pelos holandeses aos portugueses foi de 200.000 florins (antiga moeda holandesa) no valor de 80.000 florins dados em 1851, quando os portugueses ficaram sem dinheiro depois de mudar seu centro de poder de Lifau para Díli em 1769. o centro colonial português pela segunda vez, após a derrota dos Portugueses na Ilha Solor com o grupo Solor Watan Lema ou cinco áreas costeiras (Negeri Lima Pantai), nomeadamente Lohayong, Lamakera, Lamahala, Terong e Labala que receberam assistência das tropas holandesas e do Sultanato de Ternate nas Molucas do Norte.

Entretanto, os restantes 120.000 florins foram entregues um mês após a assinatura do tratado de 1859 em Lisboa. No momento das negociações, o parlamento holandês se opôs porque não havia nenhum artigo que dava aos holandeses a liberdade de realizar uma missão protestante (Zendeling), mas os portugueses permaneceram em sua posição de que o catolicismo que tinha sido introduzido ao povo das Flores e arredores deveria continuar a ser a religião do povo (religiao do comunitae).

Segundo Karel Steenbrink no seu livro The Indonesian Catholics Volume I, a editora de Ledalero, Maumere (Orang-Orang Katolik Di Indonesia, Jilid I, penerbit Ledalero, Maumere), afirmou o princípio português de que “a bandeira pode ser mudada, mas a religião não deve ser alterada. O católico romano deve ser preservado como antes.” Esta é a razão pela qual a maioria das pessoas na Ilha das Flores, incluindo Paga na província de East Nusa Tenggara, na Indonésia, seguem a religião católica até agora. Na opinião do autor, embora o título do acordo seja um acordo sobre a troca e demarcação de territórios coloniais, mas no contexto do direito dos tratados internacionais, o acordo entre as duas nações coloniais é mais precisamente referido como um acordo de compra e venda do território colonial.

Como conclusão deste trabalho, refira-se que, nessa altura, Portugal era governado por um rei de nome Fernando II (1837 a 1853). Ele então nomeou José Joaquim Lopes de Lima como governador de uma colônia portuguesa separada no exterior de 3 de junho de 1851 a 15 de setembro de 1851. José Joaquim Lopes de Lima foi então nomeado governador dos portugueses em Macau a partir de 15 de setembro de 1851 encarregado de todo o território de Timor, Flores, Solor, Adonara, Alor e Atauro. O seu cargo de governador português em Macau não durou muito porque faleceu a 8 de Setembro de 1852 em Macau. Existe uma forte suspeita de que a morte de José Joaquim Lopes de Lima em 1852 esteja intimamente relacionada com a sua traição ao Rei de Portugal, que em 1851, sem o consentimento do Rei, ele se aliou aos holandeses no processo de “negociação” em questão. sobre as colónias portuguesas incluindo Paga.

Esta é a raiz histórica de Paga, Sikka, Larantuka, Ilha das Flores, Adonara, Solor, Alor, Pantar e Timor Ocidental tornando-se territórios coloniais holandeses. De acordo com o princípio uti posidetis iuris do direito internacional, essas regiões agora pertencem ao território do Estado Unitário da República da Indonésia (NKRI). Enquanto na parte oriental da ilha de Timor, Oecusse e a ilha de Ataúro tornaram-se territórios portugueses e agora essas regiões pertencem ao território da República Democrática de Timor Leste.

BIBLIOGRAFÍA:

Tratado Demarcação E Troca De Alguns Possessoes Portugueses E Neerlandezas No Archipelago De Solor E Timor, 20 de Abril de 1859

P. Sareng Orinbao, SVD, Nusa Nipa, Nama Pribumi Pulau Flores (Warisan Purba), Nusa Indah, Ende, 1969

Francisco Vieira de Figuierido, A Portugues Merchant Adventure In South East Asia 1624-1667, Verhandelingen Van Het Koninklijk Instituut Voor Taal – Land En Volkenkunde, Deel 52, C.R Boxer

Fernando Augusto de Figuerido, Timor, A Presence Portugesa (1769-1945), Universida Do Porto, Faculdade De Letras, 2004

Isabel Boavida, A Presenca Portuguesa No Pasifico. A Missionação, No Preceso Colonial de Timor O E Seu Patrimonio Arqueitecnico Hoje, Universidad de Coimbra

Hans Hagerdal, Lord of the Sea, Lord Of the Land, Conflict And Adaptation In Early Colonial Timor, 1600-1800, Verhandelingen Van Het Koninklijk Instituut Voor Taal – Land En Volkenkunde, KITLV

Paramitha A. Abdurachman, Bunga Angin Portugis di Nusantara, Jejak-Jejak Kebudayaan Portugis Di Indonesia, LIPI Press, Jakarta, 2008, Yayasan Obor, Subtitles Atakiwan, Casados, And Tupassi: Portuguese Settlement And Christian Communities In Solor And Flores (1536-1630), Indonesian Society Magazine, Year – X, No. 1, 1983

António d’Oliveira Pinto da França, Pengaruh Portugis Di Indonesia, Cetakan Pertama, PT. Penebar Swadaya, , 2000, translated by Pericles Katoppo from the original book entitled “Portuguese Influenced in Indonesia”, Calouste Gulbenkian Foundation, Lisabon, 1985

Pelayaran Dan Perdagangan Kawasan Laut Sawu, Awal Abad-18, Awal Abad-20, Didik Pradjoko & Friska Indah Kartika, Wedatama Widya Sastra, 2014.

Escrito por: Fransisco Soarez Pati – Email: fransisco78@gmail.com
Corrigido por : Jose Luis Forneiro Perez

Grave stone, is believed to be the burial place of 2 Portuguese people who were beheaded by Anthony Da Costa or Mamo Ndona. Photo Fransisco Soarez Pati, S.H,
Lápide, acredita-se que seja o local de sepultamento de 2 portugueses que foram decapitados por Anthony Da Costa ou Mamo Ndona. Photo Fransisco Soarez Pati, S.H,
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África Colonialismo português Guiné-Bissau São Tomé e Príncipe

Lista de Termos geográficos antigos na Guiné-Bissau e em São Tomé e Príncipe e as Designações correspondentes introduzidas após a Independência

por Dietrich Köster, Bonn 

Guiné-Bissau

Antes da Independência Após a Independência no dia 10 de Setembro de 1974

Aldeia Formosa = Quebo
Colona do Norte = Cuntima
Duas Fontes = Bangacia
Nova Lamego = Gabú
Teixeira Pinto = Canchungo

São Tomé e Príncipe

Antes da Independência Após a Independência no dia 12 de Julho de 1975

Ilhéu de Gago Coutinho = Ilhéu das Rólas
Pico Gago Coutinho = Pico de São Tomé

Desconhece-se que existam quaisquer mudanças de nomes de designações geográficas de Cabo Verde.

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África Angola Colonialismo português

Lista de Termos geográficos antigos em Angola e as Designações correspondentes após o 11 de Novembro de 1975

por Dietrich Köster, Bonn 

Guilherme Capelo = Cacongo (Cabinda)

Ambrizete = N’Zeto (Zaire)
Padrão de Diogo Cão = Ponta do Padrão (Zaire)
Santo António do Zaire = Soyo (Zaire)
São Salvador do Congo = M’Banza Congo (Zaire)

Carmona = Uíge (Uíge)

General Freire = Mucaluando (Bengo)

Quilombo dos Dembos = Gonguembo (Kuanza Norte)
Salazar = N’Dalatando (Kuanza Norte)
São Pedro da Quilemba = Quilemba (Kuanza Norte)

Duque de Bragança = Calandula (Malanje)
Forte República = Massango (Malanje)
Malange = Malanje (Malanje)
Nova Gaia = Cambundi-Catembo (Malanje)
Quedas do Duque de Bragança = Quedas do Calandula (Malanje)

5 de Outubro = Ca-Muteba (Lunda Norte)
Portugália = Chitato (Lunda Norte)
Veríssimo Sarmento = Camissongo (Lunda Norte)

Henrique de Carvalho = Saurimo (Lunda Sul)
Nova Chaves = Muconda (Lunda Sul)

Novo Redondo = Sumbe (Kuanza Sul)
Santa Comba Dão = Waku-Kungo (Kuanza Sul)
Vila Nova do Seles = Uku (Kuanza-Sul)

Barragem Craveiro Lopes = Barragem do Biópio (Benguela)
Mariano Machado = Ganda (Benguela)
Norton de Matos = Balombo (Benguela)
Sousa Lara = Bocoio (Benguela)

Alto Hama = Wama (Huambo)
Bela Vista = Katchiungo (Huambo)
Nova Lisboa = Huambo (Huambo)
Robert Williams = Caála (Huambo)
Teixeira da Silva = Bailundo (Huambo)
Vila Flor = Ekunha (Huambo)

General Machado = Camacupa (Bié)
Neves Ferreira = Cuemba (Bié)
Nova Sintra = Catabola (Bié)
Silva Porto = Kuito (Bié)
Vila de Macedo de Cavaleiros = Andulo (Bié)

Forte Cameias = Cameias (Moxico)
Gago Coutinho = Lumbala N’Guimbo (Moxico)
Luso = Luena (Moxico)
Teixeira de Sousa = Luau (Moxico)
Vila de Aljustrel = Vangamba (Moxico)

Baía de Moçâmedes = Baía de Namibe (Namibe)
Moçâmedes = Namibe (1985-2016) (Namibe)
Porto Alexandre = Tómbua (Namibe)
Reserva de Moçâmedes = Reserva de Namibe (Namibe)
São Nicolau = Bentiaba (Namibe)
Vila Arriaga = Bibala (Namibe)

Algés-a-Nova = Matála (Huíla)
Artur de Paiva = Cubango (Huíla)
Barragem Salazar = Barragem de Matala (Huíla)
Folgares = Capelongo (Huíla)
João de Almeida = Chibia (Huíla)
Olivença-a-Nova = Capunda-Cavilongo (Huíla)
Paiva Couceiro = Kipungo (Huíla)
Sá da Bandeira = Lubango (Huíla)
Vila da Ponte = Kuvango (Huíla)

Pereira de Eça = Ondjiva (Kunene)
Roçadas = Xangongo (Kunene)
Santa Clara = Ombadja (Kunene)
Vila de Aviz = Oncócua (Kunene)

Serpa Pinto = Menongue (Kuando Kubango)

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África Colonialismo português Moçambique

Moçambique: Lista de Termos geográficos antigos e as Designações correspondentes introduzidas após o 25 de Junho de 1975

por Dietrich Köster

Augusto Cardoso = Metangula (Niassa)
Belém = Mitande (Niassa)
Correia = Etatara (Niassa)
Dias = Mbemba (Niassa)
Esperança = Malanga (Niassa)
Homem = Chimbonila (Niassa)
Miranda = Macaloge (Niassa)
Nova Beira = Nairrubi (Niassa)
Nova Coimbra = Mechumua (Niassa)
Nova Freixo = Cuamba (Niassa)
Nova Guarda = Cholue (Niassa)
Nova Santarém = Nambilange (Niassa)
Nova Viseu = M’telela (Niassa)
Olivença = Lupilichi (Niassa)
Porto Arroio = Meponda (Niassa)
Valadim = Mavago (Niassa)
Vila Cabral = Lichinga (Niassa)
Vila Nova de Montalegre = Chiconono (Niassa)

Baía de Porto Amélia = Baía de Pemba (Cabo Delgado)
Porto Amélia = Pemba (Cabo Delgado)

António Enes = Angoche (Nampula)
Baía de Fernão Veloso = Baía de Nacala (Nampula)
Entre Rios = Malema (Nampula)
Nova Chaves = Rapale (Nampula)

Vila Junqueiro = Gurúè (Zambézia)

Bragança = Colomue (Tete)
Comandante Brito = Domue (Tete)
Dona Ana = Mutarara (Tete)
Gago Coutinho = Mulawera (Tete)
Vila Caldas Xavier = Kambulatsisi (Tete)
Vila Coutinho = Ulongué (Tete)
Vila Gamito = Mualadze (Tete)
Vila Vasco da Gama = Chiputo (Tete)

Nova Sintra = Macate (Manica)
Vila Gouveia = Catandica (Manica)
Vila de Vidigueira = Sussindenga (Manica)
Vila Pery = Chimoio (Manica)

Lacerdónia = Chupunga (Sofala)
Nova Lusitania = Buzi (Sofala)
Vila Fontes = Caia (Sofala)
Vila Machado = Nhamatanda (Sofala)
Vila Paiva de Amdrade = Gorongosa (Sofala)

Bartolomei Dias = Govuru (Inhambane)
Ilha de Santa Carolina = Ilha do Paraíso (Inhambane)
Ilha de Santa Isabel = Ilha de Magaruque (Inhambane)
Ilha de Santo António = Ilha de Benguerra (Inhambane)
Marrão = Mavayela (Inhambane)
Ponta São Sebastião = Ponta Khehuene (Inhambane)
Vila Franca do Save = Save (Imhambane)
Vilanculos = Vilankulo (Inhambane)

Aldeia da Barragem = Macarretane (Gaza)
Aldeia da Madragoa = Xilembene (Gaza)
Barra do Limpopo = Zongoene (Gaza)
João Belo = Xai-Xai (Gaza)
Malvérnia = Eduardo Mondlane (Gaza)
Santa Comba = Malahzene (Gaza)
São Jorge do Limpopo = Mapai-Estação (Gaza)
São Martinho do Bilene = Praia do Bilene (Gaza)
Vila Alferes Chamusca = Caniçado (Gaza)
Vila Gomes da Costa = Alto Changane (Gaza)
Vila Pinto Teixeira = Mabalane (Gaza)
Vila Trigo de Morais = Chokwe (Gaza)

Baía de Espírito Santo = Baía de Maputo (Maputo)
Baía de Lourenço Marques = Baía de Maputo (Maputo)
Ilha Mariana = Ilha Josina Machel (Maputo)
Lourenço Marques = 1975/76: Cam Phumo, depois Maputo (Maputo Cidade)
Vila Luísa = Marracuene (Maputo)
Vila Salazar/Salazar = Matola (Maputo)

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Colonialismo português Indonesia Timor-Leste

Lista de Termos geográficos em Timor-Leste antes e depois da Ocupação pela Indonésia em Dezembro de 1975

por Dietrich Köster, Bonn

Arcos – Cassa
Atalaia – Atabae
Belas – Ossu
Bela Vista – Quelicai
Caxias do Extremo – Batugade
Leça – Uato-Lari
Mindelo – Maubisse
Nova Algés – Tibar
Nova Anandia – Fati-Berliu
Nova Âncora – Laivai
Nova Benfica – Uato Ca
Nova Caminha – Fatu Maquetec
Nova Gouveia – Fohorem
Nova Monchique – Fatululik
Nova Nazaré – Mehara
Nova Óbidos – Letefoho
Nova Ourém – Atsabe
Nova Portel – Caimac
Nova Sagres – Tutuala
Novo Luso – Hato-Udo
Oliveira – Fatumean
Silvícola – Loré
Valverde – Nuno-Heno
Vila Armindo Monteiro – Bobonaro
Vila de Aviz – Fuiloro
Vila Celestino da Silva – Hatolia
Vila Eduardo Marques – Bazartete
Vila Filomeno da Câmara – Same
Vila General Carmona – Aileu
Vila Nova de Malaca – Lautém
Vila de Ourique – Laclubar
Vila Salazar – Baucau
Vila Taveiro – Pante Macassar
Vila Viçosa – Venilale
Viriato – Hato-Builico

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Colonialismo português Timor-Leste

Timor-Leste independente após quase quinhentos anos de domínio estrangeiro

por Dietrich Köster, Bona

Díli (Timor-Leste), 20 de Maio de 2002

Em Díli (Timor-Leste) a bandeira das Nações Unidas foi arreada hoje às 00.05 e a da República Democrática de Timor Lorosae foi hasteada às 00.25 pela primeira vez, na presença do Secretário Geral da ONU, do Presidente português, dos Primeiros Ministros português e australiano e de muitos outros membros de governo do mundo inteiro. Assim terminam mais de 450 anos de domínio colonial português, 24 anos de cruel ocupação indonésia e dois anos e meio de administração das Nações Unidas. Estas tiveram a tarefa ingrata de remediar os maiores danos provocados pela campanha indonésia de terra queimada, depois da Consulta Popular de 30 de Agosto de 1999, na qual quase 80% da população de Timor-Leste se tinha pronunciado por uma independência fora do domínio da Indonésia. Simultaneamente a administração da ONU tinha a missão de preparar Timor-Leste para a independência.

A Presidente indonésia Megawati Sukarnoputri, filha do Presidente fundador do Estado indonésio, ficou apenas quatro horas em Timor-Leste e assistiu às celebrações da independência só duas horas. Em contrapartida, fez-se notar o seu aparato de segurança de seis navios de guerra, dois caça-jactos como escolta aérea e 2 000 soldados dos três ramos das forças armadas como protecção pessoal, numa última medida de intimidação e demonstração de poder perante o povo leste-timorense.

Com a retirada da maior parte das forças civis especializadas e a passagem da Administração de Transição das Nações Unidas (UNMISET) avizinham-se tempos difíceis para os timorenses responsáveis pela política e administração dado que lhes falta experiência na gerência do aparelho do Estado. A execução das medidas é agravada pelo facto que não estar só em causa o desenvolvimento da parte oriental da ilha de Timor, mas prioritariamente, a posterior reconstrução das infra-estruturas destruídas após a partida das tropas indonésias e das milícias por elas formadas.

Na sua qualidade de Presidente eleito pelo povo governa agora o antigo combatente da resistência José Alexandre Xanana Gusmão (aqui visto como o Mandela de Timor-Leste) e as funções de Primeiro-Ministro são desempenhadas por Mari Alkatiri, que viveu 20 anos no exílio em Moçambique e que chefia o partido maioritário da FRETILIN. Como Parlamento Nacional actua a Assembleia Constituinte saída das eleições de 30 de Agosto do ano passado.

Do ponto de vista financeiro Timor-Leste continuará a depender extensamente, durante os próximos três anos, das contribuições da comunidade doadora internacional. Depois o país espera poder obter grandes lucros das receitas da extracção, conjunta com a Austrália, de petróleo e gás natural no Mar de Timor.

Publicado na “Allgemeine Zeitung” (Vinduque/Windhoek, Namíbia) no dia 21 de Maio de 2002

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Colonialismo português Timor-Leste

A historia da Tranqueira de Díli, (Timor-Leste)

Por: Juan Carlos Rey (Asociacion Española de Estudios del Pacifico)

A capital do território colonial português de Timor mudou de Lifao, em no territorio de Oecussi, para Díli no ano 1769. Naquela altura, Díli era uma pequena aldeia com casas de barro e palapa com telhados de folhas de palmeira e “talimatan” (nome, em lingua tetúm, da palha local de cor preta) como as que ainda hoje existem nas áreas rurais do pais. Um trabalho intitulado “As Possessões Portuguesas na Oceânia – Descrição da Praca de Dili”, do autor José Joaquim de Sousa, faz a seguinte descrição da praça em no ano 1800: “ A praça é um terreno cercado de palapas…… dentro d’este cerco, da parte do mar, esta a Tranqueira, cujas muralhas são de pedra solta bruta, posta uma sobre a outra, a face que cae para o mar tem dois muros da mesma qualidade, distante um do outro entre elles um entulho de terra e pedra, e onde estão as peças muito velhas e differentes calibres”.
Por decreto de Setembro de 1865 a praça de Díli foi elevada à categoria de cidade, e naquela mesma altura, na zona costeira as construções também se limitavam a uma Igreja, a casa do administrador (bungalow), o edifício da alfândega e uma fortaleza de barro e madeira, chamada Tranqueira o Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição.

O centro desta incipiente cidade era onde agora se encontra o Palacio de Governo (só erigido em 1960) e a frente tenha um pequeno cais de desembarque para descarregar os navios ancorados em frente, onde havia uma bateria de costa para defesa da posição, que ainda hoje se conserva o lugar com antigos canhões olhando o horizonte.

Bateria de costa, Díli. Foto JC REY
Bateria de costa, Díli. Foto JC REY

Numa ilustração, quase de criança, em perpectiva da baía de Díli, desenhada pelo tenente Botelho, da Armada Real, aparece a mencionada fortaleza da Tranqueira, assim como outras edificações próximas, como uma igreja, a alfândega e a feitoria do navio que fazia a ligação com Macau. A estampa mostra a Tranqueira com un muro de pedras e, no interior, uma esplanada avançada para leste onde se encontrava o mastro da bandeira portuguesa da época. Uma bateria de canhões a pontava para o mar, dando proteção ao ancoradouro. A residência do Governador estava na parte interna interna do reciento da Tranqueira. No mesmo desenho podem ser vistas algumas casas para leste, onde hoje está a Secretaria de Estado da Juventude e Desporto, bem como o “ilhote de Pedra” que ainda presentemente se distingue frente à atual resindência do obispo de Díli.

Tranqueira de Díli
Tranqueira de Díli

O incansável naturalista inglês Wallace Russel, que viajou durante mais de nove anos (1854-1862) pela região dio sudeste asiático e visitou “Delli” – a capital das possessões portuguesas do nordeste em 1861 – faz uma descripção da praça no seu livro “Viajem pelo Arquipelago malayo”, em que diz: “O seu forte é um simple recinto de terra endurecida”.
Asim a primeira fortaleza propiamente dita, construida em Díli em 1769, foi chamada Tranqueira, que conheceu importantes modificações com o passagem do tempo. Uma nova descrição da praça de Díli, feita por Affonso de Castro em 1861, e publicada em 1865 na Gazeta das Fábricas, volume II pagina 119 : “À direita està a casa que serve de alfândega e à esquerda (mirando do parte do mar) està a fortaleza, ou Tranqueira, com as suas onze velhas peças montadas sobre bases que se estão a desfazer. Não se á porém imaginar que a tal Tranqueira tem alguma coisa de forte. Não, a Tranqueira não passa de ser um grande rectângulo, com três faces de muralha de pedra solta e a quarta que olha para o mar, é um terrapleno sem revestimento, sobre o qual estão collocadas as peças sem deffeza de qualidade alguma e inteiramente a descoberto”.

Cem anos depois do inicio da construção da primeira Tranqueira e no mesmo lugar, a fortaleza mudou-se no Quartel de Infanteria em 1869, depois em Quartel de Artilleria e finalmente em 1960’s mudou para Quartel de Intendencia. A Tranqueira apresentava então uma planta melhorada, de acordo com uma verdadeira fortaleza em comparação com ao desenho do feito à mao pelo 1º tenente da Armada Botelho 74 anos antes. O quartel de Infanteria tem semelhança com outros edificios militares portugueses nos territórios do ultramar construidos na segunda parte do século XIX.

O primeiro mapa em que se pode apreciar a recente construçao de antigo quartel data de 1870 e a planta do edificio é exactamente a que é na actualidade o mesmo predio. Francisco Sousa Lobo, que trabalhou como perito da UNESCO diz que se trata de “um edificio de arquitectura neoclasica, muito sóbrio e de grande disgnidade”.

Tranqueira de Díli, 1843
Tranqueira de Díli, 1843

Plano do porto e cidade de Díli. Mapa Andrea e Machado 1870
Plano do porto e cidade de Díli. Mapa Andrea e Machado 1870

Plano da cidade de Díli. Mapa 1895
Plano da cidade de Díli. Mapa 1895

Planta do antigo Quartel de infantaria de Díli, 1895
Planta do antigo Quartel de infantaria de Díli, 1895

Quartel de infantaria de Díli. Mapa 1910
Quartel de infantaria de Díli. Mapa 1910

Durante a II Guerra Mundial, a ilha de Timor foi ocupada pelos japoneses, e a maior parte de Díli foi destruida por bombardeamentos aliados mais miraculosamente nenhuma bomba caiu no Quartel de Infanteria. Apesar de que alguns impactes foram muito próximos, no mar, a escassamente 100 metros do edificio. Uma fotografia aérea do 02-11-1942 (Australia War Memorial negatif nº 128133) mostra os impactes e explosões na baía de Díli. O edificio saiu incólume da contenda o mesmo que acontecio com o Pálacio de Lahane, as duas construções coloniais mais antigas que subsistem em Díli.

Díli durante a Secunda Guerra Mundial
Díli durante a Secunda Guerra Mundial

Quartel intendencia de Díli. 1930
Quartel intendencia de Díli. 1930

Quartel de Intendencia Entrada pela avenida Sá de Bandeira. 1964
Quartel de Intendencia Entrada pela avenida Sá de Bandeira. 1964

Durante a época da ocupação Indonesia (1975-1999), a antiga fortaleza da Tranqueira convertido em edificio do quartel de Infanteria portuguesa, foi utilizado pelos militares indonesios e mais precisamente pela companhia nº 1627. Para muitos timorenses o edificio ficou com a sinistra memoria de centro de internamento e interrogatórios do sistema repressivo militar dos ocupantes indonesios.

Quartel de Infanteria portuguesa, utilizado pelos militares indonesios e mais precisamente pela companhia nº 1627. Foto JC Rey
Quartel de Infanteria portuguesa, utilizado pelos militares indonesios e mais precisamente pela companhia nº 1627. Foto JC Rey

A saída da Indonesia em 1999, na esteira da Consulta popular o referendo da independência, deixou uma maré de destruição nas infraestructuras de Timor-Leste, nomeadamente o edificio do antigo quartel foi incendiado propositadamente pelas milicias indonesias. O fogo quimou o tecto, mas por sorte a madeira da época resistiu; a parte baixa fico menos danificada do que as partes superiores dos muros. O fogo destruiu as portas e janelas, escapando intacta apenas uma que seria utilizada como mostra para a reprodução das restantes na renovação do prédio entre 1999 e 2002.

Quartel de Infanteria portuguesa. Foto Gertil
Quartel de Infanteria portuguesa. Foto Gertil

Com a resolucão 1272 do Conselho de Segurança das Naçoes Unidas foi criada a Administração Transitória da ONU em Timor-Leste (UNTAET, siglas em inglês) que teve entre as suas tarefas a preparação das bases da nova nação. Uma das atividades foi a reconstrução de algumas infra-estruturas básicas. Criou-se a Trust Fund for East Timor (TFET) en Dezembro de 1999 em Tóquio, Japão, com contribuições dos parceiros: Japão, Australia, USA, Portugal, Uniaão Europeia, agências da ONU, Banco Mundial e ADB. Estes dois últimos ficarom com a gestão do fundo.

O projecto de reconstrução integrou-se no programa Community Empowerment Projet, com o alvo de renovação do antigo quartel como futura Uma Fukum o casa do Povo, en língua Tetum, para albergar o Centro da Cultura Nacional o Museu Nacional, e também, uma galeria de arte. O projecto de reconstruçao da Casa do Povo com uma área de 2.443 metros quadrados foi gerido pelo Banco Mundial, com a colaboraçao da UNESCO e do grupo de engenharia Gertil, com um orçamento de 0,8 milhões de dólares americanos.

Como descrito num artigo de ingenheiro Francisco Sousa Lobo (De Pedra & Cal n° 15 Julho/septembro 2002): “ O edificio actual foi feito em alverania de pedra muito diversa, rebocado com argamasa de cal e areia, e decorado com frisos e nervuras feitas em tijolo cozido, também revestido com argamasa. Nas paredes há elementos en calcáreo, basalto, xistos e pedras de coral das mas variadas formas e dimensões. As fundações do quartel foram justapostas à segunda versão da fortaleza com mão de mestre, para que o esforço de construcão fosse muitro reduzido. A mas plausível conclução é a de que a maioria do material de construção foi proveniente da antiga Tranqueira “. Mais à frente, diz que: “ a dimensão e forma desta praça serviram de matriz à cidade de Díli, e determinaram o alinhamento das ruas e o tamanho dos quarteirões, na grande remodelação que foi feita por volta de 1840”.

O grupo de engenharia portugês Gertil, entre 1999 e 2002 efectuou um studo muito completo da desastrosa situação em que ficou o antigo edificio. O estudo mostrou que caixilhos originais das janelas eram de madeira de palmeira e que as cores das paredes mudaram com as épocas do banco ao azul. Foi interessante constatar que o edificio do quartel foi cosntruido com un muro duplo, deixando entre o primeiro e o segundo muro uma câmara-de-ar para refrigeração da parte interna. Uma série de aberturas circulares, que ainda existem na actualidade, ventilavan a parte do telhado.

A exposiçao intitulada “Historia da Uma Fukum e a Cidade de Díli” realizada a 15 de maio de 2002 pela UNESCO, com a participação do Instituto Camõens e da Associação Portuguesa dos Amigos dos Castelos, mostrou documentos e fotografias interessantes da história do edificio atual, designadamente uma de 1870 com grandes árvores na actual Avenida Nicolas Lobato (antiga rua do Commercio).

Díli, Rua do Commercio em 1870
Díli, Rua do Commercio em 1870

O projecto de reconstrução empreendido com fundos geridos pelo Banco Mundial nunca foi acabado e as obras seriam suspensas en Agosto de 2002 por falta de fundos.

Em 2002, o edifício parcialmente restaurado, foi entregado ao recém-criado Governo de Timor-Leste, ficando infelizmente sem qualqer segurança e protecção. Un relatorio da UNESCO (Final Report. UNESCO. Timor Leste Cultural Heritage Conservation project. Project Code 217GLO4070 december 2006) diz: “If the building is not put in use immediately, the project of Cultural Center is in risk”. Esta frase do perito Francisco Sousa Lobo foi uma premonição do que aconteceu depois. Entre a 2003 e os acontecimentos trágicos de 2006 o edificio ficou ao abandono e tudo o que era de roubar, foi roubado: portas, janelas e portadas, cabos eléctricos, canalizações, etc…. .
En 2007 o Banco Nacional Ultramarino desevolveu um projecto para uma mediateca, destinada aos jovens, com aulas de informática e biblioteca, mas nunca viu a luz do dia porque o 24 de Novembro desse mismo ano o edificio, en forte estado de deterioração, seria entregue pelo Governo de Timor-Leste à Comissão Europeia para ser a sede diplomática da Delegação da União Europeia em Timor-Leste. Depois de um ano o edificio foi renovado completamente com a preservação e uma visão fiel do seu estado original do antigo quartel e inagurado com una nova vida a 24 de Novembro do 2008, como uma contribução para a preservação do patrimonio colonial de Timor-Leste, depois de umos 240 anos da construção da Tranqueira original de Dili.

Outras referenças:
1) A estoration and rehabilitation of the oldest building in Dili / Francisco Sousa Lobo. -Timor: [s.n.],2000. – 18, 30, [9] p.
2) Reconstruction Survey, Timor Leste 2007. Report Authors : Joao Saldanha; Marcelino Magno; Anacleto Ribeiro; Edmundo Viegas. Timor Institute of Development Studies. 2007.
3) 1er encontro international patrimonio mundial da oriegen portuguesa, abril 2006, Rui Brito de Fonseca.

Copyright: Juan Carlos Rey

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Os Estados-Membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)

Os Estados-Membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)

Resolução dos Chefes de Estado e de Governo na Cimeira de Díli no dia 23 de julho de 2014

(por ordem alfabética portuguesa)

Por Dietrich Köster.

1. República de Angola / África
Republik Angola / Afrika
Republic of Angola / Africa
République d’Angola / Afrique
República de Angola / África
Repubblica dell’Angola / Africa
Republiek van Angola / Afrika

2. República Federativa do Brasil / América do Sul
Föderative Republik Brasilien / Südamerika
Federal Republic of Brazil / South America
République fédérative du Brésil / Amérique du Sud
República Federativa del Brasil / América del Sur
Repubblica Federativa del Brasile / America del Sud
Federale Republiek van Brasilië / Suid-Amerika

3. República de Cabo Verde / África
Republik Cabo Verde / Afrika
Republic of Cabo Verde / Africa
République de Cabo Verde / Afrique
República de Cabo Verde / África
Repubblica di Capo Verde / Africa
Republiek van Kaap Verde / Afrika

4. República da Guiné-Bissau / África
Republik Guinea-Bissau / Afrika
Republic of Guinea-Bissau / Africa
République de Guinée-Bissau / Afrique
República de Guinea-Bisáu / África
Repubblica di Guinea-Bissau / Africa
Republiek van Guinee-Bissau / Afrika

5. República da Guiné Equatorial / África
Republik Äquatorialguinea / Afrika
Republic of Equatorial Guinea / Africa
République de la Guinée équatoriale / Afrique
República de Guinea Ecuatorial / África
Repubblica della Guinea Equatoriale / Africa
Republiek van Ekwatoriaal-Guinee / Afrika

6. República de Moçambique / África
Republik Mosambik / Afrika
Republic of Mozambique / Africa
République du Mozambique / Afrique
República de Mozambique / África
Repubblica del Mozambico / Africa
Republiek van Mosambiek / Afrika

7. República Portuguesa / Europa
Portugiesische Republik / Europa
Portuguese Republic / Europe
République portugaise / Europe
República Portuguesa / Europa
Repubblica Portoghese / Europa
Portugese Republiek / Europa

8. República Democrática de São Tomé e Príncipe / África
Demokratische Republik São Tomé und Príncipe / Afrika
Democratic Republic of São Tomé and Príncipe / Africa
République démocratique de São Tomé-et-Príncipe / Afrique
República Democrática de Santo Tomé y Príncipe / África
Repubblica Democratica di São Tomé e Príncipe / Africa
Demokratiese Republiek van São Tomé en Príncipe / Afrika

9. República Democrática de Timor-Leste / Ásia
Demokratische Republik Timor-Leste (Osttimor) / Asien
Democratic Republic of Timor-Leste (East Timor) / Asia
République démocratique du Timor oriental / Asie
República Democrática de Timor Oriental / Asia
Repubblica Democratica di Timor Est / Asia
Demokratiese Republiek van Oos-Timor / Asië

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O Papel da Língua portuguesa na Ásia lusófona

Escrito por Dietrich Köster

Estado Português da Índia – Goa, Diu e Damão

Até a invasão das tropas de Nehru em Dezembro de 1961 o português era a língua oficial. Esta situação mudou a favor do inglês após a anexação. As línguas autóctones Concani em Goa e Gujerati em Damão e Diu desempenham um papel secundário na vida pública. Mesmo em Goa durante o Estado da Índia Portuguesa existiam mais escolas de ensino médio com o inglês como língua de instrução que escolas com o português como língua de ensino. Desde a anexação de Goa o português é oferecido apenas em algumas escolas como uma matéria de segunda ou terceira língua.

O último diário publicado em língua portuguesa transformou-se no início de 1984 num jornal de língua inglesa por completo. Assim “O Heraldo” tornou-se em “Herald”. O diário “A Vida” cessou de aparecer completamente. Hoje existem somente jornais em línguas inglesa e indiana. A única leitura em português que eu pude comprar numa livraria foi uma série de cinco volumes de livros didáticos para a aprendizagem da língua portuguesa “UM PASSO NOVO”. Além disso, existe a oportunidade de estudar o português na Universidade de Goa. A pessoa designada pelo Instituto Camões, o leitor Doutor Lume, falou de cerca de 60 estudantes, dos quais ele tinha de cuidar.

A presença oficial portuguesa em Goa é hoje limitada a um Consulado-Geral e uma sucursal recém-inaugurada da Fundação do Oriente. O exercício da língua portuguesa na vida quotidiana é hoje limitada essencialmente à parte cristã da velha geração local.

Macau

Com 97% da população os chineses possuem a esmagadora maioria, seguido de 2% de portugueses. Estes últimos são muitas vezes enviados de Portugal para um período determinado para trabalhar na administração pública e na educação. Até 1991 o português era a única língua oficial. Desde aquele ano o chinês tem o mesmo estatuto. Enquanto que é possível na prática em todos os lugares de fazer-se compreendido em chinês, é apenas realizável em português somente de forma limitada. O inglês faz concorrência como lingua de negócios à língua oficial de origem europeia, simplesmente por causa da proximidade de Hong Kong. Neste contexto a administração portuguesa de Macau omitiu muito no passado. Apenas nas poucas escolas portuguesas e escolas luso-chinesas o ensino da língua portuguesa é uma disciplina obrigatória. Nas numerosas escolas chinesas o português é oferecido apenas como uma matéria facultativa. A pesar disso todos os editais e os anúncios – mesmo das lojas – são sempre realizados em ambas as línguas oficiais. O ponto fraco uma vez reconhecida tenta-se de contrapor nos últimos anos através do aumento da formação de professores de português na educação de adultos. O Centro de Difusão de Línguas e o Instituto Português do Oriente (IPOR) tentam de remediar à falta de conhecimento do português pela população.

Timor Português – Timor-Leste

Mesmo a geração mais jovem que não tenha testemunhado a invasão indonésia em 1975 está engajada com a autodeterminação e independência de Timor-Leste, embora a maioria dos jovens têm pouco ou nenhum conhecimento do português. O novo sistema de ensino não prevê a instrução nesse idioma. Em lugar disso todos os alunos têm de aprender o idioma malaio, quer dizer a língua Bahasa Indonésia. O único grupo de pessoas que acolheram a integração pelo governo indonésio eram os migrantes que foram enviados pelo governo de Jacarta no âmbito do programa de reassentamento “Transmigrasi” para Timor-Leste. Este grupo de pessoas falando em contraste com a geração mais velha e média timorense nenhuma palavra de português, de modo que eles são fáceis de detectar como imigrantes dum país não-lusofono. Eles substituíram uma parte não-negligenciável dos homens de negócios chineses, que refugiaram-se para a Austrália em 1975.

Todos os anúncios e toda a publicação são realizados em Bahasa Indonésia. Não há publicações geralmente acessíveis em português. Apenas os nomes das ruas foram assumidos do período português, agora precedidos pela denominação rua ou avenida emprestada da língua Bahasa Indonésia “jalan”. A única outra memória é a existência de vários monumentos em Díli com inscrição portuguesa. Um deles é uma recordação do quinto centenário da morte do Infante Dom Henrique em 1960.

Como uma personalidade marcante encontrei o padre Eduardo Brito da paróquia de Balide da Igreja Católica em Díli. Ele veio de Margão/Goa em um grupo de 40 sacerdotes para Timor Português em 1947. Apenas três sacerdotes ainda estão vivos e continuam a ser ativos na sua pátria adotiva. Para os muitos anos de serviço o padre Brito foi homenageado em 1995 pelo governador José Abílio Osório Soares e já colocando-o durante a sua vida um monumento com o seu busto.

Atualização aos meados de 1997

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A História de Trincomalee durante os domínios português e neerlandês: Introdução

Escrito por Marco Ramerini. Tradução feita por João Bergmann

1.0 INTRODUÇÃO

A baía, chamada pelos portugueses de Baía dos Arcos, onde fica a cidade de Trincomalee1 na ilha de Sri Lanka (antigo Ceilão), sempre foi considerada como um dos melhores portos do mundo, com sua posição altamente estratégica no centro das rotas comerciais do Oceano Índico, e seu controle de todo o Golfo de Bengala, teria feito dela o local ideal para o desenvolvimento de um grande porto e centro de comércio, mas isso não aconteceu. Na verdade, ao contrário do que se poderia pensar, admirando-se a beleza e a importância de tal local de ancoragem, Trincomalee nunca se tornou um centro de grande importância durante a era colonial portuguesa e holandesa. As primeiras duas potências coloniais que dominaram e ocuparam as áreas costeiras da ilha de Ceilão durante cerca de 300 anos (1505/6 – 1796) preferiram focar seus interesses na região sudoeste da ilha (onde ficavam os portos de Colombo e Galle), enquanto que ao longo da costa leste a presença portuguesa e holandesa era inexistente, ou pelo menos durante parte do período mencionado limitada à região dos fortes de Trincomalee e Batticaloa.

Esta falta de interesse por Trincomalee e, de uma maneira geral, pela costa leste da ilha, foi causada por diversos fatores. A razão principal foi que, à época da chegada dos portugueses ao Ceilão, o reino mais importante da ilha, e aquele com o qual os portugueses mantinham relações comerciais (principalmente devido ao comércio de canela) era o de Kotte, cujos territórios se estendiam pela região sudoeste da ilha2 , e cuja capital, Jayawardhanapura Kotte, ficava somente a poucos quilômetros de Colombo, de maneira que esta localidade foi utilizada pelos portugueses como base principal para a subseqüente expansão da ilha. Durante o primeiro período de colonização lusa, a costa leste do Ceilão ficou praticamente esquecida, e somente após os primeiros invasores europeus (dinamarqueses e holandeses) alcançarem ameaçadoramente os mares asiáticos foi que os portugueses se deram conta da necessidade de ocupar e fortalecer Trincomalee e Batticaloa.

Outra razão pela qual Trincomalee nunca se alçou à posição de importante centro comercial durante o período português foi bem explicada por Queyroz: “[Trincomalee] …tinha um grande inconveniente, que era o de que, na época, não havia outros vizinhos a não ser os bedas, que são homens tão bárbaros e indisciplinados que raramente aparecem para outras pessoas.” 3 Queyroz mais adiante observa que se a região de Trincomalee se tornasse habitada e cultivada, ela poderia facilmente ser auto-suficiente. 4

O porto de Trincomalee, juntamente com Kottiar e Batticaloa, foi usado no século XVI pelo reino de Kandy como porto de exportação de elefantes e nozes de areca, e importação de bens de primeira necessidade de outros países asiáticos. Embora Barros cite Trincomalee como um dos nove reinos da ilha de Ceilão,5 este era apenas um pequeno principado sob o domínio do Vanniyar 6 de Trincomalee e Kottiyar, que era tributário e súdito, pelo menos nominalmente, do rei de Kandy. O território do Vannyar de Trincomalee era esparsamente habitado e tinha uma extensão de 23 léguas.7 Trincomalee ficava situado entre as áreas nominalmente controladas pelos reinos de Kandy e Jaffna. A presença do rio Mahaweli Ganga, que passa perto de Trincomalee, facilitou as conexões com o planalto e com Kandy, e graças a isto, um intenso tráfego de mercadorias acontecia entre os portos de Kottiyar e Trincomalee. No vilarejo de Vintêna, que ficava a três léguas de Trincomalee, os kandyanos costumavam comercializar e trocar os produtos do Ceilão (principalmente elefantes e nozes de areca) por roupas, ópio e outros bens de consumo, com os mercadores procedentes do resto da Ásia.8

De acordo com o que Queyroz escreveu, Triquilemalê significa “montanha dos três pagodas”9 , estes pagodas foram construídos pelo rei do Ceilão num elevado promontório com vista para o mar; dois deles situavam-se na extremidade de um penhasco à beira-mar, enquanto o terceiro ficava no ponto mais alto do promontório. Este último pagoda, o templo de Koneswaram, era o mais importante de todos e um dos mais venerados de toda a Índia.10 A razão principal da importância de Trincomalee era este pagoda, que Queyroz denominou a Roma das populações do Oriente ou a Roma dos pagãos.11 O templo é assim descrito, numa carta datada de 1613 escrita pelo jesuíta Frei Barradas: “[O templo é] …uma estrutura maciça, uma obra de arte singular. Era um prédio de grande altura, construído com maravilhosa habilidade em granito escuro, numa rocha que se projeta para o mar, e ocupava uma grande área no topo do promontório.”12 A vila de Trincomalee situava-se no istmo do cabo onde ficavam os pagodas.

Continua: Os primeiros contatos com os portugueses

Mapa de Sri Lanka (Ceilão) (1681). Robert Knox. An Historical Relation of the Island Ceylon.
Mapa de Sri Lanka (Ceilão) (1681). Robert Knox. An Historical Relation of the Island Ceylon.

NOTAS:

1 Denominada pelos portugueses como: Triquinimale (Bocarro “Livro das Plantas…”, vol. II, pág. 238; Bocarro “Década 13 da História da Índia”, vol. I, pág. 11, Triquilemalê (Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. I, pág. 66), Trinquilamale (Bocarro “Década 13 da História da Índia”, vol. I, pág. 277), Triquilimale (“Carta do Vice-Rei da Índia”, Livros das Monções, Goa, vol. 37, fls. 129-129 v).

2 O monarca do reino de Kotte se auto-denominava imperador de toda a ilha, mas a autoridade dirigida do reinado de Kotte nas primeiras décadas do século XVI se estendiam exclusivamente pelas ricas e densamente povoadas terras compreendidas entre o curso dos rios Malwatu Oya ao norte e Walawe Ganga ao sul, enquanto que para o interior alcançava o limite das montanhas do planalto central. O reino que ocupava a parte montanhosa da ilha, pobre e escassamente povoada, era o de Kandy ou Udarata; este pelo menos nominalmente reconhecia o poder do reino de Kotte. Algumas zonas pouco habitadas situadas no lado leste da ilha e sujeitas a pequenos chefes ditos “vanniyars” ou “príncipes” nominalmente reconheciam a autoridade do reino de Kotte, e até mesmo eram de fato independentes. Já na região norte da ilha ficava o reino de Jaffna; este não reconhecia as pretensões de Kotte sobre toda a ilha. Em 1521, revoltas internas levaram à divisão do reino de Kotte e à subseqüente formação de três reinos: Kotte (governado por Bhuvanekabaho VII), Sitavaka (governado por Mayadunne) e Raigama (governado por Pararajasimha).

3 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. II, pág. 735

Os Veddah (Bedas) são a mais antiga população aborígene original da ilha. A palavra veddah é de origem cingalesa e significa selvagem. Ainda nos dias de hoje algumas comunidades Veddah remanescem, sendo que as três mais importantes situam-se perto de Batticaloa, Trincomalee e Anuradhapura.

4 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. III, págs. 1153-1154

5 Barros “Década III”, pág. 117

6 Chefe hereditário

7 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, pág. 286

8 Este comércio estava principalmente nas mãos de mercadores muçulmanos. Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. II, pág. 736

9 De acordo com os escritos de Queyroz, os pagodas foram construídos 1300 anos antes de Cristo. Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. I, pág. 67

10 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. I, pág. 66 e vol. II, pág. 736

11 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. I, págs. 236-237

12 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. II, pág. 366

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Bibliografias holandesas Bibliografias portuguesas Colonialismo neerlandês Colonialismo português Sri Lanka

Trincomalee: Bibliografia. A História de Trincomalee (Sri Lanka) durante os domínios Português e Neerlandês

Escrito por Marco Ramerini.

Continuação de: A primeira ocupação britânica e a rendição definitiva dos Neerlandeses

9.0 BIBLIOGRAFIA

MATERIAL CONSULTADO

Você também pode procurar as fontes citadas nas notas.

FONTES:

– Vários Autores “Livro das plantas, das fortalezas, cidades e povoações do Estado da Índia Oriental”, 1991 Codex n° 1471, Paço Ducal of Vila Viçosa library.

– Vários Autores “Costantine da Sa’s maps and plans of Ceylon, 1624-1628”, 1929, Colombo.

– Brohier, R.L. and Paulusz, J. H. O. “Land, maps & surveys. Descriptive catalogue of historical maps in the Surveyor General’s Office, Colombo”, vol. II, 1951, Colombo.

– Various Authors “Portuguese maps and plans of Ceylon, 1650”, 1926, Colombo.

– Various Authors “Documentos remetidos da Índia ou Livros das Monçỡes, 1625-1627”, 1999, Lisboa.

– da Silva Rego, António “Documentação para a história das missỡes do Padroado Português do Oriente. Índia”, 13 vols, Lisboa.

– Becker, Hendrick “Memoir of Hendrick Becker, Governor of Ceylon for his successor Isaac Augustyn Rumpf, 1716”, 1914, Colombo.

– Bocarro, António “O livro das plantas de todas as fortalezas, cidades e povoações do Estado da Índia Oriental”, 3 vols. Imprensa Nacional – Casa da Moeda.

– Bocarro, António “Década 13 da história da Índia”, 2 vols.

– Caen, António “Extracts from the Journal of the Commander António Caen”, in: Journal, R.A.S. (Ceylon), n° 35 (1887), “The capture of Trincomalee A.D. 1639”, pp. 123-140.

– Goens, Ryclof van “Memoir left by Riclof van Goens, Jun. Governor of Ceylon, 1675-1679 to his successor, Laurens Pyl”, Colombo.

– Perniola, V. “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, 3 vols. Tisara Prakasakayo Ltd, 1989-1991, Dehiwala.

– Queyroz, Fernão de “The temporal and spiritual conquest of Ceylon”, 3 vols. 28+xxviii+1274 pp. Asian Educational Services, 1992, New Delhi-Madras.- Da Silva Rego, António “Documentação para a história das missỡes do Padroado Português do Oriente. Índia”, 13 vols, Lisboa.

– Raven-Hart “The Dutch wars with Kandy, 1764-1766”, 1964, Colombo.

– Rhee, Thomas van “Memoir left by Thomas van Rhee, Governor of Ceylon, for his successor, Gerrit de Heere, 1697”, 1915, Colombo.

– Ribeiro, João “The historic tragedy of the island of Ceilão”, xvii+266 pp. Asian Educational Services, 1999, New Delhi-Madras.

– Schreuder, Jan “Memoir of Jan Schreuder, Governor of Ceylon, delivered to his successor Lubbert Jan Baron van Eck, March 17, 1762”, in: Selection from the Dutch records of the Ceylon Government, n° 5, 1946.

– Trindade, Paulo “Conquista espiritual do Oriente”, 3 vols, Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, 1962-1964-1967, Lisboa.

ESTUDOS:

– Vários Autores “History of Sri Lanka, volume II (c. 1500 to c. 1800)”, xxi+614 pp. University of Peradeniya, 1995, Peradeniya.

– Arasaratnam, S. “Dutch power in Ceylon, 1658-1687”, Navrang, 1988, New Delhi.

– Arasaratnam, S. “Ceylon and the Dutch, 1600-1800”, Variorum, 1996, Aldershot.

– Barner Jensen, U. “Danish East India. Trade coins and the coins of Tranquebar, 1620-1845”, 48 pp. Uno Barner Jensen, 1997, Brovst.

– Boudens “The Catholic Church in Ceylon under Dutch rule” 1957, Roma.

– Brohier, R.L. “Links between Sri Lanka and the Netherlands”, Netherlands Alumni Association of Sri Lanka, 1978, Colombo.

– Goonewardena, K. W. “The foundation of Dutch power in Ceylon, 1638-1658”, xx+196 pp. Netherlands Institute for International Cultural Relations, 1958, Djambatan – Amesterdão.

– Kanapathypillai, V. “Dutch rule in maritime Ceylon, 1766-1796” Unpublished thesis. University of London, 1969

– Kotelawele, A. “The Dutch in Ceylon, 1743-1766”, Unpublished thesis. University of London, 1968.

– Nelson, W. A. “The Dutch forts of Sri Lanka. The military monuments of Ceylon”, xiv+152 pp. Canongate, 1984, Edinburgh.

– Silva, Chandra Richard de “The Portuguese in Ceylon, 1617-1638”, 267 pp. H. W. Cave & Company, 1972, Colombo.

– Silva, O. M. da “Vikrama Bahu of Kandy. The Portuguese and the Franciscans (1542-1551)”, xv+110 pp. M. D. Gunasena & Co. Ltd., 1967, Colombo.

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– Winius, G. “Fatal history of Portuguese Ceylon. Transition to Dutch rule”, xxi+215 pp. Harvard University Press, 1971, Cambridge, Massachusetts.

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Política linguística de Timor-Leste: A Reintrodução do Português como Língua Oficial e de Ensino

Escrito por Dietrich Köster

1. Breve resumo histórico geral

Timor-Leste/Timor Português foi colonizado por Portugal, a partir dos princípios do século XVI. Esta presença durou até Agosto de 1975, período em que se iniciou uma guerra civil entre dois partidos políticos timorenses lutando pelo poder.

Nesta altura o pessoal português de administração e os membros portugueses da tropa – encabeçados pelo governador português, o então Coronel Mário Lemos Pires – retiraram-se para a ilha adjacente de Ataúro em busca de refúgio.

No dia 7 de Dezembro de 1975, de forma cruel, Timor-Leste foi invadido militarmente numa acção conjunta dos três ramos das forças armadas da Indonésia.

Quase 24 anos depois o regime de ocupação indonésio acabou depois da Consulta Popular, organizada pela Organização das Nações Unidas (ONU), a 30 de Agosto de 1999. A independência, promovida por esta organização, foi realizada a 20 de Maio de 2002.

2. A política linguística da potência colonial portuguesa até 1975

Durante todo o período colonial português a língua portuguesa tinha um papel eminente. Toda a administração se servia do português como única língua de comunicação oral e escrita. A língua de ensino em todos os estabelecimentos escolares era também exclusivamente o português. Esta atitude perante a língua portuguesa fez parte da política ultramarina de assimilação linguística e cultural do período colonial.

3. A política linguística da FRETILIN 1974-78

Pouco depois da fundação da Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente (FRETILIN) no ano de 1974 começaram os cursos de alfabetização, ministrados em língua tétum, a língua local mais importante. Estes cursos acabaram já em 1978 por causa do perigo de serem detectados pelos militares ocupantes indonésios. Por outro lado, a liderança deste partido continuou considerar o português como língua oficial.

4. A política linguística da potência ocupante indonésia 1975-99

Com a invasão indonésia, na forma de uma agressão combinada dos três ramos das forças armadas indonésias, a política linguística mudou completa e abruptamente. A língua indonésia, ou seja, o Bahasa Indonesia – uma língua artificial baseada na lingua malaia -, foi introduzida em todos os domínios da vida pública. A língua exclusiva das autoridades tornou-se o indonésio. Nas escolas todas as disciplinas eram dadas em indonésio. A maioria dos professores eram transmigrantes, sobretudo da ilha de Java, a ilha mais importante e mais povoada da Indonésia. A língua portuguesa foi proibida. Para os novos senhores da ocupação, o português era considerado como uma língua suspeita, porque não a conheciam e não queriam aprendê-la. Foi a razão pela qual o português foi excluído da vida pública em 1981. A única lingua aceite e ensinada a par do indonésio era o inglês, leccionado como língua estrangeira nas escolas secundárias.

Todas as novas inscrições eram em indonésio, se bem que os nomes das ruas continuassem a serem denominados na maneira portuguesa, antepondo a designação indonésia “jalan” para “rua”.

O resultado deste período de ocupação foi o seguinte:

A maioria dos habitantes com menos de 35 anos tem poucos conhecimentos da língua portuguesa, mas possui um bom domínio da língua indonésia. Há mesmo uma certa rejeição a aprender mais uma nova língua que não é de origem local.

Em 1992 a última escola com português como língua de ensino, o Externato de São José – uma escola da Igreja Católica – teve de fechar as suas portas. Somente os seminários menores e o maior desta igreja puderam continuar com o ensino do português. Mas a língua portuguesa foi abolida da missa sob pressão dos ocupantes a favor do tétum, a língua local mais conhecida.

5. O começo duma nova era após a Consulta Popular: a discussão da questão linguística

Com quatro línguas de relevância, Timor-Leste tem uma problemática delicada. São as línguas tétum, portuguesa, indonésia e inglesa que fazem concorrência entre si:

A língua nacional mais conhecida e bem enraizada é o tétum falado por aproximadamente 80% da população. A língua oficial tradicional durante séculos foi o português, que é falado actualmente só por 15% da população escolarizada durante o período em que o país foi uma província ultramarina portuguesa ou uma colónia, ainda que 77% da população em idade escolar frequentasse os vários graus de ensino no ano lectivo de 1973-74. Contudo um conhecimento passivo da língua portuguesa caracteriza uma grande parte da população graças ao imponente elemento português na língua tétum, hoje falada pela maioria dos leste-timorenses. De facto é impossível que um timorense tetumófono nada perceba de uma conversa ou um discurso em português.

A actual elite política sempre conservou os seus conhecimentos activos da língua portuguesa. A liderança da guerrilha FALINTIL sempre apostou no português como a língua que unisse todos os leste-timorenses.

A língua dos invasores indonésios, o Bahasa Indonesia é bastante bem conhecida pela nova geração por causa da alta percentagem de escolarização durante o regime indonésio. Esta camada etária gostaria de continuar com o indonésio como língua de comunicação geral.

Finalmente, o inglês é considerado como um meio de comunicação internacional por pessoas da nova geração, útil para fazer uma carreira profissional. Esta língua goza dum prestígio, que foi reforçado pela presença dos membros da Administração Transitória das Nações Unidas. Estas pessoas utilizavam o inglês.

6. A alocução do Professor Geoffrey Hull por ocasião do Congresso Nacional do CNRT em 2000

Foi o professor australiano Geoffrey Hull, da Universidade de Western Sydney, que deu um grande impulso à reintrodução da língua portuguesa graças a uma comunicação proferida por ocasião do Congresso Nacional do Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT) no dia 25 de Agosto de 2000. Afirmou que a língua principal nacional de Timor-Leste, o tétum, só se poderia desenvolver juntamente com o português. São estas duas línguas que garantiam, juntamente com a fé cristã, a identidade nacional de Timor-Leste.

Em contrapartida, o inglês seria pouco apropriado como língua oficial, porque esta língua aspira sempre por um papel dominador ameaçando as línguas locais. A Austrália, as Filipinas e Malta são exemplos de assassínio linguístico.

Por outro lado, o Bahasa Indonesia estaria inevitavelmente associado para a população leste-timorense, após 24 anos de genocídio, ao terror e à brutalidade. Assim, esta língua não poderia servir de língua oficial.

Após esta alocução, o Congresso Nacional do CNRT decidiu introduzir o português como língua oficial na futura República Democrática de Timor-Leste.

7. As disposições da Constituição da República Democrática de Timor-Leste relativas às línguas

Artigo 13

(Línguas oficiais e línguas nacionais)

1. O tétum e o português são as línguas oficiais da República Democrática de Timor-Leste. 2. O tétum e as outras línguas nacionais são valorizadas e desenvolvidas pelo Estado.

Artigo 159

(Línguas de trabalho)

A língua indonésia e a inglesa são línguas de trabalho em uso na administração pública a par das línguas oficiais, enquanto tal se mostrar necessário.

8. O apoio português na reintrodução da língua portuguesa

Contactos oficiosos entre o Instituto Camões de Portugal e o CNRT, antes de 30 de Agosto de 1999, foram transformados em contactos oficiais imediatamente depois da Consulta Popular, por meio de acordos entre o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal conjuntamente com o Ministério da Educação de Portugal e o CNRT, os dois Governos Transitórios e o primeiro Governo Constitucional respectivamente. Estes prevêem o envio de 145 professores para o ensino da língua portuguesa e de outras disciplinas em língua portuguesa. Este corpo docente está espalhado pelas escolas dos 13 distritos de Timor-Leste, variando entre 3 professores para Aileu e 49 para Díli. A coordenação é realizada pela Adida de Educação da Embaixada de Portugal.

Por outro lado, o Instituto Camões disponibiliza 16 formadores (incluindo a coordenadora), que fazem parte do Centro de Língua Portuguesa (CLP) ensinando português como língua especializada em cursos extracurriculares. Estes cursos dirigem-se sobretudo aos membros da administração pública de Timor-Leste, como por exemplo, os colaboradores dos vários ministérios, da Academia da Polícia, do Quartel dos Bombeiros, dos tribunais, dos Serviços Centrais da Administração, da Comissão do Plano, do Banco Nacional Ultramarino.

Existiam em Fevereiro de 2002 59 turmas com 1250 inscritos, com uma média de 21 alunos por turma, dos níveis de iniciação, elementar, intermédio e avançado.

As entidades privadas são também encorajadas a fazer solicitações para o estabelecimento de cursos especialmente organizados para elas, com um mínimo de 10 participantes.

Os membros do Ministério dos Negócios Estrangeiros são obrigados a participar, de segunda a sexta-feira, das 9 às 10 e das 17 às 18 horas nos cursos de conversação de português.

15 docentes universitários dão aulas para os estudantes que abrangem o estudo de língua portuguesa e culturas lusófonas na forma de licenciatura estabelecida recentemente na Universidade Nacional de Timor-Leste (UNTIL).

Além disso, há 7 professores portugueses que preparam os alunos que acabaram o curso de escola secundária para a frequência dum estudo numa universidade em Portugal. Os docentes foram destacados pela Fundação das Universidades Portuguesas (FUP).

Finalmente, há cursos gerais de aprendizagem da língua portuguesa para todos os estudantes interessados. Assim, foram instituídas turmas para 5000 participantes.

O núcleo de promoção de todas as actividades de ensino do português é o Centro de Língua Portuguesa (CLP), fazendo parte da Universidade Nacional de Timor-Leste (UNTIL) e sendo apoiado e financiado pelo Instituto Camões.

9. A introdução da língua portuguesa nas escolas primária e secundária

A Escola Primária abrange os primeiros seis anos de escolaridade. No ano lectivo 2001/2002, as disciplinas eram ministradas, nos primeiros três anos do ciclo básico, em lingua portuguesa de manhã. A lingua tétum servia como língua auxiliar oral, caso houvesse problemas de compreensão. Cada ano lectivo é adicionada mais uma classe com a língua portuguesa como meio de ensino.

De tarde, os professores leste-timorenses frequentavam um curso de aperfeiçoamento na língua portuguesa leccionado pelos professores chegados de Portugal e distribuídos pelos 13 distritos de Timor-Leste.

Enquanto na Escola Primária o progresso da introdução da língua portuguesa avança cada ano mais, em detrimento da língua indonésia, as aulas da Escola Pré-Secundária (7. ao 9. ano) e as da Escola Secundária (10. ao 12. Ano) ainda continuam geralmente a serem dadas em língua indonésia. Por outro lado, existem já aulas intensivas de língua portuguesa como disciplina para todos os alunos, dadas por professores de Portugal.

Os primeiros livros vieram de Macau, território português até fins de 1999, mas, entretanto, a maioria dos livros escolares para os alunos são publicações impressas em Portugal. Suplementarmente todos os professores receberam uma “Mala Pedagógica” com vários livros, como ferramenta útil de ensino da língua portuguesa.

10. A introdução do português na Universidade Nacional de Timor-Leste

Na UNTIL a língua indonésia é ainda o meio de comunicação dominante. Mas com os cursos de língua portuguesa oferecidos a milhares de estudantes, os conhecimentos do português aumentam cada vez mais. Até agora a língua utilizada depende do docente. No caso de professores lusófonos pode ser feita uma tradução para a língua tétum. Em princípio pode dizer-se que o número de cursos dados em português tem vindo a subir.

11. A introdução do português como língua oficial

A partir do Dia da Independência todos os documentos deveriam estar redigidos ou em língua portuguesa ou em língua tétum. Caso haja a necessidade, podem utilizar-se ainda as línguas inglesa ou indonésia como línguas de trabalho. Actas importantes realizadas durante o período da Administração Transitória das Nações Unidas (Novembro de 1999 até Maio de 2002) devem ser traduzidas pelo menos do inglês para o português.

12. Medidas de apoio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC)

1. Desenvolvimento Empresarial e Formação Profissional em Timor-Leste

É um centro de formação profissional do ramo técnico no Bairro Becora da capital Díli que foi inaugurado pelo ministro brasileiro das Relações Exteriores Celso Lafer a 21 de Maio de 2002, o dia depois da independência. Os cursos são dados em português com tétum como língua auxiliar oral.

2. Alfabetização Comunitária em Timor-Leste

Trata-se de cursos de alfabetização em todos os distritos de Timor-Leste para adultos com métodos introduzidos à base de experiências feitas no Nordeste do Brasil. Ensina-se tudo em português, mas com tétum como meio auxiliar oral.

3. Formação de Professores e Alunos com Recurso da Educação à Distância em Timor-Leste

Neste curso utilizam-se meios modernos do audio-visual como cassetes áudio e vídeo, bem como livros de texto tradicionais para jovens e adultos nos ensinos primário e pré-secundário. Além disso, tenciona-se formar professores leigos em exercício para o ensino primário. O programa brasileiro de “Parâmetros em Ação” procura aperfeiçoar professores na sala de aula. Nos cursos utiliza-se a língua portuguesa com o tétum como fala auxiliar oral.

13. Perspectivas de reintrodução da língua portuguesa em Timor-Leste

Graças ao generoso apoio português, a reintrodução da língua portuguesa está cada vez mais em expansão. No planeamento do Instituto Camões espera-se que pelo menos um em cada dois leste-timorenses seja fluente na língua portuguesa dentro dum prazo de dez anos.

Com a adesão de Timor-Leste à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), a 31 de Julho de 2002, os laços com os países de língua oficial portuguesa fortalecerá ainda mais a lusofonia de Timor-Leste.

BIBLIOGRAFIA:

– Tavares Esperança, João Paulo, Estudos de Linguística Timorense, SUL – Associação de Cooperação para o Desenvolvimento, com o Apoio do Comissariado para o Apoio à Transição em Timor. Aveiro 2001, ISBN 972-97343-1-X

– Camões, Revista de Letras e Culturas Lusófonas, número 14 – Timor Lorosa’e, Julho-Setembro de 2001, Instituto Camões, Lisboa 2002, ISSN 0874-3029

– Tinoco. Jacinto, Não haverá unidade nacional sem unidade linguística, em: Boletim de Notícias, Associação Cultural Luso-Timorense, Edição número 3, pág. 1, Díli Abril de 2002

– Hull, Geoffrey, Timór-Lorosa’e, Identidade, Lian no Polítika Edukasionál/Timor-Leste, Identidade, Língua e Política Educacional, Instituto Camões, Lisboa 2001

– Thomaz, Luís Filipe F.R., Babel Loro Sa’e, O Problema Linguístico de Timor-Leste, Colecção Cadernos Camões, Instituto Camões, Lisboa 2002

– Leclerc, Jacques, L’Aménagement linguistique dans le monde: Timor Loro-Sa’e (République de Timor Lorosae), Universidade Laval, Quebeque 2004, https://www.axl.cefan.ulaval.ca/asie/timor-1_situation.htm

Veja também:

– Dietrich Köster (Bona), Política linguística de Timor-Leste: a reintrodução do português como língua oficial e de ensino, Lusorama, 57-58, Francoforte do Meno Maio de 2004, pág. 172-179, ISSN 0931-9484

– Dietrich Köster (Deutsche Gesellschaft für die afrikanischen Staaten portugiesischer Sprache), Política linguística de Timor-Leste: a reintrodução do português como língua oficial e de ensino, ESTUDOS DE LÍNGUAS E CULTURAS DE TIMOR-LESTE/Studies in Languages and Cultures of East Timor, número 6, 2004, pág. 1-7, INSTITUTO NACIONAL de LINGUÍSTICA da Universidade Nacional Timor Lorosa’e, ISSN 1441-1105

– LUSOPHONIE IN GESCHICHTE UND GEGENWART, Festschrift für Helmut Siepmann zum 65. Geburtstag, editado por Richard Baum e António Dinis, Dietrich Köster, Política linguística de Timor-Leste: a reintrodução do português como língua oficial e de ensino, pág. 123-129, Bona 2003, ISBN 3-86143-145-9 e ISSN 0178-8515

© Dezembro de 2004 por Dietrich Köster, D-53115 Bonn 

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Colonialismo português

Império Português: Mapas da África, América e Ásia

Escrito por Marco Ramerini. Tradução por Dietrich Köster

Em qualquer lugar da costa da Ásia, América e África poderá encontrar uma fortaleza, uma igreja, um nome geográfico ou um nome de família, que vêm de Portugal. Estes são os restos do primeiro país europeu que explorou o mundo em busca de especiarias e almas. O sonho de Afonso de Albuquerque foi uma infusão de sangue português em cada uma das colónias. Como o governador holandês Antonio van Diemen disse em 1642: “A maioria dos portugueses na Ásia olha para esta região como a sua pátria e não pensa mais a Portugal”.

No século XV uma pequena nação como Portugal começou a explorar o Oceano Atlântico, desde 1415 (conquista de Ceuta em Marrocos). Os Portugueses exploraram as costas da Africa em busca de um caminho para as Índias, e em 1487 Bartolomeu Dias dobrou o Cabo da Boa Esperança. Depois de dez anos (1497-1499) Vasco da Gama chegou às Índias (18 de maio de 1498), e abriu uma nova rota comercial entre a Europa e a Ásia. Esta pequena nação foi a governante do Oceano Índico para cerca de 150 anos e o idioma português, foi durante mais de 250 anos, a lingua comercial (língua franca) das costas asiáticas.

No início do século XVII, uma outra pequena nação, as Províncias Unidas dos Países Baixos tomou o lugar de Portugal. As Províncias Unidas com a Companhia Neerlandesa das Índias Orientais/VOC (Verenigde Oost-Indische Compagnie) e a Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais/GWC-WIC (Geoctroyeerde West-Indische Compagnie) determinou a cena durante quase 150 anos, até a vinda do poder britânico. Amesterdão foi a capital comercial e financeira de toda a Europa e os Países Baixos eram a nação comercial liderante.

MAPA DO IMPÉRIO PORTUGUÊS EM ÁFRICA E AMÉRICA

Mapa das colônias portuguesas na África e na América por volta de 1600. Autor Marco Ramerini
Mapa das colônias portuguesas na África e na América por volta de 1600. Autor Marco Ramerini

MAPA DO IMPÉRIO PORTUGUÊS NA ÁSIA

Mapa das colônias portugueses na Ásia por volta de 1600. Autor Marco Ramerini
Mapa das colônias portugueses na Ásia por volta de 1600. Autor Marco Ramerini

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Colonialismo neerlandês Colonialismo português Sri Lanka

Trincomalee: A conquista neerlandesa e o abandono do forte

Escrito por Marco Ramerini. Tradução feita por João Bergmann

Atrás: A chegada dos dinamarqueses e neerlandeses e a construção do forte português

4.0 A CONQUISTA CONQUISTA NEERLANDESA E O ABANDONO DO FORTE

O primeiro ataque dos neerlandeses contra os fortes portugueses do Ceilão foi dirigido à costa leste da ilha, onde os portugueses não eram tão fortes. O primeiro objetivo foi o forte de Batticaloa.

Em 9 de abril de 1638, o comandante holandês Coster chegou a Batticaloa com três navios; no dia 10 de maio, cinco outros navios holandeses chegaram ao local, e quatro dias mais tarde, foi a vez das tropas do rei de Kandy, com 15 mil homens. O forte foi bombardeado e no dia 18 de maio de 1638, após uma resistência pífia de apenas quatro horas, a guarnição do forte de Batticaloa foi forçada a se render.1 Durante o ataque holandês, cerca de 700 pessoas haviam procurado refúgio no forte, sendo 50 deles portugueses e mestiços; os restantes eram habitantes nativos que residiam na vila próxima ao forte, a qual tinha sido incendiada pouco antes do ataque dos holandeses. Todos os oficiais e soldados portugueses foram deportados para a cidade de Negapatam, que estava sob controle português, situada na costa de Coromandel, enquanto aos mestiços e aos outros habitantes de Batticaloa foi permitido permanecer no local.2 Depois da conquista, os holandeses deixaram no local uma guarnição de cem soldados sob o comando de Willem Jacobsz Coster, que havia comandado as tropas holandesas no cerco ao forte.

Como conseqüência da vitória obtida em Batticaloa, e após algumas tentativas mal sucedidas, os holandeses, sob o comando do almirante Westerwold, conseguiram fazer o rei de Kandy, Rajasinha II, assinar um tratado de aliança anti-português, no qual os holandeses prometiam se engajar na ajuda a Rajasinha II em sua guerra contra os portugueses, obtendo em troca o monopólio do rico comércio da ilha. Foi assim que, em virtude do tratado de aliança com Rajasinha, os holandeses atacaram os outros assentamentos portugueses ao longo da costa do Ceilão, com a ajuda das tropas do reino de Kandy.

O forte de Trincomalee foi o segundo objetivo a cair nas mãos dos holandeses, e foi conquistado após um curto cerco, durante o qual, segundo o que é narrado por Ribeiro, 23 soldados da guarnição portuguesa foram mortos.3

O comandante holandês Antonio Caen nos auxilia com seu diário na descrição dos eventos. Ele descreve os preparativos para o cerco, o bombardeio do forte português e a rendição da guarnição.4 A frota sob o comando de Caen era composta por 11 navios, com 353 canhões e 1280 homens a bordo, dos quais 325 eram soldados e os demais marinheiros.5 Os navios holandeses chegaram à baía de Coutijar ao anoitecer de 18 de abril de 1639, e lá os holandeses encontraram o governador de Samantura (Sammanture), que havia chegado por terra de Batticaloa. No dia seguinte, o waniya6 de Kottiyar visitou os holandeses, descrevendo com detalhes as defesas do forte e a consistência da guarnição portuguesa. De acordo com o testemunho do waniya, o forte tinha dimensões semelhantes ao de Batticaloa, contando com três bastiões. O bastião voltado para a terra e o que vigiava a baía contavam com seis canhões cada, enquanto que o bastião que controlava o mar tinha apenas dois canhões. Todas as peças de artilharia eram de ferro e haviam sido retiradas de um navio dinamarquês que tinha naufragado na baía cerca de vinte anos antes. A guarnição era composta por 40 portugueses e aproximadamente cem mestiços e negros. Além desses, havia uns 30 casados com suas famílias.

No dia 20 de abril, um grupo de soldados holandeses chefiados pelo vice-comandante Coster fez uma inspeção da defesa do forte, durante a qual foram localizados alguns pontos fracos. No dia seguinte, com dois botes, eles exploraram o lado nordeste do forte. No dia 22 de abril, cerca de 60 soldados foram desembarcados para inspecionar o forte mais de perto. Eles chegaram tão perto que a guarnição portuguesa disparou dois tiros de advertência.

No dia 23 de abril de 1639, de manhã cedo, os holandeses desembarcaram 40 marinheiros e vários soldados, os quais começaram a abrir um caminho para tornar possível o transporte de artilharia para um cerco, tendo sido escolhido um local para a instalação de uma bateria. Enquanto estes trabalhos progrediam, os portugueses do forte dispararam vários tiros de canhão e mosquete com o propósito de atrapalhar os holandeses. Um grupo de 30 negros tentou um ataque, que foi repelido pelos soldados holandeses.

Na manhã seguinte, outros marinheiros e soldados desembarcaram, os quais começaram a trabalhar na instalação de baterias. Os portugueses tentaram um novo ataque, e na escaramuça que se seguiu, um holandês foi mortalmente ferido. Os holandeses continuaram a trabalhar nas baterias durante todo o dia, e mais canhões foram desembarcados dos navios. Quando a noite chegou, a construção de três casamatas estava praticamente terminada.

No dia 25 de abril, cinco soldados da guarnição do forte desembarcaram num pequeno bote perto do local onde os holandeses estavam escavando trincheiras. Seguiu-se um enfrentamento durante o qual um soldado holandês foi ferido e um negro morreu. Apesar dessas inconveniências, ao anoitecer os holandeses haviam acabado a construção de dez canhoneiras (baterias), sendo que quatro delas já estavam cercadas por paliçadas. Durante o dia 26 houve a primeira troca de salvas de artilharia entre o forte e as baterias holandesas. Durante toda a tarde os portugueses bombardearam intensamente as posições holandesas, porém, como informa Caen em seu diário, os projéteis de canhão utilizados pelos portugueses eram, na sua maioria, feitos de pedra, o que denota a falta de balas de ferro para os canhões. Os holandeses, por seu lado, bombardearam algumas defesas que os portugueses estavam construindo perto da entrada principal do forte. A troca de tiros terminou com dois holandeses feridos e um negro morto. Subseqüentemente, outras peças de artilharia foram desembarcadas dos navios e instaladas nas baterias, que agora estavam praticamente concluídas. Para evitar qualquer tipo de comunicação ou ajuda vinda do mar para os sitiados, dois navios, o “Ryswyck” e o “Nachtegael” foram enviados para vigiar o lado do forte voltado para o mar. No dia seguinte, os trabalhos continuaram incessantemente, apesar dos tiros vindos do forte.

No dia 28 de abril, ao final da manhã, o navio “Cleyn Amsterdam” chegou de Batticaloa, com o embaixador Jacob Compostel a bordo. Ele trouxe a notícia de que Rajasinha estava envolvido no ataque aos portugueses nas cercanias de Colombo, e assim não poderia juntar-se aos holandeses. No entanto, ele informou Caen que em breve enviaria alguns mudaliyars7 com uma força de 4000 soldados para ajudá-lo no sítio a Trincomalee. As tropas holandesas sofreram muito em conseqüência do clima da região, e Caen informa que muitos homens morreram por esta razão. Decidiu-se apressar o ritmo, para que tudo estivesse pronto no dia 1° de maio. Na tarde de 28 de abril, Caen desembarcou para verificar os trabalhos. Os soldados foram organizados em três companhias formadas por 70 soldados cada uma, e, além disso, foi formada uma quarta companhia, esta composta por soldados e marinheiros. As tropas foram passadas em revista. Nos dois dias que se seguiram, os trabalhos nas baterias foram terminados e todas as peças de artilharia foram posicionadas.

Em 1° de maio de 1639, uma hora antes do alvorecer, todos os soldados foram desembarcados. Os holandeses decidiram dirigir o ataque principal contra o bastião norte8 mas ao mesmo tempo também o bastião Sta. Cruz, situado mais a oeste, foi bombardeado, para que não fosse utilizado pelos portugueses. O efeito do bombardeio nas defesas do forte foi devastador; depois de uma hora e meia de intensa troca de tiros, praticamente todas as armas portuguesas haviam sido destruídas, e a guarnição conseguia atirar somente com os mosquetes. Após três horas de bombardeio contínuo, uma larga brecha tinha sido aberta no bastião S. Jago, possibilitando que os holandeses entrassem facilmente no forte. Caen decidiu então que havia chegado a hora de enviar o tenente Blaauw com um soldado tocando um tambor e portando uma bandeira branca, para propor à guarnição portuguesa uma rendição em termos favoráveis; os negociadores, todavia, foram recebidos a tiros e forçados a uma rápida retirada. Depois deste comportamento desonroso por parte da guarnição portuguesa, o bombardeio do forte foi retomado e, após uma reunião no navio “Armuyden”, ficou decidido que, na manhã seguinte, seria preparado um ataque ao bastião S. Jago e à muralha ao lado do bastião Sta. Cruz. O bastião S. Jago foi descrito na reunião como quase inteiramente demolido, e suas armas fora de combate, já que desde as dez horas da manhã não houve qualquer disparo vindo do forte. Um plano detalhado para o assalto final ao forte foi acordado, o qual previa a participação de 514 homens, entre soldados e marinheiros.

Enquanto os preparativos dos planos do assalto estavam bem avançados, dois capitães portugueses chegaram do forte portando uma bandeira branca, enviados pelo comandante da fortificação, pedindo desculpas pela recepção anterior dada aos negociadores, a qual havia sido feita por soldados inexperientes. Caen os intimou a se renderem, dada a miserável condição à qual o forte tinha sido reduzido pela artilharia holandesa, mas eles resolutamente recusaram-se a fazê-lo, dizendo que dentro do forte havia uma guarnição de 300 portugueses, e que apenas um negro e um kanares tinham sido mortos pelos bombardeios. O comandante holandês determinou que os dois fossem colocados sob custódia e mandou continuar os preparativos para o ataque.

Na madrugada de 2 de maio, enquanto os soldados holandeses preparavam-se para o assalto definitivo, um padre e outra pessoa portando uma bandeira de trégua avançaram do forte. Eles declararam que estavam ali para negociar a rendição; os portugueses pediam para que fossem deixados livres para abandonarem o forte levando suas provisões e seus escravos, e que os pescadores (Careas) 9pudessem segui-los. Caen cedeu em parte às demandas, mas negou a permissão para que os pescadores seguissem os portugueses. Além disso, ele limitou as opções de locais para onde os portugueses poderiam ir a Tranquebar e Nagapatnam, não permitindo peremptoriamente que eles se transferissem para Jaffnapatnam ou qualquer outro lugar no Ceilão. O padre, depois de ter estas condições asseguradas pelos holandeses, retornou ao forte para relatar ao comandante português as condições da rendição. Enquanto isso, rapidamente, as tropas holandesas aproximaram-se do forte para um possível assalto. O padre retornou em seguida, entregando as chaves do forte e declarando que a guarnição havia aceitado as condições de rendição. Uma companhia de soldados holandeses entrou então no forte, ordenando que os soldados da guarnição abandonassem suas armas no forte e deixassem seus nomes num registro. O comandante do forte, Francisco Deça10 juntamente com seus capitães e soldados da guarnição, aguardaram por Caen e, como sinal de submissão, entregou a Caen sua espada. Este, em sinal de cortesia, devolveu a espada ao comandante português. Foi, portanto, em 2 de maio de 1639, depois de alguns dias de cerco11 que terminou o breve período de ocupação portuguesa em Trincomalee.

Os holandeses encontraram o forte em estado deplorável. Os canhões dos bastiões S. Jago e Sta. Cruz haviam sido arrancados de suas bases e estavam sob as ruínas da muralha.12 Segundo o testemunho de Caen, duas horas depois da ocupação do forte chegaram os reforços prometidos por Rajasinha, cerca de 3000 combatentes comandados por dois mudaliyars. Mais tarde, uma cerimônia de ação de graças pela vitória foi celebrada dentro da igreja portuguesa. As baixas holandesas foram de dois mortos e dois feridos, enquanto que no lado português morreram 11 europeus, um mestiço e dois kanars, além de nove feridos.13 Depois da conquista do forte houve alguns episódios de violência contra os habitantes portugueses, o que forçou Caen a publicar um “placaat”14 no qual ele ameaçava enforcar os culpados por tais ações, fossem eles holandeses ou cingaleses.

De acordo com a versão holandesa dos fatos, os dois mudaliyars chegaram com suas tropas logo após a ocupação do forte, e logo demandaram que este ficasse sob o controle de suas tropas. Os holandeses responderam exibindo o tratado assinado pelo rei, no qual estava claramente indicado que os fortes capturados deveriam ser ocupados por guarnições holandesas.15 Assim sendo, os holandeses se acharam no direito de ocupar o forte com sua própria guarnição. O comando da guarnição do forte ficou a cargo do fiscal Gerrit Herbers. A ocupação pelos holandeses do forte de Trincomalee, sem a cessão do mesmo as suas tropas, irritou sobremaneira o rei de Kandy, que protestou veementemente junto aos holandeses por não terem cedido aos seus desejos. Ele chegou ao ponto de bloquear o carregamento de suprimentos para as tropas da guarnição do forte, mas voltou atrás quando sua ira amainou.

No mesmo ano, os holandeses reconstruíram e reforçaram o forte, mas no ano seguinte (1640), como resultado de um acordo com os kandyanos, a edificação foi abandonada 16 e, em troca de dez elefantes, cedida ao rei de Kandy17, Poucos anos depois, o forte foi demolido (talvez em 1643) pelos kandyanos. Em 1641 também o forte de Batticaloa foi cedido aos kandyanos, que imediatamente o demoliram. A razão da cessão dos dois fortes ao rei deve ser pesquisada mais profundamente, já que, além da demanda contínua do rei pelas duas fortificações, existe o fato de que os holandeses perceberam que os territórios onde ficavam as fortificações dariam pouco lucro.18

Os portos da costa leste, Trincomalee, Kottiyar e Batticaloa, foram utilizados durante o período em que estiveram sob o controle do reino de Kandy como portos de livre comércio com os outros reinos asiáticos, assim como com outras potências da Europa, principalmente Inglaterra19 e Dinamarca, fato que irritou bastante os holandeses. Através dos três portos os kandyanos comercializavam arroz, marfim, elefantes, areca, mel, madeira, tecidos e outros bens de primeira necessidade. O porto de Kottiyar, em particular, foi intensamente utilizado pelos kandyanos. Lá existia um posto de alfândega que funcionou até 1668, ano no qual os holandeses voltaram a ocupar a região. Depois desta ocupação, a alfândega foi transferida mais para o interior da ilha, em Minneriya. Uma estrada ligava o planalto de Kandy a Matale e Kottiyar, seguindo em sua maior parte o curso do rio Mahaveli Ganga. Toda esta região utilizava o porto de Kottiyar para o comércio com o exterior. Um mercado onde a troca de mercadorias acontecia foi implantado em Killevetty, a poucas milhas da costa. Em Kottiyar estabeleceu-se também uma colônia de chetties.

Continua: A nova ocupação holandesa e a reconstrução do Forte

Mapa de Trincomalee por Antonio Bocarro (1635). Livro das Plantas de todas as fortalezas, cidades e povoaçoens do Estado da Índia Oriental (1635)
Mapa de Trincomalee por Antonio Bocarro (1635). Livro das Plantas de todas as fortalezas, cidades e povoaçoens do Estado da Índia Oriental (1635)

NOTAS:

1 Goonewardena, pág. 17.

2 Seus descendentes, aproximadamente 2000 pessoas, ainda hoje falam um português crioulo, e são católicos.

3 Ribeiro “The historic tragedy of the island of Ceilão”, págs. 105-106.

4 Em: J.R.A.S. (Ceylon) n°35 (1887) “The capture of Trincomalee A.D. 1639”, págs. 123-140.

5 Os nomes dos navios eram: “Utrecht”, “Henrietta Louisa”, “Egmont”, “S. Hertogenbosch”, “Wassenaar”, “Der Veer”, “Armuyden”, “Valkenburgh”, “Reyneburch”, “Onderwater”, “Zeeuwsch Nachtigael”. O diário de Caen indicava que a nave capitânia era o “Armuyden”.

6 Chefe hereditário.

7 Um chefe militar.

8 Denominado S. Jago por Caen e segundo descrição de Bocarro era chamado Sancto Antônio.

9 Casta de pescadores tamis.

10 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. III, pág. 817.

Francisco Deça era um homem casado de Colombo; ele logo retornaria ao Ceilão, porque ele é mencionado por Queyroz entre os feridos na batalha de Caymel (Kammala) em dezembro de 1639 (segundo Goonewardena, em janeiro de 1640 “The foundation of Dutch power…”, pág. 31), contra os holandeses. Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. III, pág. 823.

11 Queyroz indica a duração do cerco como sendo de 40 dias de bombardeio. O diário de Caen, entretanto, claramente relata que os holandeses chegaram a Trincomalee no dia 18 de abril de 1639, e o forte rendeu-se no dia 2 de maio (14 dias, portanto). Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. III, pág. 817.

12 O estado deplorável ao qual os bastiões do forte foram reduzidos deveu-se também a sua construção falha, já que as paredes continham terra no seu interior. Ribeiro “The historic tragedy of the island of Ceilão”, pág. 105.

13 Isto de acordo com o diário de Caen, enquanto segundo Ribeiro os mortos entre os portugueses foram 23 de um total de 50 homens da guarnição. Ribeiro “The historic tragedy of the island of Ceilão”, pág. 105.

14 Uma ordem.

15 Em: J.R.A.S. (Ceylon) n°35 (1887) “The capture of Trincomalee A.D. 1639”, págs. 123-140, também em Goonewardena, pág. 28.

16 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. III, pág. 848.

17 Winius “Fatal history of Portuguese Ceylon”, págs. 43-44.

18 Goonewardena, pág. 65 e nota 24, pág. 77.

19 Em 1659 chegou a Kottiyar um navio inglês, a bordo do qual estava Knox.

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Trincomalee: A chegada dos dinamarqueses e neerlandeses, e a construção do forte português

Escrito por Marco Ramerini. Tradução feita por João Bergmann

Atrás: Os primeiros contatos com os portugueses

3.0 A CHEGADA DOS DINAMARQUESES E NEERLANDESES, E A CONSTRUÇÃO DO FORTE PORTUGUÊS

A importância estratégica do controle sobre as baías e portos da costa leste do Ceilão ficou clara coma chegada dos primeiros contendores europeus aos mares da Ásia. Na verdade, o primeiro contato entre os holandeses e o rei de Kandy tinha acontecido em 1602 na região de Batticaloa. Em junho daquele ano, o almirante holandês Joris Van Spilbergen desembarcou naquele local e de lá prosseguiu em direção a Kandy, na tentativa de estabelecer uma aliança contra os portugueses. Spilbergen teve sucesso ao obter proteção e privilégios de comércio para os mercadores holandeses, e partiu de regresso à Europa em setembro de 1602. Três meses mais tarde, outra expedição holandesa chegou a Batticaloa, tendo em seu comando o vice-almirante Sebald de Weert. Este foi inicialmente recebido com grande entusiasmo pelo rei de Kandy, Vimala Dharma Suriya I, mas em sua segunda visita ao rei, devido a seu mau comportamento, as relações se deterioraram e de Weert foi morto. A costa leste, especialmente Batticaloa, era na época o local preferido de desembarque das frotas holandesas na tentativa de contato com o rei de Kandy.

Todavia, os primeiros europeus que tentaram estabelecer um assentamento inicial em Trincomalee não foram nem os portugueses nem os holandeses, mas sim os dinamarqueses. Eles chegaram ao Ceilão no final de 1619 com um primeiro navio, chamado “Oresund”, sob o comando de Roelant Crape. Esta pequena expedição era na realidade a vanguarda de outra frota dinamarquesa, esta composta por quatro navios e trezentos soldados, comandada por Ove Giedde, a qual chegou à ilha em maio de 1620. Esta expedição havia sido equipada pela Companhia Dinamarquesa das Índias Orientais1 a qual, tentando imitar o sucesso da Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC), queria tentar a sorte nos mares asiáticos.

A expedição dinamarquesa ocupou o templo de Trincomalee, e foi ali que os dinamarqueses começaram os trabalhos de fortificação da península. No início, o rei de Kandy, Senarat, foi um tanto frio em relação aos dinamarqueses. Ele tinha, na verdade, pouco tempo antes (agosto de 1617), concluído um tratado de paz com os portugueses, e Senarat entendia que a pequena expedição dinamarquesa jamais poderia destruir o poder português na ilha, assim que ele inicialmente sugeriu que os dinamarqueses formassem uma aliança com Mayadunne2, o qual ainda estava em guerra contra os portugueses. Contudo, mais adiante, ele consentiu em assinar uma aliança com a companhia dinamarquesa e, em 21 de agosto de 1620, foi assinado um tratado de aliança entre os dinamarqueses e o rei Senarat, contra os portugueses. O rei enviou 60 homens a Trincomalee para ajudar os dinamarqueses na construção do forte. Durante sua permanência em Trincomalee, os dinamarqueses cunharam algumas moedas (“larins”), nas quais foram gravadas as palavras “Don Erich Grubbe”. Não existe hoje nenhum traço dessas moedas, a não ser no diário de Ove Giedde.3 Queyroz também nos informa sobre esta expedição dinamarquesa: ele relata que cinco grandes navios dinamarqueses estavam no porto de Trincomalee, onde, com a ajuda dos cingaleses, estava sendo construído um palácio fortificado. Os portugueses não ficaram nada satisfeitos com esta nova intrusão nos assuntos da ilha e reagiram prontamente: O Capitão Geral marchou sobre Trincomalee e enviou os capitães Cabral e Barreto a Kottiyar, onde um dos navios inimigos estava ancorado. Os dinamarqueses foram forçados a uma retirada apressada, na qual perderam dois navios e alguns homens.4 Subseqüentemente, em 1621, os dinamarqueses, dizimados por doenças, abandonaram o empreendimento.

Após esta tentativa dinamarquesa, os portugueses compreenderam a urgência de pelo menos estabelecer uma base fortificada na costa leste do Ceilão, para melhor poderem controlar o tráfego de mercadorias ao longo da costa e o próprio reino de Kandy. Os portugueses acreditavam, erradamente, que os dinamarqueses haviam sido chamados pelo rei Senarat, sendo desrespeitado assim o tratado de paz assinado em agosto de 1617. Entrementes, a coroa portuguesa, primeiro em 1619 e depois outra vez em 1620, tinha enviado novas ordens para as fortificações de Trincomalee e Batticaloa, mas isto significava quebrar o tratado de paz e reiniciar o conflito com Kandy. As notícias sobre a expedição dinamarquesa não fizeram mais do que confirmar para os portugueses a necessidade de ocupar os portos da costa leste da ilha.

Em 1623, Constantino de Sá e Noronha chegou ao Ceilão pela segunda vez como Capitão Geral, e desta vez ele havia recebido ordens específicas do vice-rei Dom Francisco da Gama para prosseguir até a fortificação de Trincomalee .5 Ele não perdeu tempo e, em julho de 1623, chegou a Trincomalee, decidido a fortificar a baía para estancar o comércio, ilegal aos olhos dos portugueses, que o rei de Kandy, através de mercadores muçulmanos, mantinha com outros reinos da Ásia; além disso, razão ainda mais importante, para evitar que outras nações européias se utilizassem de Trincomalee como base para conquistar a ilha.6 O local escolhido para a construção do forte foi o do templo de Konesar (Koneswaram), onde já tinham se instalado os dinamarqueses, durante sua breve ocupação. Desta vez o templo foi destruído, e as pedras utilizadas na construção do forte português. Durante a destruição do templo, os portugueses encontraram um pedaço de rocha com escritos em cingalês antigo, o qual previa a destruição por um povo (chamado de “francos”), com o qual os portugueses se identificaram. De acordo com as inscrições, o templo jamais seria reconstruído. Esta rocha foi colocada na entrada do forte português.7 O rei de Portugal, informado da construção do forte, elogiou Constantino de Sá e Noronha e ordenou, apesar da opinião em contrário deste, a construção de um forte em Batticaloa. Além disso, o rei sugeriu a transferência de parte dos cristãos da Costa da Pescaria para o Ceilão (Trincomalee), para povoar a ilha.8

Constantino de Sá deixou uma guarnição de 80 portugueses e 100 lascarinos9 sob o comando de Francisco Pinto Pimenta10, para terminar os trabalhos no forte e estender a influência portuguesa aos vilarejos vizinhos, assim garantindo provisões e homens para o trabalho. Inicialmente foram instaladas no forte 14 peças de artilharia, as quais foram transportadas com grande esforço a partir de navios dinamarqueses naufragados.11 Os portugueses colocaram sob seu controle direto as vilas adjacentes (Tambalagama, Gantale, etc.), às quais foi imposto um tributo: as localidades precisavam suprir o capitão do forte com elefantes e arroz.12 O rei de Kandy, como represália, organizou diversas expedições contra tais vilarejos para evitar qualquer tipo de auxílio aos portugueses.13 No ano seguinte, 162414), os portugueses foram forçados a organizar uma nova expedição; mais uma vez Constantino de Sá chegou a Trincomalee, agora terminando os trabalhos de construção do forte. Na ocasião, também foi estabelecida uma comunidade de 30 “casados”, vindos de Goa.

A construção do forte e a conseqüente destruição do templo complicaram bastante o relacionamento com Senerat, o rei de Kandy, pois este sentiu-se sitiado: os melhores portos da ilha estavam em poder dos portugueses, e o reino de Kandy arriscava tornar-se dependente dos portugueses para toda atividade comercial e qualquer contato com o exterior. Parece que um papel importante na tentativa de acalmar a reação do rei à ocupação de Trincomalee foi o do frei franciscano Eleutério de Santiago, que tinha sido enviado a Kandy por Constantino de Sá exatamente com este propósito.15

Queyroz criticou duramente a ocupação de Trincomalee; ele na verdade considerou um erro isolar Kandy ainda mais, e forçar o reino a formar alianças com outras potências européias. Além disso, devido à escassez de tropas e meios, era suicídio dispersar os homens por tantas fortificações pequenas. Some-se a isso o fato de que a perspectiva de fechar o comércio do reino de Kandy não era algo fácil de ser implementado, a não ser que os portugueses conquistassem a ilha inteira. A mesma função do controle exercido sobre o comércio kandyano a partir do forte de Trincomalee poderia ser facilmente exercida de navios, os quais, partindo dos portos de Galle e Jaffna, podiam patrulhar a costa, sem assim oferecer perigo aos kandyanos e a um custo menor para as finanças do “Estado da Índia”.16 Em 1627, o vice-rei Dom Francisco da Gama, também julgando inútil a construção de uma nova fortaleza em Batticaloa, expressou a opinião de que seis navios seriam suficientes para garantir a segurança de toda a costa leste da ilha.17

O forte construído pelos portugueses tinha formato triangular e era feito “…de pedra e argamassa…”, e consistia de três bastiões, um em cada ângulo. O mais importante deles era chamado de “Sancta Crus”, e era chave para a defesa da baía, situado no lado sul do istmo de maneira a ter contato direto com as águas da baía. Nele foram montadas seis peças de artilharia. Voltado para a extremidade norte do istmo ficava o bastião de “Sancto Antônio”, equipado com cinco canhões. Os dois bastiões principais conectavam-se através de um muro de cem passos de comprimento, três braças e meia de altura e seis palmos de espessura, sendo que este muro fechava o istmo em sua parte mais estreita. Um terceiro bastião – o menor deles – situava-se no lado norte, na península, e nele foram montadas três peças de artilharia. Todas as armas haviam sido recuperadas de um navio dinamarquês. Um muro de mesmas dimensões do anterior conectava este terceiro bastião no lado sul ao principal, Sancta Crus. Enquanto no lado norte o terceiro bastião conectava-se ao de Sancto Antônio somente por um parapeito de pedra e cal, situado no topo do penhasco e voltado para o mar, os portugueses modificaram a escarpa abaixo deste muro, fazendo-a mais íngreme. Na extremidade mais alta da península ficava um pequeno assentamento de portugueses casados e indígenas, um total de “20 brancos e 25 pretos”. Os “casados”, juntamente com outros 50 soldados portugueses, garantiam a segurança da fortaleza. Os soldados residiam dentro do forte com seu capitão, enquanto o comandante da fortaleza era designado pelo rei ou pelo vice-rei e morava numa casa no assentamento dos casados.18 E acordo com um mapa no “Livro das Plantas das Fortalezas, Cidades e Povoações do Estado da Índia Oriental”, havia ainda um bastião isolado no lado sul do promontório rochoso. Em frente aos dois bastiões principais, aparentemente foi escavada uma vala. Um pequeno vilarejo nativo ficava entre o forte português e a baía. No mapa de Bocarro aparecem ainda três templos na extremidade da península, embora estes templos não apareçam no “Livro das Plantas das Fortalezas, Cidades e Povoações do Estado da Índia Oriental”, da biblioteca do Paço Ducal de Vila Viçosa. A entrada do forte aparentemente situava-se no muro sul, do lado que dava para a vila dos casados.

Outro mapa interessante da era portuguesa, compilado pelo mesmo Constantino de Sá, governador do Ceilão, mostra o forte de Trincomalee situado no istmo da península. Neste mapa está claramente indicada a vila dos casados, denominada “pouvasam” (povoação), situada na península além do forte. Este também aparece com formato triangular e três bastiões. Parte da mesma coleção, um mapa maior do forte, com o título de “Planta da Fortalesa de Trinquilimale”, cita os nomes dos três bastiões: S. Cruz (o maior deles), S. Antônio e o menor, S. Tiago, com a indicação “esto baluarte se acomodou ao sítio”. Na parte interna do forte encontra-se o nome N. S. de Guadalupe, o mesmo da igreja de Trincomalee. Constantino de Sá nos informa que nos três bastiões havia dezesseis peças de artilharia, e a guarnição era formada por 40 soldados e 30 casados. O local era considerado inexpugnável por de Sá, devido a sua localização no alto do penhasco. Em sua opinião, com pequenos trabalhos adicionais de fortificação, o lugar poderia tornar-se um dos mais bem protegidos de todo o oriente.19 Esta é a descrição que o capitão João Ribeiro nos faz do forte de Trincomalee: uma fortaleza triangular com três bastiões, um em cada ângulo, armado com dez canhões de ferro, construída num morro perto da Baía dos Arcos. Dentro do forte havia uma igreja20 e um depósito para mantimentos e munições. Um capitão e 50 soldados formavam a guarnição e ainda dentro da fortaleza residiam um representante da lei, 16 casados e um capelão.21 Os lados menores da fortaleza mediam 75 metros e o lado maior, 150 metros.

Em 1628, após muita insistência de parte do rei de Portugal, e contra as opiniões do vice-rei e do governador do Ceilão, os portugueses também ocuparam Batticaloa, e lá construíram um forte, para evitar uma temida ocupação pelos holandeses. Foi o mesmo Constantino de Sá e Noronha que comandou a expedição que construiu o forte de Batticaloa. Ele chegou a Trincomalee com três navios em março de 1628, onde reforçou a guarnição, marchando a seguir para Batticaloa com cem portugueses e dois mil lascarinos. Foi escolhida para local do forte uma ilha na laguna. Em julho do mesmo ano, a construção do forte foi confiada a Damião Botado, e chamado de Forte de Nossa Senhora da Penha da Franca. A pequena fortificação foi construída numa ilha que protegia a baía, a qual os navios só podiam atingir durante a maré alta. A ilha ainda hoje leva o nome de Puliyantivu. O forte tinha formato quadrangular, com quatro bastiões guarnecidos por doze canhões de ferro. Dentro dele havia uma igreja e um depósito para munições e mantimentos. O local contava com uma guarnição de 40 a 50 soldados, um capitão, um representante da lei, um capelão e 20 casados. O local escolhido para a construção do forte de Batticaloa tinha vários pontos fracos, entre eles: faltava uma fonte para o fornecimento de água dentro dos muros; o canal que separava a ilha da costa era muito raso e estreito, não impedindo a passagem de tropas em caso de ataque; finalmente, o acesso ao mar era difícil e ficava a quase cinco quilômetros do forte. Poucos anos depois de sua construção, foi proposta uma reconstrução em local melhor, mas a crônica falta de fundos de Goa não permitiu que isto acontecesse.

O rei de Kandy, Senerat, em represália contra a construção do forte de Batticaloa, bloqueou toda e qualquer conexão por terra com os fortes de Batticaloa e Trincomalee. As guarnições portuguesas conseguiram sobreviver graças ao auxilia recebido por via marítima desde Jaffna. Como sempre na história do Ceilão, o controle dos mares foi uma vantagem decisiva que os europeus (portugueses, holandeses e finalmente ingleses) sempre tiveram em relação aos cingaleses, e que permitiu que eles dominassem ininterruptamente as áreas costeiras da ilha durante cerca de 450 anos.

Depois de sua construção, os dois fortes portugueses da costa leste, Trincomalee e Batticaloa, foram colocados sob a jurisdição do capitão de Jaffna.23 Normalmente, em cada um dos fortes havia um padre jesuíta residente.24 O primeiro resultado da conversão na região de Trincomalee parece ter sido encorajador. Na verdade, o padre Rebelo, chefe da missão de Jaffna, já em novembro de 1625 escrevia que, no ano anterior, o padre jesuíta que morava no forte de Trincomalee havia convertido onze mil almas.25

Continua: A conquista holandesa eo abandono do Forte

Mapa de Sri Lanka (Ceilão) (1681). Robert Knox. An Historical Relation of the Island Ceylon.
Mapa de Sri Lanka (Ceilão) (1681). Robert Knox. An Historical Relation of the Island Ceylon.

NOTAS:

1 A companhia dinamarquesa foi fundada em 17 de março de 1616.

2 Após ter sido severamente derrotado pelos portugueses, Mayadunne foi forçado a procurar abrigo em um navio dinamarquês ancorado no porto de Kottiyar, em 2 de julho de 1620.

3Barner Jensen, U. “Danish East India. Trade coins and the coins of Tranquebar, 1620-1845”, págs. 11-12; Holden Furber “Imperi rivali nei mercati d’oriente, 1600-1800”, nota n° 66, pág. 326.

4 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. II, pág. 727.

5 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. II, pág. 734.

6 De Silva “The Portuguese in Ceylon, 1617-1638”, págs. 67, 69 n. 33.

7 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. I, págs. 66, 67.

8 AA. VV. “Documentos Remetidos da Índia ou Livros das Monções, 1625-1627”, CNCDP, 1999, Lisboa, págs. 34-35, doc. n° 66 (Lisboa, 13 de fevereiro de 1625, pág. 203, doc. n° 635 (Lisboa, 4 de abril de 1626).

9Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. II, pág. 737.

10 Subseqüentemente ele foi substituído, por razões familiares (a morte de seu sogro, que havia deixado uma filha muito jovem), por Diogo Vaz Freire. AA. VV. “Documentos Remetidos da Índia ou Livros das Monções, 1625-1627”, pág. 102, doc. n° 283 (Goa, 23 de janeiro de 1625), pág. 184, doc. n° 595 (Goa, 23 de fevereiro de 1626).

11 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. II, pág. 737.

12 Queyroz dá a entender que as terras da região de Trincomalee eram muito férteis, com abundante produção de arroz. Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. I, págs. 68-69.

13 Depois da ocupação portuguesa de Trincomalee, muitos agricultores das vilas de Tambalagama e Gantale mudaram-se para Kottiyar. Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. I, pág. 69.

14 Verão de 1624, segundo Queyroz. Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. II, pág. 736.

15 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. II, pág. 698; Perniola, V. “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. II, págs. 352-353; Trinidade “Conquista Espiritual do Oriente”, vol. III, págs. 79-80.

16 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. II, pág. 735.

17 AA. VV. “Documentos Remetidos da Índia ou Livros das Monções, 1625-1627”, pág. 331, doc. n° 880 (Goa, 20 de fevereiro de 1627).

18 Bocarro, A. “Livro das Plantas das Fortalezas, Cidades e Povoações do Estado da Índia Oriental”, pág. 238.

19 “Costantine de Sa’s maps and plans of Ceylon”, p. 57.

20 Chamado no diário de Caen “Nossa Senhora de Garde Rope”, que vem a ser Nossa Senhora de Guadalupe, em: J. R. A. S. (Ceilão), n° 35 (1887) “The capture of Trincomalee A.D. 1639”, pág. 138.

21 Ribeiro “The historic tragedy of the island of Ceilão”, pág. 36

22 de Silva “The Portuguese in Ceylon, 1617-1638”, p. 89.

23 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. II, pág. 757-758.

24 No ano de 1628, encontrava-se presente em Trincomalee o padre Sebastião da Fonseca, enquanto que em Batticaloa residia o padre Antônio Soeiro. Em 1634 estava em Trincomalee o padre João Moura, e o padre Melchior Grasão pregava no forte de Batticaloa. Perniola, V. “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. III, págs. 125-126, 217 e 242.

25 Perniola, V. “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. III, p. 84.

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Colonialismo português Sri Lanka

Trincomalee: Os primeiros contatos com os portugueses

Escrito por Marco Ramerini. Tradução feita por João Bergmann

Atrás: Introdução

2.0 OS PRIMEIROS CONTATOS COM OS PORTUGUESES

Um interesse inicial dos portugueses em relação a Trincomalee aconteceu no início da década de 1540. Tudo começou quando o rei de Kandy, Jayavira, seguindo conselho de Nuno Alvarez Pereira1, pediu ao governador português Martim Afonso de Souza para que ele abrisse uma “feitoria” 2 com um feitor em Trincomalee e que enviasse soldados portugueses a Kandy. O rei de Kandy, na ocasião, também prometeu pagar um tributo ao rei de Portugal. É óbvio que o objetivo principal do rei de Kandy, além de travar relações comerciais diretamente com os portugueses, era o de receber ajuda militar contra os reinos de Kotte e Sitavaka, os quais se achavam no direito de tomar Kandy.

Em fevereiro de 1543, parecia que os pedidos de Jayavira seriam satisfeitos; com este propósito, de fato, uma expedição portuguesa saiu de Negapatnam e, guiada por Amaro Mendez3 e Miguel Ferreira,4 chegou à baía de Trincomalee. Esta expedição inicialmente contava com 60 a 80 portugueses. O rei, sendo informado da chegada dos portugueses, imediatamente enviou a Trincomalee um contingente de 2000 homens. Juntamente com o português Nuno Alvarez Pereira, eles deveria juntar-se aos portugueses em Trincomalee e ajudar e apoiar a construção de um pequeno posto comercial e a sucessiva transferência de parte dos soldados para Kandy, mas a expedição foi um fracasso devido às numerosas deserções entre os portugueses, causadas pela falta de provisões, pela hostilidade dos locais e pela incompreensão entre os dois grupos.5

Segundo Queyroz, São Francisco Xavier também visitou Trincomalee, em 1543-44, tendo convertido alguns habitantes e sendo confrontado, em assuntos religiosos, por alguns líderes locais.6 Uma carta escrita por Nuno Alvarez Pereira em 1545 relata que alguns chefes de Trincomalee (Trycanamalle), juntamente com cerca de 3000 habitantes do local, quiseram ser convertidos à religião cristã.7 Esta demanda por conversão pode ter sido uma conseqüência da visita do santo.

Não obstante o primeiro insucesso, Jayavira, insistentemente, ainda em 1545, pediu ajuda aos portugueses, desta vez oferecendo pagar tributo ao rei de Portugal e permitindo a construção de um pequeno posto comercial em Trincomalee. Além disso, prometia pagar o salário do feitor, de um empregado da fazenda comercial e de mais 20 empregados que deveriam residir na capital. Para finalizar, o rei prometia ainda converter-se ao catolicismo, juntamente com toda a sua família.8 Como resposta a este pedido, em março de 1546 uma nova expedição foi enviada pelo governador da Índia Portuguesa para socorrer o reino kandyano.9 Atendendo à demanda do capitão da expedição, André de Sousa, quanto a qual caminho percorrer até chegar a Kandy, o rei Jayavira ordenou que eles procedessem via Trincomalee. Com uma tropa de cingaleses, Nuno Alvarez Pereira foi enviado pelo rei a Trincomalee para auxiliar o contingente português em sua transferência para Kandy, mas quando as tropas kandyanas chegaram a Trincomalee, foi constatado que mais uma vez os portugueses haviam desaparecido, e dos supostos 150 soldados não restavam mais que 13 ou 14. A razão para isso foi de que, ao chegarem a Trincomalee, os soldados portugueses tinham sido duramente atacados pelos habitantes da região, sendo obrigados a bater em retirada até Negapattan. Parte dos soldados portugueses alcançaram Kandy via Yala. No total, aproximadamente 50 soldados chegaram a Kandy.10 O enviado do rei de Kandy, Nuno Alvarez Pereira, foi então abandonado por quase todos os seus homens, temerosos de um eventual ataque por parte dos habitantes do distrito de Trincomalee, mas para sua sorte o temido ataque não se materializou.11 Fica claro a partir destes eventos que o território de Trincomalee, mesmo que nominalmente sujeito ao rei de Kandy, não era assim considerado com tanta certeza pelos kandyanos, mas apesar disso Jayavira considerou que a estrada que começava em Trincomalee era a mais segura para chegar a Kandy.12 Miguel Fernandes13 indica em uma de suas cartas as razões para o comportamento dos habitantes de Trincomalee. De acordo com o que ele escreveu, a causa das reações foi a conversão de Jayavira ao cristianismo.14

Ainda durante o ano de 1546 fizeram-se presentes em Kandy alguns embaixadores do “rei” de Trincomalee. Através deles, ele insistentemente implorava aos portugueses para se tornar cristão.15 Uma carta (datada de 16 de março de 1547) escrita por João de Villa de Conde e endereçada a João de Castro dá conta de um novo pedido do rei de Kandy para a construção de uma feitoria no porto de Trincomalee, sendo que desta vez Jayavira também comprometia-se a nomear Nuno Alvarez Pereira para o cargo de feitor.16 Como resultado desta nova manifestação, um novo contingente de portugueses chegou à costa leste da ilha, cerca de 100 homens sob o comando de Antonio Moniz Barreto. Desta vez, embora o local de desembarque tivesse sido inicialmente definido como Trincomalee, os portugueses desembarcaram em Batticaloa e chegaram a Kandy por lá. Esta expedição, porém, também terminou em fracasso.17

Nos últimos meses de 1551, o príncipe de Trincomalee, um menino de apenas sete ou oito anos, foi batizado pelo padre Anrriques. As razões para esta conversão podem ser encontradas numa luta entre duas facções pelo poder, uma delas guiada por um líder que era tio do jovem príncipe. Pensando em se beneficiar com a ajuda dos portugueses, o tio resolveu levar o menino até a costa de Pescaria18, onde moravam os jesuítas portugueses. Lá chegando, todo o grupo insistiu em ser cristianizado. Assim sendo, o príncipe, seu tio e de 30 a 40 de seus seguidores tornaram-se cristãos. Também foi organizada uma expedição para colocar o príncipe no poder em sua província. Desta participaram aproximadamente 1000 cristãos e alguns portugueses, mas devido à região estar em estado de rebelião, a expedição não obteve os resultados esperados, e após dois meses decidiu abandonar a empreitada para não colocar em risco a vida do príncipe. Este, que fora batizado como Dom Afonso (Afonço), foi enviado a Goa, onde foi apresentado ao Vice-rei. O jovem príncipe foi educado em Goa no colégio de São Paulo e confiado às curas espirituais do padre Antonio Gomez.19 Subseqüentemente, em 1560, os portugueses tentaram conquistar Jaffna, com o príncipe de Trincomalee participando da expedição. Desta maneira, o vice-rei Dom Constantino de Braganza esperava que, uma vez conquistada Jaffna, o príncipe seria trazido de volta a Trincomalee, onde reassumiria seu reinado e auxiliaria os portugueses na conversão do povo local. Todavia, a expedição falhou e o príncipe nunca chegou a Trincomalee, tendo que retornar a Goa.20 Durante sua vida em Goa, ele se correspondeu com o rei de Portugal, Dom Sebastião. 21 m 1568 o príncipe participou como voluntário do cerco a Mangalore, quando morreu em combate.22

Trincomalee é mencionada algumas vezes nos anos seguintes: em 1555 um pedido dos cristãos de Trincomalee por religiosos chegou a Punnaikayal, na costa de Pescaria, mas não pode ser atendido devido ao número insuficiente de clérigos.23 Em 1560, o rei de Jaffna, tomado de pânico durante um ataque à sua capital, feito pelo vice-rei De Bragança, para escapar dos portugueses, procurou abrigo, juntamente com toda a família real, no território do vanniyar de Trincomalee.24 Em 1569, dois navios portugueses chegaram ao porto de Trincomalee para levar a princesa de Kandy, filha de Karaliyadde (Javira Astana), que tornou-se esposa do rei Dom João.25

Como vimos, apesar das tímidas tentativas para instalar uma feitoria levadas a cabo pelos portugueses entre os anos de 1543 e 1547, Trincomalee e a costa leste da ilha permaneceram livres dos assentamentos portugueses durante todo o século XVI. Entretanto, à mesma época, eles haviam estendido seu controle sobre a região costeira ao sudoeste da ilha. Praticamente até o final daquele século os portugueses tinham sob seu controle os territórios que anteriormente pertenciam aos reinos de Kotte e Sitawaka, além de controlarem a ilha de Mannar. Contudo, nas últimas décadas do século XVI, a influência do poder português já começava a ser notada. Começando por volta de 1570, os portugueses começaram a coletar tributos do vanniyar de Trincomalee e do de Batticaloa.26 Uma taxa de proteção também foi imposta ao templo hindu de Konesar (Koneswaram) em Trincomalee. Os portugueses passaram então a coletar taxas sobre alguns produtos que o reino de Kandy exportava através dos dois portos principais, Trincomalee e Batticaloa.27

Em 1582, por ocasião da conquista do reino de Kandy pelas tropas de Sitavaka, o rei de Kandy, Karalliyadde Bandara (Dom João), juntamente com alguns portugueses que o tinham apoiado, procurou refúgio em Trincomalee. Isto aconteceu logo após a derrota de suas tropas para as de Sitavaka, e foi justamente em Trincomalee que o rei veio a falecer devido a uma epidemia de varíola. Entre os portugueses que seguiram o rei Karalliyadde até Trincomalee estava frei André de Sousa.28 O rei do Ceilão, Dom João Párea Pandar (Dharmapala), também menciona em um certificado sobre o trabalho dos franciscanos na região de Kotte o nome do frei franciscano André de Sousa, o qual havia sacrificado sua vida em Trincomalee. Menção ao religioso também foi feita por Trinidade.29

Em 1602, a região compreendida entre Jaffna, Trincomalee e Batticaloa foi designada para as curas espirituais dos jesuítas; estes tiveram permissão de construir igrejas e converter os habitantes locais.30 Naquele mesmo ano foi dada a primeira ordem portuguesa para a construção de um forte em Trincomalee.31 Esta ordem deve ter sido com certeza a primeira reação portuguesa à chegada de uma expedição holandesa e ao subseqüente primeiro contato entre os holandeses e o rei de Kandy, que aconteceu em 1602 na região de Batticaloa. Além disso, outra motivação foi o fato de que, durante os períodos de guerra com os portugueses, Trincomalee foi utilizada como um dos portos através dos quais o rei de Kandy recebia provisões e tropas do Nayak de Madura e do rei de Meliapor.32

Entre os anos de 1605 e 1609, Dom Francisco de Menezes alcançou Trincomalee em duas oportunidades, durante expedições militares contra o rei de Kandy.33 Uma descrição mais detalhada de uma destas expedições chega até nós através do relatório anual dos jesuítas, em 1606. Na verdade, o relato é de uma expedição punitiva efetuada naquele ano contra os rebeldes. A mesma era composta por um esquadrão de soldados portugueses e de 4000 a 5000 lascarins cingaleses. A expedição atingiu ainda Trincomalee, onde foram capturados não mais de 200 homens, mulheres e crianças, os quais, por ordem de Simão Correa (um capitão cingalês), foram todos mortos. Por “compaixão”, todos foram batizados antes de morrer.34

Uma carta do frei jesuíta Barradas, escrita em Cochin em novembro de 1613, fala de uma bem sucedida expedição portuguesa a Trincomalee no ano de 1612. Esta era chefiada por Dom Hieronymo de Azevedo, que atravessou as montanhas de Kandya e, no caminho, encontrou dois grandes reservatórios de água. “ …nossos homens descobriram dois reservatórios extraordinários; eles tinham quatro léguas de comprimento, e eram feitos a partir de escavações na rocha e muros de pedra, com um acabamento espetacular que se poderia esperar dos romanos, mas não dos cingaleses”. Depois de grandes dificuldades devido à chuva torrencial, os portugueses conseguiram chegar a Trincomalee, e lá de Azevedo “mostrou interesse em construir um forte”, para isso procurando o auxílio do rei de Jaffna, mas não tendo conseguido, ele acabou abandonando a tentativa e seguiu em direção a Jaffna.35 Uma sucinta descrição deste empreendimento em Trincomalee também foi escrita por Bocarro; ele descreve que de Azevedo estava guerreando na região de Trincomalee quando recebeu a notícia de que havia sido nomeado Vice-rei.36 Outro texto, porém, narra os planos feitos por de Azevedo para as fortificações em Trincomalee e Batticaloa. Ele deixou o Ceilão em novembro de 1612, indo para Goa, com vistas a assumir o posto de Vice-rei. Seus planos eram enviar no ano seguinte seis navios com os materiais necessários para a construção das fortalezas em Trincomalee e Batticaloa. Além disso, ele planejava enviar dois outros navios para patrulhar a costa de Galle, ordenando a estes navios que passassem o inverno seguinte em Trincomalee para auxiliar na construção do forte.37 egundo de Azevedo, uma das maneiras mais eficientes de enfraquecer Kandy era exatamente estancar o comércio do reino, o qual acontecia através dos portos de Baticaloa, Trincomalee, Rio de Água Doce e Jaffna, mas momentaneamente (isto foi em 1614) ele não considerava os portugueses capazes de ocupar todos estes portos.38

Subseqüentemente, com o tratado de paz assinado entre o rei de Kandy e os portugueses em agosto de 1617, foram definidas também as fronteiras entre os dois territórios, assim como as fronteiras ao longo da costa leste da ilha, onde os dois principais portos (Kottiyar / Trincomalee e Batticaloa) permaneciam sob o controle do reino de Kandy. Na verdade, no tratado ficou indicado que o limite dos territórios pertencentes ao rei de Kandy alcançava os portos de Kottiyar, Batticaloa e Panamá.39

No ano de 1619, todo o território do reino de Jaffna, que incluía Trincomalee e Batticaloa, foi designado às curas espirituais dos franciscanos. Esta decisão foi tomada pelo bispo de Cochin, frei Dom Sebastião de São Pedro.40 Mais tarde, outro decreto do mesmo bispo, datado de 11 de novembro de 1622, seguindo aquele de 1602, confiava novamente aos jesuítas as curas espirituais nos distritos de Jaffna, Trincomalee e Batticaloa, permitindo-lhes construir igrejas, ensinar os sacramentos e converter almas.41 Os jesuítas seguiram os soldados portugueses a Trincomalee e Batticaloa quando as duas localidades foram tomadas.

Continua: A chegada dos dinamarqueses e holandeses, e a construção do Forte Português

Mapa de Trincomalee por Antonio Bocarro (1635). Livro das Plantas de todas as fortalezas, cidades e povoaçoens do Estado da Índia Oriental (1635)
Mapa de Trincomalee por Antonio Bocarro (1635). Livro das Plantas de todas as fortalezas, cidades e povoaçoens do Estado da Índia Oriental (1635)

NOTAS:

1 Nuno Alvarez Pereira era um soldado português que chegou a Kandy em julho de 1542, logo tornando-se conselheiro e secretário do rei Jayavira.

2 Uma fábrica fortificada.

3 Amaro Mendes havia sido designado feitor daquela feitoria.

4 Miguel Ferreira era o capitão português da costa de Coromandel; a vida deste importante personagem aparece no artigo escrito por J. M. Flores “Um Homem que Tem Muito Crédito Naquelas Partes: Miguel Ferreira, os Alevantados do Coromandel e o Estado da Índia”, em “Maré Liberum”, n° 5 / 1993, págs. 21–32.

5 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, págs. 81–82.

6 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. I, págs. 236-237.

7 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, pág. 62.

8 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, págs. 71-72.

O tributo prometido pelo rei de Kandy era: quinze elefantes com presas e trezentos remos de faia para as galeras.” Ver Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, págs. 86-87.

9 O reino de Kandy havia sido atacado em novembro de 1545 pelas forças do reino de Sitawaka, e necessitava urgentemente de ajuda.

10Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, págs. 162, 177.

11 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, págs. 160-161.

12Para chegar a Kandy, freqüentemente era utilizada a estrada que começava em Batticaloa.

13Miguel Fernandes era um “casado” (soldado casado) português de Kotte.

14 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, pág. 177.

Jayavira foi batizado em segredo por Frei Francisco di Monteprandone no dia 9 de março de 1546.

15 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, pág. 154.

16Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, pág. 216.

17 Para detalhes sobre esta expedição, ver; O. M. da Silva “Vikrama Bahu of Kandy. The Portuguese and the Franciscans, 1542-1551”, págs. 63-76.

18 A costa indiana na região de Tuticorin.

19 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, págs. 286-288.

20 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, págs. 372, 374, 382.

21 Ver carta de resposta do rei Sebastião, datada de 7 de março de 1567 e publicada em Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. II, pág. 23.

22Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, pág. 382 nota n°1 e vol. II, pág. 23 n.1.

23Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, pág. 346.

24 “History of Sri Lanka”, vol. II, pág. 110.

25 Queyroz, “The temporal and spiritual…”, vol. II, pág. 423.

26 “History of Sri Lanka”, vol. II, pág. 92.

27 “History of Sri Lanka”, vol. II, pág. 112.

28 F. F. Lopes “A Evangelização do Ceilão de 1552 a 1602”, em “Studia” n° 20-22 / 1967, págs. 30-31; “History of Sri Lanka”, vol. II, pág. 96.

29 O certificado é datado de 1° de dezembro de 1594. Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. II, pág. 137; Trinidade “Conquista Espiritual do Oriente”, vol. III, págs. 56, 68.

30 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. II, pág. 266.

31 Silva, Ch. R. de “The Portuguese in Ceylon, 1617-1638”, pág. 59, n. 149.

32 Abeyasinghe “Portuguese rule in Ceylon, 1594-1612”, pág. 36.

33 Queyroz, “The temporal and spiritual…”, vol. II, pág. 611.

34 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. II, pág. 256.

35 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. II, pág. 366.

36 Bocarro “Década 13 da História da Índia”, vol. I, pág. 11.

37 “Relacion del estado en que quedavam las cosas de la India, sacada de las cartas, que escrivio el virrey Dom Hieronymo de Azevedo…”, publicado em: “Documentação Ultramarina Portuguesa”, vol. I, pág. 73 e vol. II, pág. 157.

38 Bocarro “Década 13 da História da Índia”, vol. I, pág. 277.

39 “History of Sri Lanka”, vol. II, pág. 154 e também Silva, Ch. R. de “The Portuguese in Ceylon, 1617-1638”, pág. 59.

40 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. II, pág. 458.

41 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. III, pág. 51.

Categorias
Ásia Colonialismo português Língua Portuguesa

A Herança da Língua Portuguesa no Oriente (Ásia)

Escrito por Marco Ramerini. Tradução feita por Márcia Siqueira de Carvalho. Revisão do texto traduzido por Dietrich Köster.

A língua portuguesa foi nos séculos XVI, XVII e XVIII a língua dos negócios nas costas do Oceano Índico em função da expansão colonial e comercial portuguesa. O português foi usado, naquela época, não somente nas cidades asiáticas conquistadas pelos portugueses, mas também por muitos governantes locais nos seus contatos com outros estrangeiros poderosos (holandeses, ingleses, dinamarqueses, etc).

No Ceilão, por exemplo, o português foi usado para todos os contatos entre os europeus e a população nativa; vários reis do Ceilão falavam fluentemente esta língua e nomes portugueses eram comuns na nobreza. Quando os holandeses ocuparam a costa do Ceilão, principalmente sob as ordens de van Goens, eles tomaram medidas para parar o uso da língua portuguesa. Porém, ele estava tão entranhado entre os habitantes do Ceilão que até mesmo as famílias dos burgueses holandeses começaram a usar a língua portuguesa. Em 1704, o governador Cornelius Jan Simonsz falava que : “se você fala português no Ceilão, você é entendido em todo lugar”.

Também na cidade de Batávia, capital das Índias Orientais Neerlandesas (atual Jakarta), o português foi a língua falada nos séculos XVII e XVIII. As missões religiosas contribuíram para esta grande expansão da língua portuguesa. Isto porque desde que as comunidades se convertiam ao catolicismo, elas adotavam o português como língua materna. Também as missões protestantes (holandeses, dinamarqueses, ingleses …) que trabalharam na Índia foram forçadas a usar o português como a língua de evangelização.

A língua portuguesa também influenciou várias línguas orientais. Muitas palavras portuguesas foram incorporadas por vários idiomas orientais, como os da Índia, o suaíli, malaio, indonésio, bengali, japonês, os vários do Ceilão, o tétum de Timor, o africâner da África do Sul etc.

Além disso, onde a presença portuguesa era preponderante ou mais duradoura, cresceram as comunidades de “casados” e “mestiços” que adotaram uma variedade de língua mãe: uma espécie de crioulo português.

O que restou hoje é muito pouco. Entretanto é interessante notar que, neste sentido, existem pequenas comunidades de pessoas espalhadas por toda a Ásia que continuam a usar o “crioulo” português, embora não tenham mais contatos com Portugal, em alguns casos, durante séculos. Outro aspecto interessante é que durante o período mais importante da presença portuguesa na Ásia, não havia mais do que 12.000 a 14.000 portugueses, incluindo os religiosos.

Comunidades de língua português na Ásia (Azul: lugares atuais onde o Português é falado. Vermelho: lugares onde as comunidades  falaram, no passado, Português). Autor Marco Ramerini
Comunidades de língua português na Ásia (Azul: lugares atuais onde o Português é falado. Vermelho: lugares onde as comunidades falaram, no passado, Português). Autor Marco Ramerini

AS COMUNIDADES QUE FALAM PORTUGUÊS ATUALMENTE:

Malaca, Malásia: Cerca de 1.000 pessoas falam esta espécie de “crioulo” (Papia Kristang). Cerca de 80 % dos antigos habitantes da colónia portuguesa em Malacca falava Papia Kristang, que também é falado atualmente em Singapura e Kuala Lumpur. Kristang é muito parecido com o malaio local na sua estrutura gramatical, mas 95% do seu vocabulário deriva do português. Não muito tempo atrás o português também era falado em Pulau Tikus (Penang), mas agora é considerado extinto. A comunidade eurasiana tem 12.000 membros na Península Malaia. Activo é MPEA (Malacca Portuguese Eurasian Association) e SPEMA (Secretariat of the Portuguese/Eurasian Malaysian Associations) com 7 associações dos seus membros em Alor Star, Penang, Perak, Malacca (MPEA), Kuala Lumpur, Seremban e Johor Baru. Ha também em Singapura uma associaçao eurasiática. Malaca se separou do domínio português em 1641.

Korlai, Índia: (perto de Chaul). Cerca de 900 pessoas falam o crioulo português e esta comunidade tem a sua igreja chamada: “Igreja de Nossa Senhora do Monte Carmelo” Chaul se separou do domínio português em 1740.

Damão, Índia: (Damão Grande ou Praça, Campo dos Remédios, Jumprim, Damão da Cima). Cerca de 2000 pessoas falam esta espécie de crioulo português. Damão se separou do domínio português em Dezembro de 1961.

Ceilão (Sri Lanka): [Burgueses Portugueses em Batticaloa (Koolavaddy, Mamangam, Uppodai, Dutch Bar, Akkaraipattu); Trincomalee (Palayuttu); comunidades Kaffir de Mannar e Puttalam ]. Foi apenas usado entre as 250 famílias em suas casas em Batticaloa até 1984. Muitos emigraram para a Austrália. Ainda há 100 famílias em Batticaloa e Trincomalee e cerca de 80 famílias afro-singhalesas (Kaffir) em Puttalam. Quase extinta. Em Batticaloa existe o Clube de Recreio “Shamrock” e a “Batticaloa Catholic Burgher Union”. Há uma pequena comunidade de descendentes portugueses na aldeia de Waha Kotte (circa 7°42’N. – 80°36’E) (Centro do Sri Lanka, seis quilómetros de Galewala, estrada entre Galewala e Matale), eles são católicos romanos, mas desde cerca de duas gerações o crioulo português não é mais falado. Ceilão se separou do domínio português em 1658.

Macau: Cerca de 2.000 pessoas falam o português como sua primeira língua e perto de 11.500 como sua segunda língua. Apenas poucas mulheres idosas falam o macaense, um crioulo português de Macau. O “Instituto Cultural de Macau” e a “Fundação do Oriente” estão funcionando. Existe também um canal de TV e vários jornais voltados inteiramente para o português. Em 20 de Dezembro de 1999 Macau voltou a fazer parte da China.

Hong Kong: Centenas de pessoas falam o macaense. Quase todas são emigrantes de Macau. Nunca foi colónia portuguesa.

Goa, Índia: O idioma português está desaparecendo rapidamente de Goa. Atualmente ele é falado por um pequeno setor das famílias mais abastadas. Apenas 3 a 5 % da população continua falando-o (estima-se de 30.000 a 50.000 pessoas). Atualmente 35% da população de Goa são imigrantes de outros estados indianos. Nas escolas da Índia ele é ensinado como terceira língua (não obrigatória). Existe um Departamento de Português na Universidade de Goa e a “Fundação do Oriente” e a Sociedade de Amizade Indo-Portuguesa estão em funcionamento. O último jornal em língua portuguesa foi publicado na década de 1980. Em Panaji muitos cartazes em português ainda são visíveis em lojas, edifícios públicos etc. Goa se separou do domínio português em Dezembro de 1961.

Diu, Índia: Aqui o idioma crioulo português está quase extinto. Diu se separou do domínio português em Dezembro de 1961.

Timor-Leste: Os que falavam o português em 1950 não ultrapassavam 10.000 pessoas e em 1974 apenas 10% a 20% da população. Em 1975 Timor-Leste tinha 700.000 habitantes, dos quais 35 a 70.000 sabiam ler e escrever em português e 100 a 140.000 podiam falar e entender esta língua. Até 1981, o português foi a língua da Igreja Católica de Timor, quando foi substituído pelo tétum. Entretanto ele é comumente usado como idioma de negócios na cidade de Dili. O português permaneceu como a língua da resistência anti-Indonésia e de comunicação externa da Igreja Católica. O português crioulo de Timor (português de Bidau) hoje está praticamente extinto. Ele é falado a Dili, Lifau e Bidau. Indonésia invadiu o Timor-Leste em 1975. Entretanto, nenhuma nação reconheceu esta anexação militar. Timor-Leste tornou-se um estado independente a 20 de Maio de 2002. As línguas oficiais de Timor-Leste são o português e o tétum.

Flores, Indonésia: (Larantuka, Sikka) Aqui o português sobrevive nas tradições religiosas e na comunidade Topasse (os descendentes dos homens portugueses com as mulheres nativas) utilizam-no nas suas preces. Aos sábados, as mulheres de Larantuka rezam o rosário numa forma corrompida de português. Na área de Sikka, no Leste de Flores, muitas pessoas são descendentes de portugueses e ainda (???) usam esta língua. Existe uma Confraria chamada “Reinja Rosari”. Portugal retirou-se em 1859.

ATÉ POUCOS ANOS ATRÁS, COMUNIDADES QUE FALAVAM O PORTUGUÊS EXISTIAM EM:

Ceilão (Sri Lanka): (O crioulo português era falado pela comunidade burguesa holandesa.) Até o início do século XX, o crioulo português era falado pelos membros desta comunidade. Até depois da Segunda Guerra Mundial, os católicos do Sri Lanka, em Colombo se reuniam nas missas faladas em português (como a Igreja de Santo António em Dematagoda). Após a segunda metade deste século, uma parte destes católicos tão velhos começaram a frequentar missas em grupos cada vez menores nas igrejas católicas nas cidades de Dematagoda, Hulftsdorp, Kotahena, Kotte, Nugegoda e Wellawatte. Embora era uma língua falada, o português estava perdendo rapidamente a sua importância original nos serviços religiosos nas igrejas católicas, sendo substituído pelo inglês mais moderno e mais procurado.

Jakarta-Batavia-Tugu, Indonésia: (um subúrbio de Jakarta). Aqui, até o início do século XX uma espécie de português corrompido ainda era falado pela população cristã em Tugu. O último habitante que falava crioulo morreu em 1978. Nunca esteve sob domínio de Portugal.

Cochim, Índia: (Vypeen). Desapareceu nos últimos 20 anos. A comunidade portuguesa/hindu (2.000 pessoas) frequenta a antiga Igreja de Nossa Senhora da Esperança. Portugal retirou-se de Cochim em 1663.

Bombaim ou Província do Norte, Índia: Baçaim, Salsette, Thana, Chevai, Mahim, Tecelaria, Dadar, Parel, Cavel, Bandora-Badra, Govai, Morol, Andheri, Versova, Malvan, Manori, Mazagão. Em 1906 este crioulo foi, depois do Ceilão, o dialeto indo-português mais importante. Em 1906 ainda existiam perto de 5.000 pessoas que falavam o crioulo português como língua materna e 2.000 estavam em Bombaim e Mahim, 1.000 estavam em Bandora, 500 em Thana, 100 em Curla, 50 em Baçaim e 1.000 em outras vilas. Não existiam naquela época escolas em crioulo português e as classes mais ricas substituiram-no pelo inglês. (Costa, Dalgado).

Coromandel, Índia: (Meliapore, Madras, Tuticorin, Cuddalore, Karikal, Pondicherry, Tranquebar, Manapar, Negapatam…..) Na costa de Coromandel, os descendentes dos portugueses são geralmente conhecidos como “topasses”, eram católicos e falavam o crioulo português. Com a chegada do domínio britânico na Índia eles começaram a falar a língua inglesa em lugar do português e também anglicizaram seus nomes. Atualmente fazem parte da comunidade aurasiana. Em Negapatão em 1883 ainda existiam 20 famílias que falavam o indo-português. (Schuchardt, Dalgado)

DESAPARECEU JÁ HÁ MUITOS ANOS:

Solor & Adonara, Indonésia: Solor, Adonara (Vure)

Ilha de Java -Batávia, Indonésia: (comunidade holandesa de Batávia, Mardijkers) Os Mardijkers são os descendentes dos antigos escravos de Malacca, Bengala, Coromandel, Malabar, que foram convertidos ao Protestantismo quando libertados. Eles falavam uma espécie de crioulo português e eram o ramo principal da comunidade portuguesa de Batávia. Depois da conquista holandesa de Malaca e do Ceilão eles cresceram consideravelmente. Em 1673 foi construída uma igreja protestante para a comunidade portuguesa de Batávia e depois no século XVII uma segunda igreja foi construída. Em 1713 esta comunidade tinha cerca de 4.000 membros. < Lopes > Até 1750 o português foi a primeira língua de Batávia, porém, depois o malaio passou a dominar. Em 1808 o reverendo Engelbrecht celebrou a última missa em português. Em 1816 a comunidade portuguesa foi incorporada na comunidade malaia. Também entre as famílias holandesas de Batávia a língua portuguesa foi intensamente usada até 1750, apesar dos esforços do Governo Holandês contra o seu uso.

Mangalore, Índia: Mangalore.

Cannanore, Índia: Cannanore.

Bengala, Índia-Bangladesh: (Balasore, Pipli, Chandernagore, Chittagong, Midnapore, Hugli……) A língua portuguesa foi, nos séculos XVII e XVIII, a “lingua franca” em Bengala. Depois de 1811, o português era usado em todas as igrejas cristãs (católicas e protestantes) de Calcutá. No início do século XX, apenas umas poucas famílias falavam uma forma corrompida de português misturada com muitas palavras da língua inglesa. (Campos)

Moluccas, Indonésia: (Ternate, Ambon, Banda, Makasar) Ternateno, um crioulo português que foi falado nas ilhas de Ternate e West Halmahera, atualmente está extinto. Ambon, aqui o português sobrevive na língua actualmente falada: o Malayu-Ambom, o que contém cerca de 350 termos de origem portuguesa.

Nas costas da Índia existiam cerca de 44 comunidades, onde o português era falado.

BIBLIOGRAFIA:

– Abdurachman, Paramita Rahayu “Some Portuguese loanwords in the vocabulary of speakers of Ambonese Malay in Christian villages of Central Moluccas”, 17 pp., LIPI, 1972, Jacarta, Indonésia.

– Clancy, Clements “The genesis of a language: the formation and development of Korlai Portuguese” XII, 281 pp. maps, Creole language library vol.16, Benjamins, 1996, Amesterdão e Filadélfia .

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– Dalgado, Sebastião Rudolfo “Dialecto Indo-Português de Ceilão” 301p. (Cadernos Ásia) CNCDP, 1998, Lisboa, Portugal.

– Daus, Ronald “Portuguese Eurasian communities in Southeast Asia” 83 pp. Institute of Southeast Asian Studies, 1989, Singapura. The Portuguese Eurasian communities in Malacca, Tugu, Larantuka and Singapore.

– Goonatilleka, M.H. “A Portuguese Creole in Sri Lanka: A Brief Socio-Linguistic Survey”, in: SOUZA, Teotónio R. de (ed.) “Indo-Portuguese History. Old Issues, New Questions (3rd ISIPH)”, pp. 147-180 Concept, 1985, Nova Deli, Índia.

– Hettiarachchi, A. S. “Influence of Portuguese on the Singhalese Language”, JCBRAS Vol. IX, 1965, pp. 229-238

– Jackson, Kenneth David “Sing without a shame: oral traditions in Indo-Portuguese creole verse: with transcription and analysis of a nineteenth-century manuscript of Ceylon Portuguese Creole”, XXVII, 257 pp., Creole Language Library, Benjamins, 1990, Amesterdão e Filadélfia.

– Lopes, David “A Expansão da Língua Portuguesa no Oriente durante os Séculos XVI, XVII e XVIII”, 265 pp. Portucalense Editora, 1969, Porto, Portugal.

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– Silva Jayasuriya, Shihan da, “Indo-Portuguese of Ceylon: a contact language”, 188 pp., Athena Publications, 2001, Londres, Reino Unido

– Silva Rego, Padre António da “Dialecto Português de Malaca e outros escritos” 304 pp. (Cadernos Ásia) CNCDP, 1998, Lisboa, Portugal. Dialecto Português de Malaca; A Comunidade Luso-Malaia de Malaca e Singapura; A cultura portuguesa na Malaia e em Singapura.

– Teixeira, Pe. Manuel “The Influence of Portuguese on the Malay Language” In: “Journal of the Malayan Branch of the Royal Asiatic Society”, 1962, vol. XXXV (Pt. 1).

– Theban, Laurentiu “Situação e perspectivas do português e dos crioulos de origem portuguesa na Índia e no Sri-Lanka” In: “Actas do Congresso sobre a situação da língua portuguesa no Mundo” vol. 1, pp. 269-285, Imprensa Nacional, 1985, Lisboa, Portugal.

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Colonialismo português Indonesia Molucas

O forte português de Ternate

Escrito por Marco Ramerini

O forte Português de Ternate foi fundado por António de Brito, em 1522, a pedra fundamental da fortaleza foi posta para a festa de São João Batista, 24 de junho de 1522, o forte foi chamado de “São João Baptista de Ternate“. A parede exterior da fortaleza continha um espaço de 26 ou 27 braças (Português) quadrados, a muralha do forte medida 1 braço de espessura, ea torre da fortaleza medida 5 braças ou 40 palmas e era um prédio de dois andares. 1 A fortaleza foi construída pelo Português, onde era a principal cidade do Sultanato de Ternate (Sudoeste da ilha), uma liga do porto principal da ilha, chamado Talangame, onde os navios estavam ancorados. 2

Esta é a descrição da construção do forte feita por Gaspar Correia: …mandou o capitão abrir os alicerces, e elle com toda a gente, sendo dia do bemauenturado são João Bautista, vinte e cinco (O dia é o 24 de junho) dias de julho de 522, foi dita sua missa solene, festejada com muita artilharia dos navios,...” “E foi a primeira huma torre quadrada afastada do mar um jogo de bola, e de ahy correo o muro atrauessando pera a terra espaço de trinta braças, de onde tornou a voltar, fazendo quadra, outras trinta braças, em que se fez outra tal torre, e de ahy voltou à praia, onde fez outro canto, e correu o muro ao longo da praia a çarrar (=encerrar) na primeyra torre, junto da qual fiqou a porta de longo da praia, com sua gorita (=guarita). Assy (=assim) que a obra se foy fazendo com estas duas torres sómente, que depois nas quinas das quadras se fizeram outras taes torres, e no meo (=meio) se fez a torre da menagem grande, e no primeiro sobrado varandas para todas partes, e no sobrado de cyma suas guaritas, e fortemente madeirado, d’onde podiam tirar falcões;… 3

Em 1526, três anos após a construção começou, quando Antonio de Brito deu o comando da fortaleza de Ternate para Henriques Garcia, as obras da fortaleza estavam longe de ser completas, Castanheda nos informa que no lado que olhou para o mar o muro não foi terminado ainda, enquanto que no lado que dava a montanha apenas dois bastiões foram construídos, um de apenas 2 braços de altura eo outro “não tinha feyto mais q os aliceces“, a torre “da managê” foi elevada “xl palmos cõ dous sobrados, & do derradeyro ate ho telhado sem paredes se não cõ caniçadas de canas fédidas forradas desteiras, & disto erão feytos os repartimétos das camaras“, também do mesmo material foram feitas as paredes Feitoria, onde, devido a obras inacabadas podiam se movimentar livremente os porcos e cabras. 4

Em 1537, na época do Governador Português Antonio Galvão, a cidade de Ternate tinha uma população de 123 Português que somados às suas esposas, seus filhos, os escravos e servos, chegou a um total de 1.600 pessoas. 5 Antes do forte Português foi um recife de coral que fazia difícil o acesso aos navios, este recife de coral teve três passos: o primeiro foi chamado de “Lymatao” e foi localizado no extremo sul da cidade “dos mouros”, o canal central foi chamado da “barra d’arvore” porque foi localizado em frente de um alto árvore, o último canal chamado “barra da Nossa Senhora” foi localizado no extremo leste da cidade Portuguesa, cerca de 200 braças (cerca de 440 m.) do forte, em frente à capela dedicada a “Samta Maria“. Durante o governo de Antonio Galvão, os canais central e sul foram fechados com pedras, e foi feito mais navegável a “barra de Nossa Senhora“, que foi feita dois braços (4,40 m.) de profundidade. 6

Em 1537, Galvão começou a construção, ao redor da cidade Portuguesa, de muros, paredes de barro, fossos e muralhas. A Feitoria foi cercada por paredes de barro, e no interior também foram construídos alguns armazéns para armazenar o cravo. Foi fundada a “Casa da Misericórdia“, um moinho de água, que recebeu água de três léguas de distância (entre 12 km e 18 km) através de tubos. Finalmente foi feito um débil tentativo de cultivar arroz, vegetais e cereais, na área ao redor da cidade, também foi iniciada a criação e, finalmente, fundou uma pequena escola para os filhos de pessoas importantes e os portugueses. 7

Outra descrição interessante do Forte Português e da cidade, nos é dado por o “Livro das cidades e fortalezas que a coroa de Portugal tem nas partes da India …” escrito em 1582 a fortaleza foi situada a sul da cidade do sultão, junto ao mar, a um “tiro de espera” da cidade “dos Mouros“, a conformação do terreno entre a fortaleza ea cidade indígena impediu a visão entre os dois. Para o sul da fortaleza estava desenvolvendo uma cidade bastante grande habitada por portugueses casados ​​e cristãos indígenas, este foi cercada por um muro de “de taipa muito forte“. O porto em frente ao castelo é descrito como um porto pobre, porque a barreira de rochas e corais impede aos barcos maiores (“que demandem mais altura que duas braças de agoa“) o passagem. Entre as montanhas da ilha e a fortaleza, em um “outeiro alto“, os Portugueses tinham construído um baluarte onde tinham colocado algumas peças de artilharia. 8

NOTAS:

1 Jacobs, H. “A treatise on the Moluccas (c. 1544)” p. 211

2 Jacobs, H. “A treatise on the Moluccas (c. 1544)” p. 235

3 Gaspar Correia “Lendas da India”, vol. II pp. 714-715

4 Fernão Lopes de Castanheda “História do descobrimento e conquista da Índia pelos portugueses” Livro VI, cap. 128, pp. 358-359. Ver também: Gaspar Correa “Lendas da India” vol. II p. 996

5 Jacobs, H. “A treatise on the Moluccas (c. 1544)” p. 287

6 Jacobs, H. “A treatise on the Moluccas (c. 1544)” p. 289-291

7 Jacobs, H. “A treatise on the Moluccas (c. 1544)” p. 293-299)

8 “Livro das cidades e fortalezas que a coroa de Portugal tem nas partes da India …” foglio 64v. Este “outeiro alto” poderia ser o mesmo lugar onde os espanhóis construíram a fortaleza Fuerza Nueva.

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África Colonialismo português São Tomé e Príncipe

São Tomé e Príncipe, as Ilhas de Plantações lusófonas no Golfo da Guiné: Situação em 1990 e Perspectivas de Desenvolvimento

Escrito por Dietrich Köster

As ilhas de São Tomé e Príncipe situam-se no Golfo da Guiné, imediatamente ao norte do Equador. Pode-se chegar por via aérea a este arquipélago a partir de Lisboa, Libreville (Gabão) e Luanda. O acesso mais cómodo a São Tomé é pela Companhia Aérea belga SABENA, a partir de Bruxelas para Libreville, e voando depois numa avioneta da Companhia Equatorial para a cidade de São Tomé.

A ilha principal, São Tomé, fica a 280 km a oeste de Libreville e a menor, Príncipe, situa-se aproximadamente a 140 km a nordeste da ilha principal. As duas ilhas juntas constituem uma superfície de 1001 km² e têm uma população de 114000, a maioria dos quais negros, cujos antepassados para aqui foram levados como escravos pelos portugueses. Há aproximadamente 15% de mulatos de Cabo Verde e um grupo restante de portugueses. Um meio milénio de domínio colonial português marcou as duas ilhas e a sua população.

Depois da saída do avião, o viajante enche-se de ar quente e húmido. Alta humidade atmosférica e temperaturas, que quase nunca descem abaixo dos 25° na costa caracterizam o clima. O verde exuberante da vegetação e o mau estado de conservação arquitectónica das casas e ruas são as primeiras impressões que saltam à vista. É evidente que não foram tomadas medidas de manutenção após a independência. Assim a circulação nas ruas e estradas torna-se numa digressão em ziguezague.

A maior cidade e capital do arquipélago é São Tomé com 20.000 habitantes. É de notar que a vista da cidade é pejada fortemente pelos militares e polícias. Não se trata somente de soldados locais mas também de um contingente angolano de mil homens.

O Palácio Presidencial, que não deve ser fotografado, possui uma equipa de sentinelas equipada com farda de camuflagem que apresenta a baioneta. Antes do render da guarda, ouve-se um sinal de trompete que obriga todos os transeuntes a ficarem parados. A mesma atenção compete às testemunhas oculares da fila de viaturas do Presidente da República, passando pelas ruas. Este Presidente não tem somente um cordão de dois lados de seu recinto, mas faz celebrar um culto pessoal de si mesmo. Desta maneira, o retrato do Presidente Pinto da Costa encontra-se pendurado em muitas lojas.

O estado de abastecimento da população deixa a desejar. É verdade que o mercado da capital oferece produtos agrícolas locais, mas o comércio a retalho tem somente poucos produtos de procura elevada ao dispor da clientela. Apenas na Loja Franca – equivalente ao Intershop na RDA – se pode adquirir objectos de qualidade, pagando em dólares norte-americanos.

Um outro oásis da oferta de produtos do mundo ocidental constitui o único hotel de quatro estrelas, Miramar. Pertence a uma cadeia hoteleira suíça e é chefiado por um suíço, o Sr. Furrer. Também aqui o serviço de pagamentos efectua-se apenas em moeda convertível. Para garantir o alto nível do hotel muitas mercadorias são importadas da República da África do Sul e da Namíbia. Este hotel, que oferece muito aos seus hóspedes, funciona ao mesmo tempo como centro de informação turística. Assim, são oferecidas várias voltas da ilha e, em colaboração com Equatorial, excursões aéreas para Príncipe. O Hotel Miramar é frequentado por hóspedes ricos de Libreville e é o ponto de encontro dos cooperantes da União Soviética, de Cuba, da RDA, Suíça, França, Itália, dos Países Baixos, de Portugal e da Espanha. As Nações Unidas disponibilizam também cooperantes através do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O centro de actividades situa-se nos ramos da educação, formação profissional, na melhoria da situação sanitária e na diversificação da agricultura. É a RDA que treina desta maneira, por meio duma Brigada de Amizade da Juventude Comunista Alemã (FDJ), pedreiras e pedreiros.

O objectivo do Governo é uma maior diversificação da gama de oferta agrícola. Quer-se sair da monocultura do cacau. Presentemente as plantações de cacau rendem ainda 90% do valor de exportação . Além disso, há pequenas quantidades de copra, café e óleo de palma destinadas à exportação. A produção de cacau tem descido fortemente devido à fuga dos especialistas portugueses no ano de 1975. A nacionalização das plantações – chamadas roças – não melhorou o rendimento. Há poucos anos que o Governo se esforça com um programa de reestruturação no sentido de conceder mais possibilidades de desenvolvimento à iniciativa privada. Entretanto há algumas roças com directoria privada. Uma parte das lojas tem novamente um homem de negócios privado. A roça Agua Izé possui, por exemplo, uma forma de propriedade mista. Esta tem mais êxito que os empreendimentos agrícolas puramente estatais.

A par do aumento do cultivo de legumes, arroz, milho, mandioca, bananas e outros alimentos base, planeia-se a extensão do turismo. O clima quente, a paisagem com uma vegetação sempre-verde, praias poucas frequentadas, cascatas e chaminés de vulcões e, não menos importante, os ilhéus amigáveis, são pressupostos favoráveis ao turismo.

Para o fomento deste ramo da economia precisa-se de uma restauraçäo e ampliação da rede rodoviária sobre as duas ilhas, a construção de um porto em águas profundas e uma melhor conexão com a rede aérea internacional em Libreville.

Do meu ponto de vista, o pequeno Estado não pode sobreviver sem ajuda do exterior. Uma incorporação de São Tomé e Príncipe na União Aduaneira e Económica da África Central (UDEAC) resultaria numa vantagem para o Estado insular na aceitação do Franco CFA, garantido pela Tesouraria da França. São Tomé e Príncipe deveria seguir o exemplo da Guiné Equatorial vizinha que faz parte da Zona CFA desde 1985.

Uma alternativa para a época, após ter alcançado uma solução pacífica no Sudoeste da África, seria uma associação ou uma reunião de São Tomé e Príncipe com a República de Angola, país irmão também de língua portuguesa.

© Março de 1990 por Dietrich Köster, D-53115 Bonn