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Trincomalee: A consolidação da presença neerlandesa

Escrito por Marco Ramerini. Tradução feita por João Bergmann

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7.0 A CONSOLIDAÇÃO DA PRESENÇA NEERLANDESA

Este período de instabilidade resultou num grande decréscimo no volume do comércio em trânsito desde Trincomalee. Os números sobre este decréscimo são discrepantes, mas aparentemente nos primeiros dez anos de ocupação holandesa o comércio de roupas havia declinado de 480 mil florins holandeses quando Kottiyar estava sob domínio kandyano para 5.342 florins em 1681. A estimativa do comércio kandyano é também certamente exagerada de acordo com S. Arasaratnam, mas mesmo assim o contraste entre as duas cifras é impressionante. O reino de Kandy encontrava-se com todos os seus portos sob domínio holandês. Trincomalee, Batticaloa e Kottiyar estavam nas mãos dos holandeses, enquanto Puttalam, situado na costa oeste, era facilmente controlado pelo forte holandês de Kalpitiya. Os distritos de Trincomalee, Batticaloa e Kottiyar eram muito importantes do ponto de vista das produções agrícolas, particularmente o arroz. Além de ser auto-suficiente para a manutenção da população local e das guarnições holandesas, os produtos agrícolas eram exportados e serviam também para sustentar a cidade de Colombo.1

Do ponto de vista administrativo, a costa leste foi inicialmente colocada sob a jurisdição do comandante de Jaffna. Em 1671, porém, os holandeses instituíram um novo comando que compreendia toda a costa leste, cuja capital era Batticaloa e que incluía Trincomalee. Tal província foi abolida poucos anos mais tarde e toda a costa leste voltou a ser administrada por Jaffna. Em Trincomalee residia um “Opperhoofd”2, o qual com a ajuda de um conselho governava a cidade e vizinhanças, ficando sob a administração de Jaffna.3 No que concerne à administração da justiça no período VOC, Trincomalee era sede de um tribunal (“Landraad”). Tudo indica que os holandeses estabeleceram em Trincomalee, na segunda metade do século XVIII, uma Tribunal Superior (“Raad van Justitie”), o qual, todavia, dependia de Colombo para as causas mais importantes.4

Após a expulsão dos franceses, o forte de Trincomalee era equipado com cem peças de artilharia e uma guarnição de 350 soldados.5 Em agosto de 1696 havia nos dois fortes (Batticaloa e Trincomalee) 236 homens. Também faziam parte da força holandesa três chalupas ancoradas em Trincomalee.6 Em 1716, o forte de Trincomalee foi considerado pelo governador Becker em suficiente situação de defesa, muito embora algumas obras defensivas estivessem longe de estar concluídas. Para melhor defender a baía de Trincomalee depois do episódio francês, foi decidida a construção de outro forte além do já existente (Pagoodsberg). Neste segundo forte havia 32 peças de artilharia e 30 soldados.7 Este novo forte foi construído poucos anos após a expulsão dos franceses, num morro a leste da entrada da baía interior, para que pudesse melhor proteger o local em caso de ataques. O forte foi chamado de Oostenburg. No mesmo ano de 1716, ainda segundo as memórias do governador Becker, o forte Oostenburg é descrito como uma pequena fortaleza de pedra, situada numa elevação a leste da entrada da baía interior, cuja finalidade era a defesa do acesso à baía.8 Para evitar que forças inimigas entrassem na baía, foi construído um dique fortificado (waterpaas) no lado oeste da entrada da baía. Na ilha Dwars-in-de-weg foi instalada uma bateria de canhões. Além disso, havia outras duas fortificações no outro lado da baía (Koddiyar). Estas fortificações possuíam uma guarnição de 30 soldados e 16 canhões cada uma. No lado sul da baía Velos havia duas paliçadas, em Cuchar e Arsalari, utilizadas para fins de taxação, cada uma delas com 16 canhões e 40 soldados.9 Perto de Trincomalee, em Erekelenchene (a pouco mais de um quilômetro de Kottiyar e cerca de um quilômetro e meio ao sul da baía de Trincomalee) , os holandeses tinham construído uma trincheira.10

Em 1696, devido ao estado crítico do comércio ao longo da costa leste e face aos veementes protestos kandyanos, os holandeses decidiram reabrir ao livre comércio os portos de Kottiyar e Batticaloa, o que levou a um benefício imediato nas relações com Kandy, havendo também um evidente incremento no volume de tráfico comercial passando pelos portos acima mencionados. Kottiyar e Batticaloa voltaram a ser, juntamente com Puttalam na costa oeste, as portas de Kandy para o exterior. Infelizmente para os kandyanos, o desenvolvimento destes portos prejudicou bastante aqueles controlados diretamente pela companhia holandesa, e isto não seria admitido pelos holandeses. Assim sendo, já em 1703 a VOC decidiu fechar outra vez aqueles portos ao comércio exterior.

Após a derrota dos portugueses, a Igreja Católica foi forçada a abandonar à própria sorte os milhares de católicos convertidos, e no final do século XVII iniciou um novo apostolado no Ceilão, a partir dos frades oradores de Goa e, principalmente, graças à missão do frei João Vaz, conhecido como o Apóstolo do Ceilão. Por volta de 1695 e depois em 1710, Trincomalee foi visitada duas vezes pelo frei João Vaz. Este fundou diversas capelas na região, assim como administrou os sacramentos à comunidade católica. Além de Trincomalee, ele também esteve em Batticaloa e Kottiyar. Em carta datada de 169711, ele indicou em Kottiyar o local onde havia uma capela e uma comunidade de cem cristãos. A partir do começo do século XVIII, com regularidade incerta, foram enviados frades às regiões de Trincomalee e Kottiyar. Em 1714, outro frade, Miguel Francisco, visitou os cristãos de Trincomalee. Em 1728, ainda outro frade, João de Sá, conseguiu chegar a Trincomalee e Kottiyar apesar da vigilância dos holandeses.12 Nos anos seguintes, os contatos entre os religiosos e a população católica no distrito de Trincomalee se multiplicaram: o frade Joseph Pereira por lá esteve em 1733 – 1734, enquanto os frades Custódio Leytão, Francisco de Monroy e João da Silveira são apenas alguns dos religiosos que visitaram ou trabalharam na região de Trincomalee entre os anos de 1733 e 1762.13

O fechamento dos portos ao comércio direto com Kandy favoreceu o desenvolvimento do contrabando, o qual interessava especialmente à costa leste da ilha, aquele onde os holandeses exerciam um controle menos severo. O comércio ilegal acontecia principalmente através de três portos: Alembiel (Alampil), Chialwatte e Moletivo (Mullaitivu). A fim de estancar este tipo de comércio, foi determinado que, na mudança da monção, algumas chalupas provenientes de Jaffna navegariam pelas águas daquelas baías. Em Mullaitivu, uma baía situada a meio caminho entre Jaffna e Trincomalee, os holandeses construíram em 1715 uma pequena fortificação (tratava-se de uma pequena estrutura de madeira com paliçadas e terra), para evitar que os wannias, os mercadores muçulmanos e os chetties utilizassem aquela baía para o contrabando com Kandy. Na fortificação havia 24 soldados europeus, um alferes e dois sargentos, além de 20 lascarinos e seu comandante.14

Durante o período holandês um caminho ruim ligava Trincomalee a Jaffna, passando por Mullaitivu. Em 1749, o assentamento holandês de Tambalagama, perto de Trincomalee, foi atacado e queimado pelos kandyanos. Subseqüentemente, em 1751, os kandyanos tentaram também bloquear o comércio para Koddiyar e Tambalagama.

De acordo com o que Jan Schreuder escreveu em suas memórias, na baía de Trincomalee localizava-se um pequeno banco de pérolas, mas a renda da região provinha principalmente do arrack (uma bebida alcoólica), dos direitos de alfândega e do jardim cultivado pela companhia.15 Em suas memórias Schreuder descreveu ainda o estado das fortificações de Trincomalee: a vala do forte ainda não havia sido concluída e, devido à falta de mão-de-obra, o waterpas sob o forte de Ostenburg, assim como o forte em si, também não tinhamsido acabados.16

A partir de 1760, os ingleses freqüentemente utilizavam a baía de Trincomalee como local de ancoragem para suas próprias embarcações. Na época (1762), um enviado inglês, John Pybus, desembarcou em Kottiyar e chegou a Kandy. Esta intrusão inglesa perturbou os holandeses, que haviam declarado guerra a Kandy, pois estes temiam uma aliança entre a Inglaterra e Kandy.

Durante a guerra contra Kandy (1761 – 1766), os holandeses usavam Trincomalee como base para as incursões ao território kandyano. Em 1763, os territórios sob controle holandês estendiam-se no interior até Minneriya e Madavacchiya. Além disso, tropas holandesas de Trincomalee conseguiram ocupar Matale. Em virtude do tratado de paz de 1766, as terras de Tamblagam, Kottiyar e Kattekolapattu tornaram-se possessões holandesas. Também a área controlada pelos holandeses que incluía Batticaloa estendeu-se consideravelmente; os holandeses tomaram posse de importantes distritos agrícolas (onde o principal produto era o arroz) na área de Trincomalee e Batticaloa. O tratado de paz levou o controle holandês ainda mais longe, ao longo de toda a região costeira da ilha, resultando que Kandy encontrou-se sem uma saída para o mar, cercada pelo território da companhia. Com este tratado os holandeses controlavam totalmente o comércio kandyano, assim como as relações externas do reino de Kandy. Como se isto não bastasse, Kandy dependia da companhia para seus suprimentos essenciais de sal e peixe seco. O território ao redor de Batticaloa, que havia sido controlado pelo reino de Kandy até 1763 – 1766, era de grande importância para a subsistência do reino. Na verdade, as férteis planícies da província de Batticaloa eram conhecidas como o celeiro de Kandy. A perda do controle destas imensas planícies cultivadas aconteceu em definitivo com o tratado de 1766, o qual causou um marcante empobrecimento do reino de Kandy. Durante a guerra contra Kandy, a consistência das guarnições holandesas na ilha aumentou consideravelmente, o mesmo acontecendo com os dois principais fortes da costa leste, Trincomalee e Batticaloa. Em 1764, ambos tinham em conjunto uma guarnição de 881 soldados, dos quais 448 eram europeus, 228 orientais e 205 sepoys.17

Após a conquista dos novos territórios agrícolas na vizinhança de Trincomalee, os holandeses pensaram em restaurar os velhos reservatórios de Kantalai e Vendarasen Kulam, para novamente poder desenvolver as potencialidades agrícolas do distrito. Com o mesmo propósito, um mapa da província de Tamblegam foi feito em 1793 pelo agrimensor Struys e pelo engenheiro Fornbauer, sendo este o último comandante holandês de Trincomalee.18

Em 1777, o rei de Kandy, Kirti Sri Rajasinha, iniciou novas negociações com os franceses. Ele entrou em contato com o governador francês de Pondicherry oferecendo as baías de Trincomalee e Batticaloa em troca de ajuda francesa para expulsar os holandeses da ilha. Os franceses consideraram seriamente a oferta, mas a eclosão da guerra entre a Grã-Bretanha e a Holanda, com a França aliando-se aos holandeses, pôs um fim às negociações.

Continua: A primeira ocupação inglês ea rendição definitiva holandês

Fort Oostenburg (1726), Trincomalee, Sri Lanka. Autor Valentijn 1726c
Fort Oostenburg (1726), Trincomalee, Sri Lanka. Autor Valentijn 1726c

NOTAS:

1 “Memoirs left by Riclof van Goens, Jun. 1675-1679”. pág. 5.

2 Oficial europeu no comando de um pequeno distrito.

3 “History of Sri Lanka”, vol. II, págs. 346-347.

4 “History of Sri Lanka”, vol. II, págs. 356-374.

5 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. III, pág. 1196.

6 “Memoir of Thomas van Rhee, 1697”, págs. 52-53.

7 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. III, pág. 1196.

8 “Memoir of Becker, 1716”, págs. 26-27.

9 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. III, pág. 1196.

10 Um mapa holandês é testemunha disso, o mesmo se encontra no Rijkscarchief Eerste Gedeelte, em Haia.

11 Perniola “The Catholic Church in Sri Lanka: the Dutch period, 1658-1711”, vol. I pág.122.

12 Vedi Boudens “The catholic Church in Ceylon under Dutch rule”, págs. 89-131.

13 Vedi Boudens “The catholic Church in Ceylon under Dutch rule”, págs. 132-157.

14 “Memoir of Becker, 1716”, pág. 17.

15 Schreuder, J. “Memoir of Jan Schreuder”, pág. 89.

16 Schreuder, J. “Memoir of Jan Schreuder”, págs. 91.

17 Raven-Hart “The Dutch wars with Kandy, 1764-1766”, págs. 56.

18 Brohier “Land, maps and surveys”, págs. 135-136; Brohier “Links between Sri Lanka and The Netherlands”, pág. 128.

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Trincomalee: A tentativa francesa

Escrito por Marco Ramerini. Tradução feita por João Bergmann

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6.0 A TENTATIVA FRANCESA

Um novo perigo ameaçava as possessões holandesas no Ceilão, e ele se materializou em março de 1672, na forma de uma grande frota francesa, sob o comando do almirante De La Haye. No período de 1665 a 1670, guiados por Colbert e com a ajuda de François Caron, um homem de grande experiência e ex-diretor geral da VOC na Ásia, os franceses haviam desenvolvido um plano de expansão para o continente asiático à custa dos holandeses. Deste plano constava a fundação de um importante posto comercial em Trincomalee.

A frota francesa, comandada pelo tenente-general da Índia, Jacob Plaquet de la Haye, lançou velas do porto francês de Rochefort em 29 de março de 1670, e era composta por nove navios, levando a bordo 2250 homens e 251 canhões. Ao chegar à baía de Trincomalee em 22 de março de 1672, a esquadra francesa representava um enorme poderio naval para os mares da Índia.

Em março de 1672, quando da chegada da frota francesa de De La Haye e Caron, os holandeses abandonaram e queimaram seu posto avançado na baía de Kottiyar, cuja guarnição procurou abrigo no forte de Trincomalee. Os holandeses abandonaram 21 canhões no forte destruído. A guarnição holandesa de Trincomalee foi forçada a se defender e permaneceu dentro das muralhas do forte para observar a movimentação dos franceses.

Os franceses escolheram a formosa baía de Trincomalee / Kottiyar como base de suas futuras operações na Ásia. Sob o olhar dos holandeses, protegidos em seu forte de Pagoodsberg, os franceses ocuparam e fortificaram as duas ilhas situadas na entrada da baía: a que eles chamavam de “Isle Du Soleil” (“Dwars-in-de-weg”, ou Ilha do Sol) e a denominada “Caron” (“Compagnies Eyland”), ocupando ainda o posto avançado da baía de Koddiyar. O oficial Boisfontaine, com 30 soldados, foi enviado em seguida à corte de Kandy, na qualidade de embaixador francês. Ele foi bem recebido pelo rei, que desejava poder expulsar os holandeses da ilha, com os quais estava em guerra.

No dia 28 de maio de 1672 os franceses assinaram um tratado com Raja Sinha, através do qual as baías de Trincomalee e Kottiyar eram cedidas pelos cingaleses aos franceses. Na ocasião foram erigidos alguns pilares para delimitar os limites do território cedido. O principal problema para a grande frota francesa era o fornecimento de alimentos. Assim que os franceses se deram conta de que a comida proveniente de Kandy não era suficiente para alimentar um exército tão grande, três navios foram enviados à Índia à procura de suprimentos para solucionar o problema. Poucos dias depois da assinatura do tratado com os cingaleses, a frota holandesa de Van Goens chegou à baía. Com um desembarque em Tambalagama, os holandeses inicialmente tentaram bloquear a linha de suprimentos que vinham do interior para os franceses, mas um ataque imediato das tropas kandyanas forçou Van Goens a retirar seus homens para os navios. Os kandyanos pediram ajuda aos franceses para combater os holandeses conjuntamente, mas aqueles se recusaram, já que estavam formalmente em paz com a Holanda. Esta recusa esfriou bastante o entusiasmo dos cingaleses em relação à expedição francesa.

Os holandeses, porém, desconsideraram a paz com os franceses, e na primeira oportunidade que surgiu, ele atacaram e conseguiram capturar dois dos navios que os franceses haviam enviado à Índia em busca de alimentos, sendo que o terceiro navio foi forçado a retornar. Para as tropas francesas, a situação ficava cada vez mais dramática. Apesar da ajuda de Raja Sinha, doenças e a falta de comida provocaram muitas mortes entre os franceses. Em 9 de julho de 1672, o almirante De La Haye, após ter enviado outro embaixador (De La Nerolle) à corte de Kandy, decidiu partir com toda a frota em busca de socorro, deixando na fortificação da baía uma guarnição de cem homens e dois barcos. Os holandeses não perderam tempo, atacando a guarnição e fazendo com que os franceses entrincheirados no forte se rendessem. Um numeroso contingente de tropas kandyanas chegou a Trincomalee poucos dias depois da partida da frota francesa, mas já era tarde demais. O curto período francês estava encerrado, juntamente com as esperanças kandyanas de expulsar os holandeses da ilha.1

Continua: A consolidação da presença holandesa

Plano de Fort Trincomalee, feita pelo Chevalier de Suffren em agosto 1782
Plano de Fort Trincomalee, feita pelo Chevalier de Suffren em agosto 1782

NOTAS:

1 Em relação ao episódio francês, pode-se consultar: Ames, G. J. “A Portuguese perspective on the emerging French presence in the East ca. 1670”, in: “Studia”, n° 46/1987, págs. 254-286; “History of Sri Lanka”, vol. II, págs. 223-225; Arasaratnam “Dutch power in Ceylon, 1658-1687”, págs. 62-63.

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Trincomalee: A nova ocupação neerlandesa e a reconstrução do forte

Escrito por Marco Ramerini. Tradução feita por João Bergmann

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5.0 A NOVA OCUPAÇÃO NEERLANDESA E A RECONSTRUÇÃO DO FORTE

Durante os anos, que se seguiram, os neerlandeses aparentemente mantiveram apenas um pequeno posto-avançado na baía de Kottiyar1, mas isso não é fato comprovado. O que realmente se sabe é que em 1660 os holandeses enviaram uma expedição sob o comando de van Rhee e Wasch com o propósito de ocupar novamente Trincomalee, a fim de evitar contatos entre o rei de Kandy e os ingleses, os quais, ao que parece, tinham intenção de estabelecer um pequeno posto-avançado em Kottiyar. A reação do rei de Kandy foi oportuna, e este imediatamente enviou um numeroso exército para não permitir que os holandeses atingissem o seu propósito. Ele foi bem sucedido e os holandeses tiveram que retroceder.2

Naquela ocasião, tendo expulsado os portugueses do Ceilão, após a queda de Jaffna em 1658, os holandeses estavam novamente interessados em Trincomalee, quando ocorreu uma rebelião na corte kandyana em 1664. Quando isto aconteceu, Raja Sinha pediu ajuda aos holandeses para patrulhar a costa leste da ilha, a fim de evitar a fuga dos rebeldes, os quais ele temia que pudessem receber ajuda ou fugir por um dos portos da costa leste. Em setembro de 1665, os holandeses, tendo recebido notícias que indicavam que um navio inglês havia chegado à baía de Trincomalee e estabelecido, através de um embaixador, contatos com o rei de Kandy, decidiram que, além de patrulhar a costa leste, havia a necessidade de tomar Trincomalee outra vez. Com este propósito, foi enviada uma expedição com dois navios e cem soldados sob o comando do capitão Pierre Du Pon. As tropas reconstruíram o forte no local onde ainda havia ruínas do velho forte português.3

A nova fortaleza de Trincomalee foi equipada com 4 bastiões principais (denominados de Zeeburg, Amsterdam, Enkhuizen e Holland). Destes, Zeeburg e Amsterdam eram protegidos por uma trincheira que dividia a península em duas partes e isolava o forte do resto da cidade. Zeeburg era o maior dos dois, ficando também mais ao norte que os outros, situado na baía Back. Ao longo da mesma baía ficava a plataforma de armas denominada Cat, sendo que uma muralha ligava esta plataforma ao bastião Zeeburg, havendo uma pequena entrada no ponto central da muralha. O bastião Amsterdam era o que ficava situado mais ao sul, ficando de frente para a baía Dutch, assim como os outros dois bastiões, Enkhuizen e Holland. Estes dois eram conectados ao Amsterdam através de uma muralha. A meio caminho aproximadamente entre os bastiões Amsterdam e Enkhuizen ficava a entrada principal do forte.4

Em 1668 as fortificações de Kottiyar e Batticaloa também foram retomadas e incrementadas. Em 1670, Pieter de Graauw, então no comando de uma companhia de tropas holandesas, através de acordos de proteção e vassalagem com alguns chefes da costa leste, estendeu o controle holandês para grande parte daquela região5, mas tal domínio teve curta duração. Na verdade, poucos meses mais tarde, em agosto de 1670, devido a um ataque maciço do rei de Kandy à toda a costa leste, os holandeses foram obrigados a buscar refúgio em seus fortes de Trincomalee e Batticaloa.6 Em Trincomalee, os holandeses perderam 24 soldados e 22 lascarinos em confronto com os kandyanos.7

Continua: A tentativa francesa

Fort Fredrick, Trincomalee, Sri Lanka. Autor Bel Adone. No Copyright
Fort Fredrick, Trincomalee, Sri Lanka. Autor Bel Adone

NOTAS:

1 Nelson “The Dutch forts of Sri Lanka”, (1) pág. 117.

2 Arasaratnam “Dutch power in Ceylon, 1658-1687”, (2) págs. 18-19.

3 Herport “A Short description…”, (3) publicado em: Raven-Hart “Germans in Dutch Ceylon”, vol. I, pág. 34.

Também Baldeus escreveu sobre o capitão Peter du Pon e sua expedição a Trincomalee. Baldeus “A description of East India …”, pág. 819; Arasaratnam “Dutch power in Ceylon, 1658-1687”, pág. 33.

4 Nelson “The Dutch forts of Sri Lanka”, págs. 124-131.

5 (5) Ao sul de Batticaloa, no mesmo período, os holandeses construíram diversos postos avançados fortificados em Panama, Yala e Magama. Em Chinnecallette Delle (a aproximadamente 7 ou 8 quilômetros ao sul do rio de Batticaloa), os holandeses também construíram um entrincheiramento..

6 “History of Sri Lanka”, vol. II, pág. 215-219; Arasaratnam “Dutch power in Ceylon, 1658-1687”, págs. 42-43.

7 “Heer van Rheede: report on Ceylon, 1677”.

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Trincomalee: A conquista neerlandesa e o abandono do forte

Escrito por Marco Ramerini. Tradução feita por João Bergmann

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4.0 A CONQUISTA CONQUISTA NEERLANDESA E O ABANDONO DO FORTE

O primeiro ataque dos neerlandeses contra os fortes portugueses do Ceilão foi dirigido à costa leste da ilha, onde os portugueses não eram tão fortes. O primeiro objetivo foi o forte de Batticaloa.

Em 9 de abril de 1638, o comandante holandês Coster chegou a Batticaloa com três navios; no dia 10 de maio, cinco outros navios holandeses chegaram ao local, e quatro dias mais tarde, foi a vez das tropas do rei de Kandy, com 15 mil homens. O forte foi bombardeado e no dia 18 de maio de 1638, após uma resistência pífia de apenas quatro horas, a guarnição do forte de Batticaloa foi forçada a se render.1 Durante o ataque holandês, cerca de 700 pessoas haviam procurado refúgio no forte, sendo 50 deles portugueses e mestiços; os restantes eram habitantes nativos que residiam na vila próxima ao forte, a qual tinha sido incendiada pouco antes do ataque dos holandeses. Todos os oficiais e soldados portugueses foram deportados para a cidade de Negapatam, que estava sob controle português, situada na costa de Coromandel, enquanto aos mestiços e aos outros habitantes de Batticaloa foi permitido permanecer no local.2 Depois da conquista, os holandeses deixaram no local uma guarnição de cem soldados sob o comando de Willem Jacobsz Coster, que havia comandado as tropas holandesas no cerco ao forte.

Como conseqüência da vitória obtida em Batticaloa, e após algumas tentativas mal sucedidas, os holandeses, sob o comando do almirante Westerwold, conseguiram fazer o rei de Kandy, Rajasinha II, assinar um tratado de aliança anti-português, no qual os holandeses prometiam se engajar na ajuda a Rajasinha II em sua guerra contra os portugueses, obtendo em troca o monopólio do rico comércio da ilha. Foi assim que, em virtude do tratado de aliança com Rajasinha, os holandeses atacaram os outros assentamentos portugueses ao longo da costa do Ceilão, com a ajuda das tropas do reino de Kandy.

O forte de Trincomalee foi o segundo objetivo a cair nas mãos dos holandeses, e foi conquistado após um curto cerco, durante o qual, segundo o que é narrado por Ribeiro, 23 soldados da guarnição portuguesa foram mortos.3

O comandante holandês Antonio Caen nos auxilia com seu diário na descrição dos eventos. Ele descreve os preparativos para o cerco, o bombardeio do forte português e a rendição da guarnição.4 A frota sob o comando de Caen era composta por 11 navios, com 353 canhões e 1280 homens a bordo, dos quais 325 eram soldados e os demais marinheiros.5 Os navios holandeses chegaram à baía de Coutijar ao anoitecer de 18 de abril de 1639, e lá os holandeses encontraram o governador de Samantura (Sammanture), que havia chegado por terra de Batticaloa. No dia seguinte, o waniya6 de Kottiyar visitou os holandeses, descrevendo com detalhes as defesas do forte e a consistência da guarnição portuguesa. De acordo com o testemunho do waniya, o forte tinha dimensões semelhantes ao de Batticaloa, contando com três bastiões. O bastião voltado para a terra e o que vigiava a baía contavam com seis canhões cada, enquanto que o bastião que controlava o mar tinha apenas dois canhões. Todas as peças de artilharia eram de ferro e haviam sido retiradas de um navio dinamarquês que tinha naufragado na baía cerca de vinte anos antes. A guarnição era composta por 40 portugueses e aproximadamente cem mestiços e negros. Além desses, havia uns 30 casados com suas famílias.

No dia 20 de abril, um grupo de soldados holandeses chefiados pelo vice-comandante Coster fez uma inspeção da defesa do forte, durante a qual foram localizados alguns pontos fracos. No dia seguinte, com dois botes, eles exploraram o lado nordeste do forte. No dia 22 de abril, cerca de 60 soldados foram desembarcados para inspecionar o forte mais de perto. Eles chegaram tão perto que a guarnição portuguesa disparou dois tiros de advertência.

No dia 23 de abril de 1639, de manhã cedo, os holandeses desembarcaram 40 marinheiros e vários soldados, os quais começaram a abrir um caminho para tornar possível o transporte de artilharia para um cerco, tendo sido escolhido um local para a instalação de uma bateria. Enquanto estes trabalhos progrediam, os portugueses do forte dispararam vários tiros de canhão e mosquete com o propósito de atrapalhar os holandeses. Um grupo de 30 negros tentou um ataque, que foi repelido pelos soldados holandeses.

Na manhã seguinte, outros marinheiros e soldados desembarcaram, os quais começaram a trabalhar na instalação de baterias. Os portugueses tentaram um novo ataque, e na escaramuça que se seguiu, um holandês foi mortalmente ferido. Os holandeses continuaram a trabalhar nas baterias durante todo o dia, e mais canhões foram desembarcados dos navios. Quando a noite chegou, a construção de três casamatas estava praticamente terminada.

No dia 25 de abril, cinco soldados da guarnição do forte desembarcaram num pequeno bote perto do local onde os holandeses estavam escavando trincheiras. Seguiu-se um enfrentamento durante o qual um soldado holandês foi ferido e um negro morreu. Apesar dessas inconveniências, ao anoitecer os holandeses haviam acabado a construção de dez canhoneiras (baterias), sendo que quatro delas já estavam cercadas por paliçadas. Durante o dia 26 houve a primeira troca de salvas de artilharia entre o forte e as baterias holandesas. Durante toda a tarde os portugueses bombardearam intensamente as posições holandesas, porém, como informa Caen em seu diário, os projéteis de canhão utilizados pelos portugueses eram, na sua maioria, feitos de pedra, o que denota a falta de balas de ferro para os canhões. Os holandeses, por seu lado, bombardearam algumas defesas que os portugueses estavam construindo perto da entrada principal do forte. A troca de tiros terminou com dois holandeses feridos e um negro morto. Subseqüentemente, outras peças de artilharia foram desembarcadas dos navios e instaladas nas baterias, que agora estavam praticamente concluídas. Para evitar qualquer tipo de comunicação ou ajuda vinda do mar para os sitiados, dois navios, o “Ryswyck” e o “Nachtegael” foram enviados para vigiar o lado do forte voltado para o mar. No dia seguinte, os trabalhos continuaram incessantemente, apesar dos tiros vindos do forte.

No dia 28 de abril, ao final da manhã, o navio “Cleyn Amsterdam” chegou de Batticaloa, com o embaixador Jacob Compostel a bordo. Ele trouxe a notícia de que Rajasinha estava envolvido no ataque aos portugueses nas cercanias de Colombo, e assim não poderia juntar-se aos holandeses. No entanto, ele informou Caen que em breve enviaria alguns mudaliyars7 com uma força de 4000 soldados para ajudá-lo no sítio a Trincomalee. As tropas holandesas sofreram muito em conseqüência do clima da região, e Caen informa que muitos homens morreram por esta razão. Decidiu-se apressar o ritmo, para que tudo estivesse pronto no dia 1° de maio. Na tarde de 28 de abril, Caen desembarcou para verificar os trabalhos. Os soldados foram organizados em três companhias formadas por 70 soldados cada uma, e, além disso, foi formada uma quarta companhia, esta composta por soldados e marinheiros. As tropas foram passadas em revista. Nos dois dias que se seguiram, os trabalhos nas baterias foram terminados e todas as peças de artilharia foram posicionadas.

Em 1° de maio de 1639, uma hora antes do alvorecer, todos os soldados foram desembarcados. Os holandeses decidiram dirigir o ataque principal contra o bastião norte8 mas ao mesmo tempo também o bastião Sta. Cruz, situado mais a oeste, foi bombardeado, para que não fosse utilizado pelos portugueses. O efeito do bombardeio nas defesas do forte foi devastador; depois de uma hora e meia de intensa troca de tiros, praticamente todas as armas portuguesas haviam sido destruídas, e a guarnição conseguia atirar somente com os mosquetes. Após três horas de bombardeio contínuo, uma larga brecha tinha sido aberta no bastião S. Jago, possibilitando que os holandeses entrassem facilmente no forte. Caen decidiu então que havia chegado a hora de enviar o tenente Blaauw com um soldado tocando um tambor e portando uma bandeira branca, para propor à guarnição portuguesa uma rendição em termos favoráveis; os negociadores, todavia, foram recebidos a tiros e forçados a uma rápida retirada. Depois deste comportamento desonroso por parte da guarnição portuguesa, o bombardeio do forte foi retomado e, após uma reunião no navio “Armuyden”, ficou decidido que, na manhã seguinte, seria preparado um ataque ao bastião S. Jago e à muralha ao lado do bastião Sta. Cruz. O bastião S. Jago foi descrito na reunião como quase inteiramente demolido, e suas armas fora de combate, já que desde as dez horas da manhã não houve qualquer disparo vindo do forte. Um plano detalhado para o assalto final ao forte foi acordado, o qual previa a participação de 514 homens, entre soldados e marinheiros.

Enquanto os preparativos dos planos do assalto estavam bem avançados, dois capitães portugueses chegaram do forte portando uma bandeira branca, enviados pelo comandante da fortificação, pedindo desculpas pela recepção anterior dada aos negociadores, a qual havia sido feita por soldados inexperientes. Caen os intimou a se renderem, dada a miserável condição à qual o forte tinha sido reduzido pela artilharia holandesa, mas eles resolutamente recusaram-se a fazê-lo, dizendo que dentro do forte havia uma guarnição de 300 portugueses, e que apenas um negro e um kanares tinham sido mortos pelos bombardeios. O comandante holandês determinou que os dois fossem colocados sob custódia e mandou continuar os preparativos para o ataque.

Na madrugada de 2 de maio, enquanto os soldados holandeses preparavam-se para o assalto definitivo, um padre e outra pessoa portando uma bandeira de trégua avançaram do forte. Eles declararam que estavam ali para negociar a rendição; os portugueses pediam para que fossem deixados livres para abandonarem o forte levando suas provisões e seus escravos, e que os pescadores (Careas) 9pudessem segui-los. Caen cedeu em parte às demandas, mas negou a permissão para que os pescadores seguissem os portugueses. Além disso, ele limitou as opções de locais para onde os portugueses poderiam ir a Tranquebar e Nagapatnam, não permitindo peremptoriamente que eles se transferissem para Jaffnapatnam ou qualquer outro lugar no Ceilão. O padre, depois de ter estas condições asseguradas pelos holandeses, retornou ao forte para relatar ao comandante português as condições da rendição. Enquanto isso, rapidamente, as tropas holandesas aproximaram-se do forte para um possível assalto. O padre retornou em seguida, entregando as chaves do forte e declarando que a guarnição havia aceitado as condições de rendição. Uma companhia de soldados holandeses entrou então no forte, ordenando que os soldados da guarnição abandonassem suas armas no forte e deixassem seus nomes num registro. O comandante do forte, Francisco Deça10 juntamente com seus capitães e soldados da guarnição, aguardaram por Caen e, como sinal de submissão, entregou a Caen sua espada. Este, em sinal de cortesia, devolveu a espada ao comandante português. Foi, portanto, em 2 de maio de 1639, depois de alguns dias de cerco11 que terminou o breve período de ocupação portuguesa em Trincomalee.

Os holandeses encontraram o forte em estado deplorável. Os canhões dos bastiões S. Jago e Sta. Cruz haviam sido arrancados de suas bases e estavam sob as ruínas da muralha.12 Segundo o testemunho de Caen, duas horas depois da ocupação do forte chegaram os reforços prometidos por Rajasinha, cerca de 3000 combatentes comandados por dois mudaliyars. Mais tarde, uma cerimônia de ação de graças pela vitória foi celebrada dentro da igreja portuguesa. As baixas holandesas foram de dois mortos e dois feridos, enquanto que no lado português morreram 11 europeus, um mestiço e dois kanars, além de nove feridos.13 Depois da conquista do forte houve alguns episódios de violência contra os habitantes portugueses, o que forçou Caen a publicar um “placaat”14 no qual ele ameaçava enforcar os culpados por tais ações, fossem eles holandeses ou cingaleses.

De acordo com a versão holandesa dos fatos, os dois mudaliyars chegaram com suas tropas logo após a ocupação do forte, e logo demandaram que este ficasse sob o controle de suas tropas. Os holandeses responderam exibindo o tratado assinado pelo rei, no qual estava claramente indicado que os fortes capturados deveriam ser ocupados por guarnições holandesas.15 Assim sendo, os holandeses se acharam no direito de ocupar o forte com sua própria guarnição. O comando da guarnição do forte ficou a cargo do fiscal Gerrit Herbers. A ocupação pelos holandeses do forte de Trincomalee, sem a cessão do mesmo as suas tropas, irritou sobremaneira o rei de Kandy, que protestou veementemente junto aos holandeses por não terem cedido aos seus desejos. Ele chegou ao ponto de bloquear o carregamento de suprimentos para as tropas da guarnição do forte, mas voltou atrás quando sua ira amainou.

No mesmo ano, os holandeses reconstruíram e reforçaram o forte, mas no ano seguinte (1640), como resultado de um acordo com os kandyanos, a edificação foi abandonada 16 e, em troca de dez elefantes, cedida ao rei de Kandy17, Poucos anos depois, o forte foi demolido (talvez em 1643) pelos kandyanos. Em 1641 também o forte de Batticaloa foi cedido aos kandyanos, que imediatamente o demoliram. A razão da cessão dos dois fortes ao rei deve ser pesquisada mais profundamente, já que, além da demanda contínua do rei pelas duas fortificações, existe o fato de que os holandeses perceberam que os territórios onde ficavam as fortificações dariam pouco lucro.18

Os portos da costa leste, Trincomalee, Kottiyar e Batticaloa, foram utilizados durante o período em que estiveram sob o controle do reino de Kandy como portos de livre comércio com os outros reinos asiáticos, assim como com outras potências da Europa, principalmente Inglaterra19 e Dinamarca, fato que irritou bastante os holandeses. Através dos três portos os kandyanos comercializavam arroz, marfim, elefantes, areca, mel, madeira, tecidos e outros bens de primeira necessidade. O porto de Kottiyar, em particular, foi intensamente utilizado pelos kandyanos. Lá existia um posto de alfândega que funcionou até 1668, ano no qual os holandeses voltaram a ocupar a região. Depois desta ocupação, a alfândega foi transferida mais para o interior da ilha, em Minneriya. Uma estrada ligava o planalto de Kandy a Matale e Kottiyar, seguindo em sua maior parte o curso do rio Mahaveli Ganga. Toda esta região utilizava o porto de Kottiyar para o comércio com o exterior. Um mercado onde a troca de mercadorias acontecia foi implantado em Killevetty, a poucas milhas da costa. Em Kottiyar estabeleceu-se também uma colônia de chetties.

Continua: A nova ocupação holandesa e a reconstrução do Forte

Mapa de Trincomalee por Antonio Bocarro (1635). Livro das Plantas de todas as fortalezas, cidades e povoaçoens do Estado da Índia Oriental (1635)
Mapa de Trincomalee por Antonio Bocarro (1635). Livro das Plantas de todas as fortalezas, cidades e povoaçoens do Estado da Índia Oriental (1635)

NOTAS:

1 Goonewardena, pág. 17.

2 Seus descendentes, aproximadamente 2000 pessoas, ainda hoje falam um português crioulo, e são católicos.

3 Ribeiro “The historic tragedy of the island of Ceilão”, págs. 105-106.

4 Em: J.R.A.S. (Ceylon) n°35 (1887) “The capture of Trincomalee A.D. 1639”, págs. 123-140.

5 Os nomes dos navios eram: “Utrecht”, “Henrietta Louisa”, “Egmont”, “S. Hertogenbosch”, “Wassenaar”, “Der Veer”, “Armuyden”, “Valkenburgh”, “Reyneburch”, “Onderwater”, “Zeeuwsch Nachtigael”. O diário de Caen indicava que a nave capitânia era o “Armuyden”.

6 Chefe hereditário.

7 Um chefe militar.

8 Denominado S. Jago por Caen e segundo descrição de Bocarro era chamado Sancto Antônio.

9 Casta de pescadores tamis.

10 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. III, pág. 817.

Francisco Deça era um homem casado de Colombo; ele logo retornaria ao Ceilão, porque ele é mencionado por Queyroz entre os feridos na batalha de Caymel (Kammala) em dezembro de 1639 (segundo Goonewardena, em janeiro de 1640 “The foundation of Dutch power…”, pág. 31), contra os holandeses. Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. III, pág. 823.

11 Queyroz indica a duração do cerco como sendo de 40 dias de bombardeio. O diário de Caen, entretanto, claramente relata que os holandeses chegaram a Trincomalee no dia 18 de abril de 1639, e o forte rendeu-se no dia 2 de maio (14 dias, portanto). Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. III, pág. 817.

12 O estado deplorável ao qual os bastiões do forte foram reduzidos deveu-se também a sua construção falha, já que as paredes continham terra no seu interior. Ribeiro “The historic tragedy of the island of Ceilão”, pág. 105.

13 Isto de acordo com o diário de Caen, enquanto segundo Ribeiro os mortos entre os portugueses foram 23 de um total de 50 homens da guarnição. Ribeiro “The historic tragedy of the island of Ceilão”, pág. 105.

14 Uma ordem.

15 Em: J.R.A.S. (Ceylon) n°35 (1887) “The capture of Trincomalee A.D. 1639”, págs. 123-140, também em Goonewardena, pág. 28.

16 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. III, pág. 848.

17 Winius “Fatal history of Portuguese Ceylon”, págs. 43-44.

18 Goonewardena, pág. 65 e nota 24, pág. 77.

19 Em 1659 chegou a Kottiyar um navio inglês, a bordo do qual estava Knox.

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Trincomalee: A chegada dos dinamarqueses e neerlandeses, e a construção do forte português

Escrito por Marco Ramerini. Tradução feita por João Bergmann

Atrás: Os primeiros contatos com os portugueses

3.0 A CHEGADA DOS DINAMARQUESES E NEERLANDESES, E A CONSTRUÇÃO DO FORTE PORTUGUÊS

A importância estratégica do controle sobre as baías e portos da costa leste do Ceilão ficou clara coma chegada dos primeiros contendores europeus aos mares da Ásia. Na verdade, o primeiro contato entre os holandeses e o rei de Kandy tinha acontecido em 1602 na região de Batticaloa. Em junho daquele ano, o almirante holandês Joris Van Spilbergen desembarcou naquele local e de lá prosseguiu em direção a Kandy, na tentativa de estabelecer uma aliança contra os portugueses. Spilbergen teve sucesso ao obter proteção e privilégios de comércio para os mercadores holandeses, e partiu de regresso à Europa em setembro de 1602. Três meses mais tarde, outra expedição holandesa chegou a Batticaloa, tendo em seu comando o vice-almirante Sebald de Weert. Este foi inicialmente recebido com grande entusiasmo pelo rei de Kandy, Vimala Dharma Suriya I, mas em sua segunda visita ao rei, devido a seu mau comportamento, as relações se deterioraram e de Weert foi morto. A costa leste, especialmente Batticaloa, era na época o local preferido de desembarque das frotas holandesas na tentativa de contato com o rei de Kandy.

Todavia, os primeiros europeus que tentaram estabelecer um assentamento inicial em Trincomalee não foram nem os portugueses nem os holandeses, mas sim os dinamarqueses. Eles chegaram ao Ceilão no final de 1619 com um primeiro navio, chamado “Oresund”, sob o comando de Roelant Crape. Esta pequena expedição era na realidade a vanguarda de outra frota dinamarquesa, esta composta por quatro navios e trezentos soldados, comandada por Ove Giedde, a qual chegou à ilha em maio de 1620. Esta expedição havia sido equipada pela Companhia Dinamarquesa das Índias Orientais1 a qual, tentando imitar o sucesso da Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC), queria tentar a sorte nos mares asiáticos.

A expedição dinamarquesa ocupou o templo de Trincomalee, e foi ali que os dinamarqueses começaram os trabalhos de fortificação da península. No início, o rei de Kandy, Senarat, foi um tanto frio em relação aos dinamarqueses. Ele tinha, na verdade, pouco tempo antes (agosto de 1617), concluído um tratado de paz com os portugueses, e Senarat entendia que a pequena expedição dinamarquesa jamais poderia destruir o poder português na ilha, assim que ele inicialmente sugeriu que os dinamarqueses formassem uma aliança com Mayadunne2, o qual ainda estava em guerra contra os portugueses. Contudo, mais adiante, ele consentiu em assinar uma aliança com a companhia dinamarquesa e, em 21 de agosto de 1620, foi assinado um tratado de aliança entre os dinamarqueses e o rei Senarat, contra os portugueses. O rei enviou 60 homens a Trincomalee para ajudar os dinamarqueses na construção do forte. Durante sua permanência em Trincomalee, os dinamarqueses cunharam algumas moedas (“larins”), nas quais foram gravadas as palavras “Don Erich Grubbe”. Não existe hoje nenhum traço dessas moedas, a não ser no diário de Ove Giedde.3 Queyroz também nos informa sobre esta expedição dinamarquesa: ele relata que cinco grandes navios dinamarqueses estavam no porto de Trincomalee, onde, com a ajuda dos cingaleses, estava sendo construído um palácio fortificado. Os portugueses não ficaram nada satisfeitos com esta nova intrusão nos assuntos da ilha e reagiram prontamente: O Capitão Geral marchou sobre Trincomalee e enviou os capitães Cabral e Barreto a Kottiyar, onde um dos navios inimigos estava ancorado. Os dinamarqueses foram forçados a uma retirada apressada, na qual perderam dois navios e alguns homens.4 Subseqüentemente, em 1621, os dinamarqueses, dizimados por doenças, abandonaram o empreendimento.

Após esta tentativa dinamarquesa, os portugueses compreenderam a urgência de pelo menos estabelecer uma base fortificada na costa leste do Ceilão, para melhor poderem controlar o tráfego de mercadorias ao longo da costa e o próprio reino de Kandy. Os portugueses acreditavam, erradamente, que os dinamarqueses haviam sido chamados pelo rei Senarat, sendo desrespeitado assim o tratado de paz assinado em agosto de 1617. Entrementes, a coroa portuguesa, primeiro em 1619 e depois outra vez em 1620, tinha enviado novas ordens para as fortificações de Trincomalee e Batticaloa, mas isto significava quebrar o tratado de paz e reiniciar o conflito com Kandy. As notícias sobre a expedição dinamarquesa não fizeram mais do que confirmar para os portugueses a necessidade de ocupar os portos da costa leste da ilha.

Em 1623, Constantino de Sá e Noronha chegou ao Ceilão pela segunda vez como Capitão Geral, e desta vez ele havia recebido ordens específicas do vice-rei Dom Francisco da Gama para prosseguir até a fortificação de Trincomalee .5 Ele não perdeu tempo e, em julho de 1623, chegou a Trincomalee, decidido a fortificar a baía para estancar o comércio, ilegal aos olhos dos portugueses, que o rei de Kandy, através de mercadores muçulmanos, mantinha com outros reinos da Ásia; além disso, razão ainda mais importante, para evitar que outras nações européias se utilizassem de Trincomalee como base para conquistar a ilha.6 O local escolhido para a construção do forte foi o do templo de Konesar (Koneswaram), onde já tinham se instalado os dinamarqueses, durante sua breve ocupação. Desta vez o templo foi destruído, e as pedras utilizadas na construção do forte português. Durante a destruição do templo, os portugueses encontraram um pedaço de rocha com escritos em cingalês antigo, o qual previa a destruição por um povo (chamado de “francos”), com o qual os portugueses se identificaram. De acordo com as inscrições, o templo jamais seria reconstruído. Esta rocha foi colocada na entrada do forte português.7 O rei de Portugal, informado da construção do forte, elogiou Constantino de Sá e Noronha e ordenou, apesar da opinião em contrário deste, a construção de um forte em Batticaloa. Além disso, o rei sugeriu a transferência de parte dos cristãos da Costa da Pescaria para o Ceilão (Trincomalee), para povoar a ilha.8

Constantino de Sá deixou uma guarnição de 80 portugueses e 100 lascarinos9 sob o comando de Francisco Pinto Pimenta10, para terminar os trabalhos no forte e estender a influência portuguesa aos vilarejos vizinhos, assim garantindo provisões e homens para o trabalho. Inicialmente foram instaladas no forte 14 peças de artilharia, as quais foram transportadas com grande esforço a partir de navios dinamarqueses naufragados.11 Os portugueses colocaram sob seu controle direto as vilas adjacentes (Tambalagama, Gantale, etc.), às quais foi imposto um tributo: as localidades precisavam suprir o capitão do forte com elefantes e arroz.12 O rei de Kandy, como represália, organizou diversas expedições contra tais vilarejos para evitar qualquer tipo de auxílio aos portugueses.13 No ano seguinte, 162414), os portugueses foram forçados a organizar uma nova expedição; mais uma vez Constantino de Sá chegou a Trincomalee, agora terminando os trabalhos de construção do forte. Na ocasião, também foi estabelecida uma comunidade de 30 “casados”, vindos de Goa.

A construção do forte e a conseqüente destruição do templo complicaram bastante o relacionamento com Senerat, o rei de Kandy, pois este sentiu-se sitiado: os melhores portos da ilha estavam em poder dos portugueses, e o reino de Kandy arriscava tornar-se dependente dos portugueses para toda atividade comercial e qualquer contato com o exterior. Parece que um papel importante na tentativa de acalmar a reação do rei à ocupação de Trincomalee foi o do frei franciscano Eleutério de Santiago, que tinha sido enviado a Kandy por Constantino de Sá exatamente com este propósito.15

Queyroz criticou duramente a ocupação de Trincomalee; ele na verdade considerou um erro isolar Kandy ainda mais, e forçar o reino a formar alianças com outras potências européias. Além disso, devido à escassez de tropas e meios, era suicídio dispersar os homens por tantas fortificações pequenas. Some-se a isso o fato de que a perspectiva de fechar o comércio do reino de Kandy não era algo fácil de ser implementado, a não ser que os portugueses conquistassem a ilha inteira. A mesma função do controle exercido sobre o comércio kandyano a partir do forte de Trincomalee poderia ser facilmente exercida de navios, os quais, partindo dos portos de Galle e Jaffna, podiam patrulhar a costa, sem assim oferecer perigo aos kandyanos e a um custo menor para as finanças do “Estado da Índia”.16 Em 1627, o vice-rei Dom Francisco da Gama, também julgando inútil a construção de uma nova fortaleza em Batticaloa, expressou a opinião de que seis navios seriam suficientes para garantir a segurança de toda a costa leste da ilha.17

O forte construído pelos portugueses tinha formato triangular e era feito “…de pedra e argamassa…”, e consistia de três bastiões, um em cada ângulo. O mais importante deles era chamado de “Sancta Crus”, e era chave para a defesa da baía, situado no lado sul do istmo de maneira a ter contato direto com as águas da baía. Nele foram montadas seis peças de artilharia. Voltado para a extremidade norte do istmo ficava o bastião de “Sancto Antônio”, equipado com cinco canhões. Os dois bastiões principais conectavam-se através de um muro de cem passos de comprimento, três braças e meia de altura e seis palmos de espessura, sendo que este muro fechava o istmo em sua parte mais estreita. Um terceiro bastião – o menor deles – situava-se no lado norte, na península, e nele foram montadas três peças de artilharia. Todas as armas haviam sido recuperadas de um navio dinamarquês. Um muro de mesmas dimensões do anterior conectava este terceiro bastião no lado sul ao principal, Sancta Crus. Enquanto no lado norte o terceiro bastião conectava-se ao de Sancto Antônio somente por um parapeito de pedra e cal, situado no topo do penhasco e voltado para o mar, os portugueses modificaram a escarpa abaixo deste muro, fazendo-a mais íngreme. Na extremidade mais alta da península ficava um pequeno assentamento de portugueses casados e indígenas, um total de “20 brancos e 25 pretos”. Os “casados”, juntamente com outros 50 soldados portugueses, garantiam a segurança da fortaleza. Os soldados residiam dentro do forte com seu capitão, enquanto o comandante da fortaleza era designado pelo rei ou pelo vice-rei e morava numa casa no assentamento dos casados.18 E acordo com um mapa no “Livro das Plantas das Fortalezas, Cidades e Povoações do Estado da Índia Oriental”, havia ainda um bastião isolado no lado sul do promontório rochoso. Em frente aos dois bastiões principais, aparentemente foi escavada uma vala. Um pequeno vilarejo nativo ficava entre o forte português e a baía. No mapa de Bocarro aparecem ainda três templos na extremidade da península, embora estes templos não apareçam no “Livro das Plantas das Fortalezas, Cidades e Povoações do Estado da Índia Oriental”, da biblioteca do Paço Ducal de Vila Viçosa. A entrada do forte aparentemente situava-se no muro sul, do lado que dava para a vila dos casados.

Outro mapa interessante da era portuguesa, compilado pelo mesmo Constantino de Sá, governador do Ceilão, mostra o forte de Trincomalee situado no istmo da península. Neste mapa está claramente indicada a vila dos casados, denominada “pouvasam” (povoação), situada na península além do forte. Este também aparece com formato triangular e três bastiões. Parte da mesma coleção, um mapa maior do forte, com o título de “Planta da Fortalesa de Trinquilimale”, cita os nomes dos três bastiões: S. Cruz (o maior deles), S. Antônio e o menor, S. Tiago, com a indicação “esto baluarte se acomodou ao sítio”. Na parte interna do forte encontra-se o nome N. S. de Guadalupe, o mesmo da igreja de Trincomalee. Constantino de Sá nos informa que nos três bastiões havia dezesseis peças de artilharia, e a guarnição era formada por 40 soldados e 30 casados. O local era considerado inexpugnável por de Sá, devido a sua localização no alto do penhasco. Em sua opinião, com pequenos trabalhos adicionais de fortificação, o lugar poderia tornar-se um dos mais bem protegidos de todo o oriente.19 Esta é a descrição que o capitão João Ribeiro nos faz do forte de Trincomalee: uma fortaleza triangular com três bastiões, um em cada ângulo, armado com dez canhões de ferro, construída num morro perto da Baía dos Arcos. Dentro do forte havia uma igreja20 e um depósito para mantimentos e munições. Um capitão e 50 soldados formavam a guarnição e ainda dentro da fortaleza residiam um representante da lei, 16 casados e um capelão.21 Os lados menores da fortaleza mediam 75 metros e o lado maior, 150 metros.

Em 1628, após muita insistência de parte do rei de Portugal, e contra as opiniões do vice-rei e do governador do Ceilão, os portugueses também ocuparam Batticaloa, e lá construíram um forte, para evitar uma temida ocupação pelos holandeses. Foi o mesmo Constantino de Sá e Noronha que comandou a expedição que construiu o forte de Batticaloa. Ele chegou a Trincomalee com três navios em março de 1628, onde reforçou a guarnição, marchando a seguir para Batticaloa com cem portugueses e dois mil lascarinos. Foi escolhida para local do forte uma ilha na laguna. Em julho do mesmo ano, a construção do forte foi confiada a Damião Botado, e chamado de Forte de Nossa Senhora da Penha da Franca. A pequena fortificação foi construída numa ilha que protegia a baía, a qual os navios só podiam atingir durante a maré alta. A ilha ainda hoje leva o nome de Puliyantivu. O forte tinha formato quadrangular, com quatro bastiões guarnecidos por doze canhões de ferro. Dentro dele havia uma igreja e um depósito para munições e mantimentos. O local contava com uma guarnição de 40 a 50 soldados, um capitão, um representante da lei, um capelão e 20 casados. O local escolhido para a construção do forte de Batticaloa tinha vários pontos fracos, entre eles: faltava uma fonte para o fornecimento de água dentro dos muros; o canal que separava a ilha da costa era muito raso e estreito, não impedindo a passagem de tropas em caso de ataque; finalmente, o acesso ao mar era difícil e ficava a quase cinco quilômetros do forte. Poucos anos depois de sua construção, foi proposta uma reconstrução em local melhor, mas a crônica falta de fundos de Goa não permitiu que isto acontecesse.

O rei de Kandy, Senerat, em represália contra a construção do forte de Batticaloa, bloqueou toda e qualquer conexão por terra com os fortes de Batticaloa e Trincomalee. As guarnições portuguesas conseguiram sobreviver graças ao auxilia recebido por via marítima desde Jaffna. Como sempre na história do Ceilão, o controle dos mares foi uma vantagem decisiva que os europeus (portugueses, holandeses e finalmente ingleses) sempre tiveram em relação aos cingaleses, e que permitiu que eles dominassem ininterruptamente as áreas costeiras da ilha durante cerca de 450 anos.

Depois de sua construção, os dois fortes portugueses da costa leste, Trincomalee e Batticaloa, foram colocados sob a jurisdição do capitão de Jaffna.23 Normalmente, em cada um dos fortes havia um padre jesuíta residente.24 O primeiro resultado da conversão na região de Trincomalee parece ter sido encorajador. Na verdade, o padre Rebelo, chefe da missão de Jaffna, já em novembro de 1625 escrevia que, no ano anterior, o padre jesuíta que morava no forte de Trincomalee havia convertido onze mil almas.25

Continua: A conquista holandesa eo abandono do Forte

Mapa de Sri Lanka (Ceilão) (1681). Robert Knox. An Historical Relation of the Island Ceylon.
Mapa de Sri Lanka (Ceilão) (1681). Robert Knox. An Historical Relation of the Island Ceylon.

NOTAS:

1 A companhia dinamarquesa foi fundada em 17 de março de 1616.

2 Após ter sido severamente derrotado pelos portugueses, Mayadunne foi forçado a procurar abrigo em um navio dinamarquês ancorado no porto de Kottiyar, em 2 de julho de 1620.

3Barner Jensen, U. “Danish East India. Trade coins and the coins of Tranquebar, 1620-1845”, págs. 11-12; Holden Furber “Imperi rivali nei mercati d’oriente, 1600-1800”, nota n° 66, pág. 326.

4 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. II, pág. 727.

5 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. II, pág. 734.

6 De Silva “The Portuguese in Ceylon, 1617-1638”, págs. 67, 69 n. 33.

7 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. I, págs. 66, 67.

8 AA. VV. “Documentos Remetidos da Índia ou Livros das Monções, 1625-1627”, CNCDP, 1999, Lisboa, págs. 34-35, doc. n° 66 (Lisboa, 13 de fevereiro de 1625, pág. 203, doc. n° 635 (Lisboa, 4 de abril de 1626).

9Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. II, pág. 737.

10 Subseqüentemente ele foi substituído, por razões familiares (a morte de seu sogro, que havia deixado uma filha muito jovem), por Diogo Vaz Freire. AA. VV. “Documentos Remetidos da Índia ou Livros das Monções, 1625-1627”, pág. 102, doc. n° 283 (Goa, 23 de janeiro de 1625), pág. 184, doc. n° 595 (Goa, 23 de fevereiro de 1626).

11 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. II, pág. 737.

12 Queyroz dá a entender que as terras da região de Trincomalee eram muito férteis, com abundante produção de arroz. Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. I, págs. 68-69.

13 Depois da ocupação portuguesa de Trincomalee, muitos agricultores das vilas de Tambalagama e Gantale mudaram-se para Kottiyar. Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. I, pág. 69.

14 Verão de 1624, segundo Queyroz. Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. II, pág. 736.

15 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. II, pág. 698; Perniola, V. “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. II, págs. 352-353; Trinidade “Conquista Espiritual do Oriente”, vol. III, págs. 79-80.

16 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. II, pág. 735.

17 AA. VV. “Documentos Remetidos da Índia ou Livros das Monções, 1625-1627”, pág. 331, doc. n° 880 (Goa, 20 de fevereiro de 1627).

18 Bocarro, A. “Livro das Plantas das Fortalezas, Cidades e Povoações do Estado da Índia Oriental”, pág. 238.

19 “Costantine de Sa’s maps and plans of Ceylon”, p. 57.

20 Chamado no diário de Caen “Nossa Senhora de Garde Rope”, que vem a ser Nossa Senhora de Guadalupe, em: J. R. A. S. (Ceilão), n° 35 (1887) “The capture of Trincomalee A.D. 1639”, pág. 138.

21 Ribeiro “The historic tragedy of the island of Ceilão”, pág. 36

22 de Silva “The Portuguese in Ceylon, 1617-1638”, p. 89.

23 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. II, pág. 757-758.

24 No ano de 1628, encontrava-se presente em Trincomalee o padre Sebastião da Fonseca, enquanto que em Batticaloa residia o padre Antônio Soeiro. Em 1634 estava em Trincomalee o padre João Moura, e o padre Melchior Grasão pregava no forte de Batticaloa. Perniola, V. “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. III, págs. 125-126, 217 e 242.

25 Perniola, V. “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. III, p. 84.

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Colonialismo português Sri Lanka

Trincomalee: Os primeiros contatos com os portugueses

Escrito por Marco Ramerini. Tradução feita por João Bergmann

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2.0 OS PRIMEIROS CONTATOS COM OS PORTUGUESES

Um interesse inicial dos portugueses em relação a Trincomalee aconteceu no início da década de 1540. Tudo começou quando o rei de Kandy, Jayavira, seguindo conselho de Nuno Alvarez Pereira1, pediu ao governador português Martim Afonso de Souza para que ele abrisse uma “feitoria” 2 com um feitor em Trincomalee e que enviasse soldados portugueses a Kandy. O rei de Kandy, na ocasião, também prometeu pagar um tributo ao rei de Portugal. É óbvio que o objetivo principal do rei de Kandy, além de travar relações comerciais diretamente com os portugueses, era o de receber ajuda militar contra os reinos de Kotte e Sitavaka, os quais se achavam no direito de tomar Kandy.

Em fevereiro de 1543, parecia que os pedidos de Jayavira seriam satisfeitos; com este propósito, de fato, uma expedição portuguesa saiu de Negapatnam e, guiada por Amaro Mendez3 e Miguel Ferreira,4 chegou à baía de Trincomalee. Esta expedição inicialmente contava com 60 a 80 portugueses. O rei, sendo informado da chegada dos portugueses, imediatamente enviou a Trincomalee um contingente de 2000 homens. Juntamente com o português Nuno Alvarez Pereira, eles deveria juntar-se aos portugueses em Trincomalee e ajudar e apoiar a construção de um pequeno posto comercial e a sucessiva transferência de parte dos soldados para Kandy, mas a expedição foi um fracasso devido às numerosas deserções entre os portugueses, causadas pela falta de provisões, pela hostilidade dos locais e pela incompreensão entre os dois grupos.5

Segundo Queyroz, São Francisco Xavier também visitou Trincomalee, em 1543-44, tendo convertido alguns habitantes e sendo confrontado, em assuntos religiosos, por alguns líderes locais.6 Uma carta escrita por Nuno Alvarez Pereira em 1545 relata que alguns chefes de Trincomalee (Trycanamalle), juntamente com cerca de 3000 habitantes do local, quiseram ser convertidos à religião cristã.7 Esta demanda por conversão pode ter sido uma conseqüência da visita do santo.

Não obstante o primeiro insucesso, Jayavira, insistentemente, ainda em 1545, pediu ajuda aos portugueses, desta vez oferecendo pagar tributo ao rei de Portugal e permitindo a construção de um pequeno posto comercial em Trincomalee. Além disso, prometia pagar o salário do feitor, de um empregado da fazenda comercial e de mais 20 empregados que deveriam residir na capital. Para finalizar, o rei prometia ainda converter-se ao catolicismo, juntamente com toda a sua família.8 Como resposta a este pedido, em março de 1546 uma nova expedição foi enviada pelo governador da Índia Portuguesa para socorrer o reino kandyano.9 Atendendo à demanda do capitão da expedição, André de Sousa, quanto a qual caminho percorrer até chegar a Kandy, o rei Jayavira ordenou que eles procedessem via Trincomalee. Com uma tropa de cingaleses, Nuno Alvarez Pereira foi enviado pelo rei a Trincomalee para auxiliar o contingente português em sua transferência para Kandy, mas quando as tropas kandyanas chegaram a Trincomalee, foi constatado que mais uma vez os portugueses haviam desaparecido, e dos supostos 150 soldados não restavam mais que 13 ou 14. A razão para isso foi de que, ao chegarem a Trincomalee, os soldados portugueses tinham sido duramente atacados pelos habitantes da região, sendo obrigados a bater em retirada até Negapattan. Parte dos soldados portugueses alcançaram Kandy via Yala. No total, aproximadamente 50 soldados chegaram a Kandy.10 O enviado do rei de Kandy, Nuno Alvarez Pereira, foi então abandonado por quase todos os seus homens, temerosos de um eventual ataque por parte dos habitantes do distrito de Trincomalee, mas para sua sorte o temido ataque não se materializou.11 Fica claro a partir destes eventos que o território de Trincomalee, mesmo que nominalmente sujeito ao rei de Kandy, não era assim considerado com tanta certeza pelos kandyanos, mas apesar disso Jayavira considerou que a estrada que começava em Trincomalee era a mais segura para chegar a Kandy.12 Miguel Fernandes13 indica em uma de suas cartas as razões para o comportamento dos habitantes de Trincomalee. De acordo com o que ele escreveu, a causa das reações foi a conversão de Jayavira ao cristianismo.14

Ainda durante o ano de 1546 fizeram-se presentes em Kandy alguns embaixadores do “rei” de Trincomalee. Através deles, ele insistentemente implorava aos portugueses para se tornar cristão.15 Uma carta (datada de 16 de março de 1547) escrita por João de Villa de Conde e endereçada a João de Castro dá conta de um novo pedido do rei de Kandy para a construção de uma feitoria no porto de Trincomalee, sendo que desta vez Jayavira também comprometia-se a nomear Nuno Alvarez Pereira para o cargo de feitor.16 Como resultado desta nova manifestação, um novo contingente de portugueses chegou à costa leste da ilha, cerca de 100 homens sob o comando de Antonio Moniz Barreto. Desta vez, embora o local de desembarque tivesse sido inicialmente definido como Trincomalee, os portugueses desembarcaram em Batticaloa e chegaram a Kandy por lá. Esta expedição, porém, também terminou em fracasso.17

Nos últimos meses de 1551, o príncipe de Trincomalee, um menino de apenas sete ou oito anos, foi batizado pelo padre Anrriques. As razões para esta conversão podem ser encontradas numa luta entre duas facções pelo poder, uma delas guiada por um líder que era tio do jovem príncipe. Pensando em se beneficiar com a ajuda dos portugueses, o tio resolveu levar o menino até a costa de Pescaria18, onde moravam os jesuítas portugueses. Lá chegando, todo o grupo insistiu em ser cristianizado. Assim sendo, o príncipe, seu tio e de 30 a 40 de seus seguidores tornaram-se cristãos. Também foi organizada uma expedição para colocar o príncipe no poder em sua província. Desta participaram aproximadamente 1000 cristãos e alguns portugueses, mas devido à região estar em estado de rebelião, a expedição não obteve os resultados esperados, e após dois meses decidiu abandonar a empreitada para não colocar em risco a vida do príncipe. Este, que fora batizado como Dom Afonso (Afonço), foi enviado a Goa, onde foi apresentado ao Vice-rei. O jovem príncipe foi educado em Goa no colégio de São Paulo e confiado às curas espirituais do padre Antonio Gomez.19 Subseqüentemente, em 1560, os portugueses tentaram conquistar Jaffna, com o príncipe de Trincomalee participando da expedição. Desta maneira, o vice-rei Dom Constantino de Braganza esperava que, uma vez conquistada Jaffna, o príncipe seria trazido de volta a Trincomalee, onde reassumiria seu reinado e auxiliaria os portugueses na conversão do povo local. Todavia, a expedição falhou e o príncipe nunca chegou a Trincomalee, tendo que retornar a Goa.20 Durante sua vida em Goa, ele se correspondeu com o rei de Portugal, Dom Sebastião. 21 m 1568 o príncipe participou como voluntário do cerco a Mangalore, quando morreu em combate.22

Trincomalee é mencionada algumas vezes nos anos seguintes: em 1555 um pedido dos cristãos de Trincomalee por religiosos chegou a Punnaikayal, na costa de Pescaria, mas não pode ser atendido devido ao número insuficiente de clérigos.23 Em 1560, o rei de Jaffna, tomado de pânico durante um ataque à sua capital, feito pelo vice-rei De Bragança, para escapar dos portugueses, procurou abrigo, juntamente com toda a família real, no território do vanniyar de Trincomalee.24 Em 1569, dois navios portugueses chegaram ao porto de Trincomalee para levar a princesa de Kandy, filha de Karaliyadde (Javira Astana), que tornou-se esposa do rei Dom João.25

Como vimos, apesar das tímidas tentativas para instalar uma feitoria levadas a cabo pelos portugueses entre os anos de 1543 e 1547, Trincomalee e a costa leste da ilha permaneceram livres dos assentamentos portugueses durante todo o século XVI. Entretanto, à mesma época, eles haviam estendido seu controle sobre a região costeira ao sudoeste da ilha. Praticamente até o final daquele século os portugueses tinham sob seu controle os territórios que anteriormente pertenciam aos reinos de Kotte e Sitawaka, além de controlarem a ilha de Mannar. Contudo, nas últimas décadas do século XVI, a influência do poder português já começava a ser notada. Começando por volta de 1570, os portugueses começaram a coletar tributos do vanniyar de Trincomalee e do de Batticaloa.26 Uma taxa de proteção também foi imposta ao templo hindu de Konesar (Koneswaram) em Trincomalee. Os portugueses passaram então a coletar taxas sobre alguns produtos que o reino de Kandy exportava através dos dois portos principais, Trincomalee e Batticaloa.27

Em 1582, por ocasião da conquista do reino de Kandy pelas tropas de Sitavaka, o rei de Kandy, Karalliyadde Bandara (Dom João), juntamente com alguns portugueses que o tinham apoiado, procurou refúgio em Trincomalee. Isto aconteceu logo após a derrota de suas tropas para as de Sitavaka, e foi justamente em Trincomalee que o rei veio a falecer devido a uma epidemia de varíola. Entre os portugueses que seguiram o rei Karalliyadde até Trincomalee estava frei André de Sousa.28 O rei do Ceilão, Dom João Párea Pandar (Dharmapala), também menciona em um certificado sobre o trabalho dos franciscanos na região de Kotte o nome do frei franciscano André de Sousa, o qual havia sacrificado sua vida em Trincomalee. Menção ao religioso também foi feita por Trinidade.29

Em 1602, a região compreendida entre Jaffna, Trincomalee e Batticaloa foi designada para as curas espirituais dos jesuítas; estes tiveram permissão de construir igrejas e converter os habitantes locais.30 Naquele mesmo ano foi dada a primeira ordem portuguesa para a construção de um forte em Trincomalee.31 Esta ordem deve ter sido com certeza a primeira reação portuguesa à chegada de uma expedição holandesa e ao subseqüente primeiro contato entre os holandeses e o rei de Kandy, que aconteceu em 1602 na região de Batticaloa. Além disso, outra motivação foi o fato de que, durante os períodos de guerra com os portugueses, Trincomalee foi utilizada como um dos portos através dos quais o rei de Kandy recebia provisões e tropas do Nayak de Madura e do rei de Meliapor.32

Entre os anos de 1605 e 1609, Dom Francisco de Menezes alcançou Trincomalee em duas oportunidades, durante expedições militares contra o rei de Kandy.33 Uma descrição mais detalhada de uma destas expedições chega até nós através do relatório anual dos jesuítas, em 1606. Na verdade, o relato é de uma expedição punitiva efetuada naquele ano contra os rebeldes. A mesma era composta por um esquadrão de soldados portugueses e de 4000 a 5000 lascarins cingaleses. A expedição atingiu ainda Trincomalee, onde foram capturados não mais de 200 homens, mulheres e crianças, os quais, por ordem de Simão Correa (um capitão cingalês), foram todos mortos. Por “compaixão”, todos foram batizados antes de morrer.34

Uma carta do frei jesuíta Barradas, escrita em Cochin em novembro de 1613, fala de uma bem sucedida expedição portuguesa a Trincomalee no ano de 1612. Esta era chefiada por Dom Hieronymo de Azevedo, que atravessou as montanhas de Kandya e, no caminho, encontrou dois grandes reservatórios de água. “ …nossos homens descobriram dois reservatórios extraordinários; eles tinham quatro léguas de comprimento, e eram feitos a partir de escavações na rocha e muros de pedra, com um acabamento espetacular que se poderia esperar dos romanos, mas não dos cingaleses”. Depois de grandes dificuldades devido à chuva torrencial, os portugueses conseguiram chegar a Trincomalee, e lá de Azevedo “mostrou interesse em construir um forte”, para isso procurando o auxílio do rei de Jaffna, mas não tendo conseguido, ele acabou abandonando a tentativa e seguiu em direção a Jaffna.35 Uma sucinta descrição deste empreendimento em Trincomalee também foi escrita por Bocarro; ele descreve que de Azevedo estava guerreando na região de Trincomalee quando recebeu a notícia de que havia sido nomeado Vice-rei.36 Outro texto, porém, narra os planos feitos por de Azevedo para as fortificações em Trincomalee e Batticaloa. Ele deixou o Ceilão em novembro de 1612, indo para Goa, com vistas a assumir o posto de Vice-rei. Seus planos eram enviar no ano seguinte seis navios com os materiais necessários para a construção das fortalezas em Trincomalee e Batticaloa. Além disso, ele planejava enviar dois outros navios para patrulhar a costa de Galle, ordenando a estes navios que passassem o inverno seguinte em Trincomalee para auxiliar na construção do forte.37 egundo de Azevedo, uma das maneiras mais eficientes de enfraquecer Kandy era exatamente estancar o comércio do reino, o qual acontecia através dos portos de Baticaloa, Trincomalee, Rio de Água Doce e Jaffna, mas momentaneamente (isto foi em 1614) ele não considerava os portugueses capazes de ocupar todos estes portos.38

Subseqüentemente, com o tratado de paz assinado entre o rei de Kandy e os portugueses em agosto de 1617, foram definidas também as fronteiras entre os dois territórios, assim como as fronteiras ao longo da costa leste da ilha, onde os dois principais portos (Kottiyar / Trincomalee e Batticaloa) permaneciam sob o controle do reino de Kandy. Na verdade, no tratado ficou indicado que o limite dos territórios pertencentes ao rei de Kandy alcançava os portos de Kottiyar, Batticaloa e Panamá.39

No ano de 1619, todo o território do reino de Jaffna, que incluía Trincomalee e Batticaloa, foi designado às curas espirituais dos franciscanos. Esta decisão foi tomada pelo bispo de Cochin, frei Dom Sebastião de São Pedro.40 Mais tarde, outro decreto do mesmo bispo, datado de 11 de novembro de 1622, seguindo aquele de 1602, confiava novamente aos jesuítas as curas espirituais nos distritos de Jaffna, Trincomalee e Batticaloa, permitindo-lhes construir igrejas, ensinar os sacramentos e converter almas.41 Os jesuítas seguiram os soldados portugueses a Trincomalee e Batticaloa quando as duas localidades foram tomadas.

Continua: A chegada dos dinamarqueses e holandeses, e a construção do Forte Português

Mapa de Trincomalee por Antonio Bocarro (1635). Livro das Plantas de todas as fortalezas, cidades e povoaçoens do Estado da Índia Oriental (1635)
Mapa de Trincomalee por Antonio Bocarro (1635). Livro das Plantas de todas as fortalezas, cidades e povoaçoens do Estado da Índia Oriental (1635)

NOTAS:

1 Nuno Alvarez Pereira era um soldado português que chegou a Kandy em julho de 1542, logo tornando-se conselheiro e secretário do rei Jayavira.

2 Uma fábrica fortificada.

3 Amaro Mendes havia sido designado feitor daquela feitoria.

4 Miguel Ferreira era o capitão português da costa de Coromandel; a vida deste importante personagem aparece no artigo escrito por J. M. Flores “Um Homem que Tem Muito Crédito Naquelas Partes: Miguel Ferreira, os Alevantados do Coromandel e o Estado da Índia”, em “Maré Liberum”, n° 5 / 1993, págs. 21–32.

5 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, págs. 81–82.

6 Queyroz “The temporal and spiritual…”, vol. I, págs. 236-237.

7 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, pág. 62.

8 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, págs. 71-72.

O tributo prometido pelo rei de Kandy era: quinze elefantes com presas e trezentos remos de faia para as galeras.” Ver Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, págs. 86-87.

9 O reino de Kandy havia sido atacado em novembro de 1545 pelas forças do reino de Sitawaka, e necessitava urgentemente de ajuda.

10Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, págs. 162, 177.

11 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, págs. 160-161.

12Para chegar a Kandy, freqüentemente era utilizada a estrada que começava em Batticaloa.

13Miguel Fernandes era um “casado” (soldado casado) português de Kotte.

14 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, pág. 177.

Jayavira foi batizado em segredo por Frei Francisco di Monteprandone no dia 9 de março de 1546.

15 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, pág. 154.

16Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, pág. 216.

17 Para detalhes sobre esta expedição, ver; O. M. da Silva “Vikrama Bahu of Kandy. The Portuguese and the Franciscans, 1542-1551”, págs. 63-76.

18 A costa indiana na região de Tuticorin.

19 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, págs. 286-288.

20 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, págs. 372, 374, 382.

21 Ver carta de resposta do rei Sebastião, datada de 7 de março de 1567 e publicada em Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. II, pág. 23.

22Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, pág. 382 nota n°1 e vol. II, pág. 23 n.1.

23Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. I, pág. 346.

24 “History of Sri Lanka”, vol. II, pág. 110.

25 Queyroz, “The temporal and spiritual…”, vol. II, pág. 423.

26 “History of Sri Lanka”, vol. II, pág. 92.

27 “History of Sri Lanka”, vol. II, pág. 112.

28 F. F. Lopes “A Evangelização do Ceilão de 1552 a 1602”, em “Studia” n° 20-22 / 1967, págs. 30-31; “History of Sri Lanka”, vol. II, pág. 96.

29 O certificado é datado de 1° de dezembro de 1594. Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. II, pág. 137; Trinidade “Conquista Espiritual do Oriente”, vol. III, págs. 56, 68.

30 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. II, pág. 266.

31 Silva, Ch. R. de “The Portuguese in Ceylon, 1617-1638”, pág. 59, n. 149.

32 Abeyasinghe “Portuguese rule in Ceylon, 1594-1612”, pág. 36.

33 Queyroz, “The temporal and spiritual…”, vol. II, pág. 611.

34 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. II, pág. 256.

35 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. II, pág. 366.

36 Bocarro “Década 13 da História da Índia”, vol. I, pág. 11.

37 “Relacion del estado en que quedavam las cosas de la India, sacada de las cartas, que escrivio el virrey Dom Hieronymo de Azevedo…”, publicado em: “Documentação Ultramarina Portuguesa”, vol. I, pág. 73 e vol. II, pág. 157.

38 Bocarro “Década 13 da História da Índia”, vol. I, pág. 277.

39 “History of Sri Lanka”, vol. II, pág. 154 e também Silva, Ch. R. de “The Portuguese in Ceylon, 1617-1638”, pág. 59.

40 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. II, pág. 458.

41 Perniola “The Catholic church in Sri Lanka. The Portuguese period”, vol. III, pág. 51.

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Ásia Colonialismo português Língua Portuguesa

A Herança da Língua Portuguesa no Oriente (Ásia)

Escrito por Marco Ramerini. Tradução feita por Márcia Siqueira de Carvalho. Revisão do texto traduzido por Dietrich Köster.

A língua portuguesa foi nos séculos XVI, XVII e XVIII a língua dos negócios nas costas do Oceano Índico em função da expansão colonial e comercial portuguesa. O português foi usado, naquela época, não somente nas cidades asiáticas conquistadas pelos portugueses, mas também por muitos governantes locais nos seus contatos com outros estrangeiros poderosos (holandeses, ingleses, dinamarqueses, etc).

No Ceilão, por exemplo, o português foi usado para todos os contatos entre os europeus e a população nativa; vários reis do Ceilão falavam fluentemente esta língua e nomes portugueses eram comuns na nobreza. Quando os holandeses ocuparam a costa do Ceilão, principalmente sob as ordens de van Goens, eles tomaram medidas para parar o uso da língua portuguesa. Porém, ele estava tão entranhado entre os habitantes do Ceilão que até mesmo as famílias dos burgueses holandeses começaram a usar a língua portuguesa. Em 1704, o governador Cornelius Jan Simonsz falava que : “se você fala português no Ceilão, você é entendido em todo lugar”.

Também na cidade de Batávia, capital das Índias Orientais Neerlandesas (atual Jakarta), o português foi a língua falada nos séculos XVII e XVIII. As missões religiosas contribuíram para esta grande expansão da língua portuguesa. Isto porque desde que as comunidades se convertiam ao catolicismo, elas adotavam o português como língua materna. Também as missões protestantes (holandeses, dinamarqueses, ingleses …) que trabalharam na Índia foram forçadas a usar o português como a língua de evangelização.

A língua portuguesa também influenciou várias línguas orientais. Muitas palavras portuguesas foram incorporadas por vários idiomas orientais, como os da Índia, o suaíli, malaio, indonésio, bengali, japonês, os vários do Ceilão, o tétum de Timor, o africâner da África do Sul etc.

Além disso, onde a presença portuguesa era preponderante ou mais duradoura, cresceram as comunidades de “casados” e “mestiços” que adotaram uma variedade de língua mãe: uma espécie de crioulo português.

O que restou hoje é muito pouco. Entretanto é interessante notar que, neste sentido, existem pequenas comunidades de pessoas espalhadas por toda a Ásia que continuam a usar o “crioulo” português, embora não tenham mais contatos com Portugal, em alguns casos, durante séculos. Outro aspecto interessante é que durante o período mais importante da presença portuguesa na Ásia, não havia mais do que 12.000 a 14.000 portugueses, incluindo os religiosos.

Comunidades de língua português na Ásia (Azul: lugares atuais onde o Português é falado. Vermelho: lugares onde as comunidades  falaram, no passado, Português). Autor Marco Ramerini
Comunidades de língua português na Ásia (Azul: lugares atuais onde o Português é falado. Vermelho: lugares onde as comunidades falaram, no passado, Português). Autor Marco Ramerini

AS COMUNIDADES QUE FALAM PORTUGUÊS ATUALMENTE:

Malaca, Malásia: Cerca de 1.000 pessoas falam esta espécie de “crioulo” (Papia Kristang). Cerca de 80 % dos antigos habitantes da colónia portuguesa em Malacca falava Papia Kristang, que também é falado atualmente em Singapura e Kuala Lumpur. Kristang é muito parecido com o malaio local na sua estrutura gramatical, mas 95% do seu vocabulário deriva do português. Não muito tempo atrás o português também era falado em Pulau Tikus (Penang), mas agora é considerado extinto. A comunidade eurasiana tem 12.000 membros na Península Malaia. Activo é MPEA (Malacca Portuguese Eurasian Association) e SPEMA (Secretariat of the Portuguese/Eurasian Malaysian Associations) com 7 associações dos seus membros em Alor Star, Penang, Perak, Malacca (MPEA), Kuala Lumpur, Seremban e Johor Baru. Ha também em Singapura uma associaçao eurasiática. Malaca se separou do domínio português em 1641.

Korlai, Índia: (perto de Chaul). Cerca de 900 pessoas falam o crioulo português e esta comunidade tem a sua igreja chamada: “Igreja de Nossa Senhora do Monte Carmelo” Chaul se separou do domínio português em 1740.

Damão, Índia: (Damão Grande ou Praça, Campo dos Remédios, Jumprim, Damão da Cima). Cerca de 2000 pessoas falam esta espécie de crioulo português. Damão se separou do domínio português em Dezembro de 1961.

Ceilão (Sri Lanka): [Burgueses Portugueses em Batticaloa (Koolavaddy, Mamangam, Uppodai, Dutch Bar, Akkaraipattu); Trincomalee (Palayuttu); comunidades Kaffir de Mannar e Puttalam ]. Foi apenas usado entre as 250 famílias em suas casas em Batticaloa até 1984. Muitos emigraram para a Austrália. Ainda há 100 famílias em Batticaloa e Trincomalee e cerca de 80 famílias afro-singhalesas (Kaffir) em Puttalam. Quase extinta. Em Batticaloa existe o Clube de Recreio “Shamrock” e a “Batticaloa Catholic Burgher Union”. Há uma pequena comunidade de descendentes portugueses na aldeia de Waha Kotte (circa 7°42’N. – 80°36’E) (Centro do Sri Lanka, seis quilómetros de Galewala, estrada entre Galewala e Matale), eles são católicos romanos, mas desde cerca de duas gerações o crioulo português não é mais falado. Ceilão se separou do domínio português em 1658.

Macau: Cerca de 2.000 pessoas falam o português como sua primeira língua e perto de 11.500 como sua segunda língua. Apenas poucas mulheres idosas falam o macaense, um crioulo português de Macau. O “Instituto Cultural de Macau” e a “Fundação do Oriente” estão funcionando. Existe também um canal de TV e vários jornais voltados inteiramente para o português. Em 20 de Dezembro de 1999 Macau voltou a fazer parte da China.

Hong Kong: Centenas de pessoas falam o macaense. Quase todas são emigrantes de Macau. Nunca foi colónia portuguesa.

Goa, Índia: O idioma português está desaparecendo rapidamente de Goa. Atualmente ele é falado por um pequeno setor das famílias mais abastadas. Apenas 3 a 5 % da população continua falando-o (estima-se de 30.000 a 50.000 pessoas). Atualmente 35% da população de Goa são imigrantes de outros estados indianos. Nas escolas da Índia ele é ensinado como terceira língua (não obrigatória). Existe um Departamento de Português na Universidade de Goa e a “Fundação do Oriente” e a Sociedade de Amizade Indo-Portuguesa estão em funcionamento. O último jornal em língua portuguesa foi publicado na década de 1980. Em Panaji muitos cartazes em português ainda são visíveis em lojas, edifícios públicos etc. Goa se separou do domínio português em Dezembro de 1961.

Diu, Índia: Aqui o idioma crioulo português está quase extinto. Diu se separou do domínio português em Dezembro de 1961.

Timor-Leste: Os que falavam o português em 1950 não ultrapassavam 10.000 pessoas e em 1974 apenas 10% a 20% da população. Em 1975 Timor-Leste tinha 700.000 habitantes, dos quais 35 a 70.000 sabiam ler e escrever em português e 100 a 140.000 podiam falar e entender esta língua. Até 1981, o português foi a língua da Igreja Católica de Timor, quando foi substituído pelo tétum. Entretanto ele é comumente usado como idioma de negócios na cidade de Dili. O português permaneceu como a língua da resistência anti-Indonésia e de comunicação externa da Igreja Católica. O português crioulo de Timor (português de Bidau) hoje está praticamente extinto. Ele é falado a Dili, Lifau e Bidau. Indonésia invadiu o Timor-Leste em 1975. Entretanto, nenhuma nação reconheceu esta anexação militar. Timor-Leste tornou-se um estado independente a 20 de Maio de 2002. As línguas oficiais de Timor-Leste são o português e o tétum.

Flores, Indonésia: (Larantuka, Sikka) Aqui o português sobrevive nas tradições religiosas e na comunidade Topasse (os descendentes dos homens portugueses com as mulheres nativas) utilizam-no nas suas preces. Aos sábados, as mulheres de Larantuka rezam o rosário numa forma corrompida de português. Na área de Sikka, no Leste de Flores, muitas pessoas são descendentes de portugueses e ainda (???) usam esta língua. Existe uma Confraria chamada “Reinja Rosari”. Portugal retirou-se em 1859.

ATÉ POUCOS ANOS ATRÁS, COMUNIDADES QUE FALAVAM O PORTUGUÊS EXISTIAM EM:

Ceilão (Sri Lanka): (O crioulo português era falado pela comunidade burguesa holandesa.) Até o início do século XX, o crioulo português era falado pelos membros desta comunidade. Até depois da Segunda Guerra Mundial, os católicos do Sri Lanka, em Colombo se reuniam nas missas faladas em português (como a Igreja de Santo António em Dematagoda). Após a segunda metade deste século, uma parte destes católicos tão velhos começaram a frequentar missas em grupos cada vez menores nas igrejas católicas nas cidades de Dematagoda, Hulftsdorp, Kotahena, Kotte, Nugegoda e Wellawatte. Embora era uma língua falada, o português estava perdendo rapidamente a sua importância original nos serviços religiosos nas igrejas católicas, sendo substituído pelo inglês mais moderno e mais procurado.

Jakarta-Batavia-Tugu, Indonésia: (um subúrbio de Jakarta). Aqui, até o início do século XX uma espécie de português corrompido ainda era falado pela população cristã em Tugu. O último habitante que falava crioulo morreu em 1978. Nunca esteve sob domínio de Portugal.

Cochim, Índia: (Vypeen). Desapareceu nos últimos 20 anos. A comunidade portuguesa/hindu (2.000 pessoas) frequenta a antiga Igreja de Nossa Senhora da Esperança. Portugal retirou-se de Cochim em 1663.

Bombaim ou Província do Norte, Índia: Baçaim, Salsette, Thana, Chevai, Mahim, Tecelaria, Dadar, Parel, Cavel, Bandora-Badra, Govai, Morol, Andheri, Versova, Malvan, Manori, Mazagão. Em 1906 este crioulo foi, depois do Ceilão, o dialeto indo-português mais importante. Em 1906 ainda existiam perto de 5.000 pessoas que falavam o crioulo português como língua materna e 2.000 estavam em Bombaim e Mahim, 1.000 estavam em Bandora, 500 em Thana, 100 em Curla, 50 em Baçaim e 1.000 em outras vilas. Não existiam naquela época escolas em crioulo português e as classes mais ricas substituiram-no pelo inglês. (Costa, Dalgado).

Coromandel, Índia: (Meliapore, Madras, Tuticorin, Cuddalore, Karikal, Pondicherry, Tranquebar, Manapar, Negapatam…..) Na costa de Coromandel, os descendentes dos portugueses são geralmente conhecidos como “topasses”, eram católicos e falavam o crioulo português. Com a chegada do domínio britânico na Índia eles começaram a falar a língua inglesa em lugar do português e também anglicizaram seus nomes. Atualmente fazem parte da comunidade aurasiana. Em Negapatão em 1883 ainda existiam 20 famílias que falavam o indo-português. (Schuchardt, Dalgado)

DESAPARECEU JÁ HÁ MUITOS ANOS:

Solor & Adonara, Indonésia: Solor, Adonara (Vure)

Ilha de Java -Batávia, Indonésia: (comunidade holandesa de Batávia, Mardijkers) Os Mardijkers são os descendentes dos antigos escravos de Malacca, Bengala, Coromandel, Malabar, que foram convertidos ao Protestantismo quando libertados. Eles falavam uma espécie de crioulo português e eram o ramo principal da comunidade portuguesa de Batávia. Depois da conquista holandesa de Malaca e do Ceilão eles cresceram consideravelmente. Em 1673 foi construída uma igreja protestante para a comunidade portuguesa de Batávia e depois no século XVII uma segunda igreja foi construída. Em 1713 esta comunidade tinha cerca de 4.000 membros. < Lopes > Até 1750 o português foi a primeira língua de Batávia, porém, depois o malaio passou a dominar. Em 1808 o reverendo Engelbrecht celebrou a última missa em português. Em 1816 a comunidade portuguesa foi incorporada na comunidade malaia. Também entre as famílias holandesas de Batávia a língua portuguesa foi intensamente usada até 1750, apesar dos esforços do Governo Holandês contra o seu uso.

Mangalore, Índia: Mangalore.

Cannanore, Índia: Cannanore.

Bengala, Índia-Bangladesh: (Balasore, Pipli, Chandernagore, Chittagong, Midnapore, Hugli……) A língua portuguesa foi, nos séculos XVII e XVIII, a “lingua franca” em Bengala. Depois de 1811, o português era usado em todas as igrejas cristãs (católicas e protestantes) de Calcutá. No início do século XX, apenas umas poucas famílias falavam uma forma corrompida de português misturada com muitas palavras da língua inglesa. (Campos)

Moluccas, Indonésia: (Ternate, Ambon, Banda, Makasar) Ternateno, um crioulo português que foi falado nas ilhas de Ternate e West Halmahera, atualmente está extinto. Ambon, aqui o português sobrevive na língua actualmente falada: o Malayu-Ambom, o que contém cerca de 350 termos de origem portuguesa.

Nas costas da Índia existiam cerca de 44 comunidades, onde o português era falado.

BIBLIOGRAFIA:

– Abdurachman, Paramita Rahayu “Some Portuguese loanwords in the vocabulary of speakers of Ambonese Malay in Christian villages of Central Moluccas”, 17 pp., LIPI, 1972, Jacarta, Indonésia.

– Clancy, Clements “The genesis of a language: the formation and development of Korlai Portuguese” XII, 281 pp. maps, Creole language library vol.16, Benjamins, 1996, Amesterdão e Filadélfia .

– Dalgado, S. R. “Estudos sobre os Crioulos Indo-Portugueses” 187 pp., Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1998, Lisboa, Portugal. Dialecto Indo-Português de Goa; Dialecto Indo-Português de Damão; Dialecto Indo-Português do Norte; Dialecto Indo-Português de Negapatão; Berço duma cantiga em Indo-Português-. The latest edition of the interesting study of Sebastião Rodolfo Delgado on the Creole languages of Goa, Damão, Negapatão and the Northern Province of India.

– Dalgado, Sebastião Rudolfo “Dialecto Indo-Português de Ceilão” 301p. (Cadernos Ásia) CNCDP, 1998, Lisboa, Portugal.

– Daus, Ronald “Portuguese Eurasian communities in Southeast Asia” 83 pp. Institute of Southeast Asian Studies, 1989, Singapura. The Portuguese Eurasian communities in Malacca, Tugu, Larantuka and Singapore.

– Goonatilleka, M.H. “A Portuguese Creole in Sri Lanka: A Brief Socio-Linguistic Survey”, in: SOUZA, Teotónio R. de (ed.) “Indo-Portuguese History. Old Issues, New Questions (3rd ISIPH)”, pp. 147-180 Concept, 1985, Nova Deli, Índia.

– Hettiarachchi, A. S. “Influence of Portuguese on the Singhalese Language”, JCBRAS Vol. IX, 1965, pp. 229-238

– Jackson, Kenneth David “Sing without a shame: oral traditions in Indo-Portuguese creole verse: with transcription and analysis of a nineteenth-century manuscript of Ceylon Portuguese Creole”, XXVII, 257 pp., Creole Language Library, Benjamins, 1990, Amesterdão e Filadélfia.

– Lopes, David “A Expansão da Língua Portuguesa no Oriente durante os Séculos XVI, XVII e XVIII”, 265 pp. Portucalense Editora, 1969, Porto, Portugal.

– Matos, Luís de “O português, língua franca no Oriente” In: “Colóquios sobre as províncias do Oriente” Vol. 2, Junta de Investigações do Ultramar, 1968, Lisboa. – pp. 11-23 (Estudos de Ciências Políticas e Sociais ; 81)

– Silva Jayasuriya, Shihan da, “Indo-Portuguese of Ceylon: a contact language”, 188 pp., Athena Publications, 2001, Londres, Reino Unido

– Silva Rego, Padre António da “Dialecto Português de Malaca e outros escritos” 304 pp. (Cadernos Ásia) CNCDP, 1998, Lisboa, Portugal. Dialecto Português de Malaca; A Comunidade Luso-Malaia de Malaca e Singapura; A cultura portuguesa na Malaia e em Singapura.

– Teixeira, Pe. Manuel “The Influence of Portuguese on the Malay Language” In: “Journal of the Malayan Branch of the Royal Asiatic Society”, 1962, vol. XXXV (Pt. 1).

– Theban, Laurentiu “Situação e perspectivas do português e dos crioulos de origem portuguesa na Índia e no Sri-Lanka” In: “Actas do Congresso sobre a situação da língua portuguesa no Mundo” vol. 1, pp. 269-285, Imprensa Nacional, 1985, Lisboa, Portugal.

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Colonialismo português Indonesia Molucas

O forte português de Ternate

Escrito por Marco Ramerini

O forte Português de Ternate foi fundado por António de Brito, em 1522, a pedra fundamental da fortaleza foi posta para a festa de São João Batista, 24 de junho de 1522, o forte foi chamado de “São João Baptista de Ternate“. A parede exterior da fortaleza continha um espaço de 26 ou 27 braças (Português) quadrados, a muralha do forte medida 1 braço de espessura, ea torre da fortaleza medida 5 braças ou 40 palmas e era um prédio de dois andares. 1 A fortaleza foi construída pelo Português, onde era a principal cidade do Sultanato de Ternate (Sudoeste da ilha), uma liga do porto principal da ilha, chamado Talangame, onde os navios estavam ancorados. 2

Esta é a descrição da construção do forte feita por Gaspar Correia: …mandou o capitão abrir os alicerces, e elle com toda a gente, sendo dia do bemauenturado são João Bautista, vinte e cinco (O dia é o 24 de junho) dias de julho de 522, foi dita sua missa solene, festejada com muita artilharia dos navios,...” “E foi a primeira huma torre quadrada afastada do mar um jogo de bola, e de ahy correo o muro atrauessando pera a terra espaço de trinta braças, de onde tornou a voltar, fazendo quadra, outras trinta braças, em que se fez outra tal torre, e de ahy voltou à praia, onde fez outro canto, e correu o muro ao longo da praia a çarrar (=encerrar) na primeyra torre, junto da qual fiqou a porta de longo da praia, com sua gorita (=guarita). Assy (=assim) que a obra se foy fazendo com estas duas torres sómente, que depois nas quinas das quadras se fizeram outras taes torres, e no meo (=meio) se fez a torre da menagem grande, e no primeiro sobrado varandas para todas partes, e no sobrado de cyma suas guaritas, e fortemente madeirado, d’onde podiam tirar falcões;… 3

Em 1526, três anos após a construção começou, quando Antonio de Brito deu o comando da fortaleza de Ternate para Henriques Garcia, as obras da fortaleza estavam longe de ser completas, Castanheda nos informa que no lado que olhou para o mar o muro não foi terminado ainda, enquanto que no lado que dava a montanha apenas dois bastiões foram construídos, um de apenas 2 braços de altura eo outro “não tinha feyto mais q os aliceces“, a torre “da managê” foi elevada “xl palmos cõ dous sobrados, & do derradeyro ate ho telhado sem paredes se não cõ caniçadas de canas fédidas forradas desteiras, & disto erão feytos os repartimétos das camaras“, também do mesmo material foram feitas as paredes Feitoria, onde, devido a obras inacabadas podiam se movimentar livremente os porcos e cabras. 4

Em 1537, na época do Governador Português Antonio Galvão, a cidade de Ternate tinha uma população de 123 Português que somados às suas esposas, seus filhos, os escravos e servos, chegou a um total de 1.600 pessoas. 5 Antes do forte Português foi um recife de coral que fazia difícil o acesso aos navios, este recife de coral teve três passos: o primeiro foi chamado de “Lymatao” e foi localizado no extremo sul da cidade “dos mouros”, o canal central foi chamado da “barra d’arvore” porque foi localizado em frente de um alto árvore, o último canal chamado “barra da Nossa Senhora” foi localizado no extremo leste da cidade Portuguesa, cerca de 200 braças (cerca de 440 m.) do forte, em frente à capela dedicada a “Samta Maria“. Durante o governo de Antonio Galvão, os canais central e sul foram fechados com pedras, e foi feito mais navegável a “barra de Nossa Senhora“, que foi feita dois braços (4,40 m.) de profundidade. 6

Em 1537, Galvão começou a construção, ao redor da cidade Portuguesa, de muros, paredes de barro, fossos e muralhas. A Feitoria foi cercada por paredes de barro, e no interior também foram construídos alguns armazéns para armazenar o cravo. Foi fundada a “Casa da Misericórdia“, um moinho de água, que recebeu água de três léguas de distância (entre 12 km e 18 km) através de tubos. Finalmente foi feito um débil tentativo de cultivar arroz, vegetais e cereais, na área ao redor da cidade, também foi iniciada a criação e, finalmente, fundou uma pequena escola para os filhos de pessoas importantes e os portugueses. 7

Outra descrição interessante do Forte Português e da cidade, nos é dado por o “Livro das cidades e fortalezas que a coroa de Portugal tem nas partes da India …” escrito em 1582 a fortaleza foi situada a sul da cidade do sultão, junto ao mar, a um “tiro de espera” da cidade “dos Mouros“, a conformação do terreno entre a fortaleza ea cidade indígena impediu a visão entre os dois. Para o sul da fortaleza estava desenvolvendo uma cidade bastante grande habitada por portugueses casados ​​e cristãos indígenas, este foi cercada por um muro de “de taipa muito forte“. O porto em frente ao castelo é descrito como um porto pobre, porque a barreira de rochas e corais impede aos barcos maiores (“que demandem mais altura que duas braças de agoa“) o passagem. Entre as montanhas da ilha e a fortaleza, em um “outeiro alto“, os Portugueses tinham construído um baluarte onde tinham colocado algumas peças de artilharia. 8

NOTAS:

1 Jacobs, H. “A treatise on the Moluccas (c. 1544)” p. 211

2 Jacobs, H. “A treatise on the Moluccas (c. 1544)” p. 235

3 Gaspar Correia “Lendas da India”, vol. II pp. 714-715

4 Fernão Lopes de Castanheda “História do descobrimento e conquista da Índia pelos portugueses” Livro VI, cap. 128, pp. 358-359. Ver também: Gaspar Correa “Lendas da India” vol. II p. 996

5 Jacobs, H. “A treatise on the Moluccas (c. 1544)” p. 287

6 Jacobs, H. “A treatise on the Moluccas (c. 1544)” p. 289-291

7 Jacobs, H. “A treatise on the Moluccas (c. 1544)” p. 293-299)

8 “Livro das cidades e fortalezas que a coroa de Portugal tem nas partes da India …” foglio 64v. Este “outeiro alto” poderia ser o mesmo lugar onde os espanhóis construíram a fortaleza Fuerza Nueva.

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Brasil Colonos Alemães

Alemães no Brasil. 1824-2024: 200 Anos de Migração Alemã para o Brasil

Escrito por Dietrich Köster

O sul do Brasil actual (os Estados do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná) era uma zona em litígio durante o século XVIII entre as duas potências coloniais: a Espanha e Portugal. Em 1778 foi estabelecido um acordo entre estas nações resultando numa atribuição da costa do Golfo da Guiné, incluindo as ilhas de Fernão do Pó e Ano Bom, aos espanhóis. Em contrapartida, os espanhóis desistiram das reivindicações do sul do Brasil actual.

Esta área era pouco povoada. Por esta razão o perigo de ocupação estrangeira subsistiu mesmo após a independência da Argentina libertada do domínio colonial espanhol. A ameaça continuou também após a independência do Brasil, quando o príncipe herdeiro português se proclamou como Dom Pedro I Imperador do Brasil. A sua consorte a Imperatriz Dona Leopoldina – filha do Imperador Francisco II da Áustria – promoveu energicamente a emigração de gente dos vários territórios de língua alemã da Europa Central. Esta emigração, que se dirigia a partir do 25 de Julho de 1824 ao sul do Brasil, era uma contribuição importante para a defesa e o fortalecimento das fronteiras meridionais do Império do Brasil.

Neste ano de 2024 comemora-se o bicentenário da imigração alemã para o Brasil. A história dos colonos de língua alemã começou assim:

O primeiro grupo de colonos veio da região das montanhas da Renânia Hunsrueck fundando São Leopoldo em 1824. Desbravou a floresta virgem criando roças de tamanho médio (70 hectares) sem empregar escravos como mão-de-obra.

Com a ajuda de artesãos imigrados neste Vale dos Sinos desenvolveu-se Novo Hamburgo num centro da indústria de calçado, que é hoje a mais importante em todo o Brasil.
A história da colonização alemã no Estado do Rio Grande do Sul é documentada no Parque do Imigrante em Nova Petrópolis, um município com teuto-brasileiros a 90%. Em São Leopoldo o Museu dos Imigrantes fica a cargo do Professor Telmo Lauro Müller.

Nos meados do século XIX a povoação de Blumenau foi fundada pelo Doutor Blumenau, originário do então ducado de Brunsvique. Pomeranos estabeleceram-se na localidade de Pomerode, uma denotação, que indica que gente desta terra alemã (Pomerânia) desbravou a selva. Hoje em dia é conhecida como a cidade mais alemã do Brasil.
A cidade de Blumenau evoluiu no primeiro centro de indústria têxtil de toda a América Latina com a empresa Hering como a firma mais importante.
Os descendentes dos imigrantes alemães desta cidade festejam, desde vários anos, uma festa da cerveja Oktoberfest (Festa de Outubro) segundo o modelo de Munique, capital da Baviera.

Em 1843 foi fundada a cidade de Petrópolis como residência de verão imperial com o apoio do engenheiro alemão Köhler. Em 1845 chegaram os primeiros colonos alemães. Os nomes dos diferentes bairros de Petrópolis lembram as regiões e localidades de onde vieram os habitantes: Renânia, Mosela, Simméria/Simmern, Castelânea/Kastellaun, Bingen, Ingelheim, Darmstadt.

O regulamento von der Heydtsches Reskript, que indicava abusos na vida laboral do Brasil, conduzia a uma diminuição temporária da cifra de imigrantes da Prússia, o Estado maior da Alemanha na altura.

Para a primeira geração de colonos a vida era muito dura. Tudo dependia da própria iniciativa dos indivíduos e da comunidade dos emigrantes. O Estado brasileiro não cuidava de nada. Era por necessidade, que os colonos criaram as suas próprias escolas e instituições culturais. A língua portuguesa tinha ainda um papel pouco importante, porque os colonos ficaram bastante isolados do resto do Brasil.

Enquanto que nos anos 20 do século XX existia uma pequena onda de emigração alemã não somente para o sul do país, mas também para as grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro os anos 30 viram sobretudo uma entrada de judeus perseguidos pelo regime nacional-socialista da Alemanha e Áustria.
Foi assim que a cidade de Rolândia no Estado do Paraná foi fundada por judeus alemães nesta altura.

Com a Presidência de Getúlio Vargas (1930-45) o sistema escolar privado dos colonos alemães devia-se mudar sob a pressão da política de nacionalização para escolas públicas de orientação brasileira nacional.

Em 1940 aconteceu com a ocupação militar da França pela Alemanha nazista algo muito extraordinário:
Milhares de pessoas perseguidas pelo nazismo pediram um visto de entrada em Portugal no Consulado de Portugal em Bordéus no sudoeste da França. Foram o cônsul Aristides de Sousa Mendes e os seus colaboradores, que emitiram 30.000 vistos sem autorização do então Presidente do Conselho de Ministros, acumulando na altura a pasta de Ministro dos Negócios Estrangeiros António de Oliveira Salazar. Com estes vistos os perseguidos podiam refugiar-se para o Ultramar a partir de Lisboa. Uma boa parte tinha a oportunidade de emigrar para o Brasil, país que tinha em 1940 ainda o estado de potência neutra. Milhares de vidas foram assim salvas.

Uma exposição homenageando o ex-cônsul português foi inaugurada a 21 de Setembro de 2004 e foi acessível até o dia 23 de Outubro deste ano, na Biblioteca Nacional em Lisboa.

Durante a Segunda Guerra Mundial – o Brasil enviou como único país ibero-americano um corpo expedicionário ao teatro da guerra na Europa (Itália) – era proibido no Brasil falar o alemão em público.
Após o fim das hostilidades, a situação desanuviou-se e uma nova onda de migração alemã, ainda que fosse pequena, dirigiu-se para o Brasil, esta vez pessoas perseguidas pelos nazistas e antigos nazistas receando agora uma punição por causa de crimes de guerra.
Além disso, dois grupos são a distinguir:
Os mennonitas (provenientes da Rússia) e os suevos do Danúbio (Donauschwaben), que se refugiaram da antiga Iugoslávia em 1945. Uns e outros estabeleceram povoações próprias no Estado do Paraná na intenção de praticar a agricultura. Esta actividade tornou-se entretanto num grande sucesso e modelo para os outros paranaenses.

Por outro lado, começou já nos anos 30, uma migração de pessoal qualificado da Alemanha ajudando a constituição da indústria brasileira, sobretudo no sul e sudeste do Brasil. Hoje em dia, a região de São Paulo é a parte mais industrializada do Brasil e o local onde a economia alemã continua a investir mais que em qualquer outra parte do mundo.

Segundo as estimativas partiram 250.000 emigrantes alemães durante os últimos 200 anos, com uma descendência actual de 5 milhões de brasileiros de origem alemã. Mas é de notar que nem todos são fluentes na língua alemã.

Copyright junho de 2024 por Dietrich Köster, D-53113 Bona

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África Colonialismo português São Tomé e Príncipe

São Tomé e Príncipe, as Ilhas de Plantações lusófonas no Golfo da Guiné: Situação em 1990 e Perspectivas de Desenvolvimento

Escrito por Dietrich Köster

As ilhas de São Tomé e Príncipe situam-se no Golfo da Guiné, imediatamente ao norte do Equador. Pode-se chegar por via aérea a este arquipélago a partir de Lisboa, Libreville (Gabão) e Luanda. O acesso mais cómodo a São Tomé é pela Companhia Aérea belga SABENA, a partir de Bruxelas para Libreville, e voando depois numa avioneta da Companhia Equatorial para a cidade de São Tomé.

A ilha principal, São Tomé, fica a 280 km a oeste de Libreville e a menor, Príncipe, situa-se aproximadamente a 140 km a nordeste da ilha principal. As duas ilhas juntas constituem uma superfície de 1001 km² e têm uma população de 114000, a maioria dos quais negros, cujos antepassados para aqui foram levados como escravos pelos portugueses. Há aproximadamente 15% de mulatos de Cabo Verde e um grupo restante de portugueses. Um meio milénio de domínio colonial português marcou as duas ilhas e a sua população.

Depois da saída do avião, o viajante enche-se de ar quente e húmido. Alta humidade atmosférica e temperaturas, que quase nunca descem abaixo dos 25° na costa caracterizam o clima. O verde exuberante da vegetação e o mau estado de conservação arquitectónica das casas e ruas são as primeiras impressões que saltam à vista. É evidente que não foram tomadas medidas de manutenção após a independência. Assim a circulação nas ruas e estradas torna-se numa digressão em ziguezague.

A maior cidade e capital do arquipélago é São Tomé com 20.000 habitantes. É de notar que a vista da cidade é pejada fortemente pelos militares e polícias. Não se trata somente de soldados locais mas também de um contingente angolano de mil homens.

O Palácio Presidencial, que não deve ser fotografado, possui uma equipa de sentinelas equipada com farda de camuflagem que apresenta a baioneta. Antes do render da guarda, ouve-se um sinal de trompete que obriga todos os transeuntes a ficarem parados. A mesma atenção compete às testemunhas oculares da fila de viaturas do Presidente da República, passando pelas ruas. Este Presidente não tem somente um cordão de dois lados de seu recinto, mas faz celebrar um culto pessoal de si mesmo. Desta maneira, o retrato do Presidente Pinto da Costa encontra-se pendurado em muitas lojas.

O estado de abastecimento da população deixa a desejar. É verdade que o mercado da capital oferece produtos agrícolas locais, mas o comércio a retalho tem somente poucos produtos de procura elevada ao dispor da clientela. Apenas na Loja Franca – equivalente ao Intershop na RDA – se pode adquirir objectos de qualidade, pagando em dólares norte-americanos.

Um outro oásis da oferta de produtos do mundo ocidental constitui o único hotel de quatro estrelas, Miramar. Pertence a uma cadeia hoteleira suíça e é chefiado por um suíço, o Sr. Furrer. Também aqui o serviço de pagamentos efectua-se apenas em moeda convertível. Para garantir o alto nível do hotel muitas mercadorias são importadas da República da África do Sul e da Namíbia. Este hotel, que oferece muito aos seus hóspedes, funciona ao mesmo tempo como centro de informação turística. Assim, são oferecidas várias voltas da ilha e, em colaboração com Equatorial, excursões aéreas para Príncipe. O Hotel Miramar é frequentado por hóspedes ricos de Libreville e é o ponto de encontro dos cooperantes da União Soviética, de Cuba, da RDA, Suíça, França, Itália, dos Países Baixos, de Portugal e da Espanha. As Nações Unidas disponibilizam também cooperantes através do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O centro de actividades situa-se nos ramos da educação, formação profissional, na melhoria da situação sanitária e na diversificação da agricultura. É a RDA que treina desta maneira, por meio duma Brigada de Amizade da Juventude Comunista Alemã (FDJ), pedreiras e pedreiros.

O objectivo do Governo é uma maior diversificação da gama de oferta agrícola. Quer-se sair da monocultura do cacau. Presentemente as plantações de cacau rendem ainda 90% do valor de exportação . Além disso, há pequenas quantidades de copra, café e óleo de palma destinadas à exportação. A produção de cacau tem descido fortemente devido à fuga dos especialistas portugueses no ano de 1975. A nacionalização das plantações – chamadas roças – não melhorou o rendimento. Há poucos anos que o Governo se esforça com um programa de reestruturação no sentido de conceder mais possibilidades de desenvolvimento à iniciativa privada. Entretanto há algumas roças com directoria privada. Uma parte das lojas tem novamente um homem de negócios privado. A roça Agua Izé possui, por exemplo, uma forma de propriedade mista. Esta tem mais êxito que os empreendimentos agrícolas puramente estatais.

A par do aumento do cultivo de legumes, arroz, milho, mandioca, bananas e outros alimentos base, planeia-se a extensão do turismo. O clima quente, a paisagem com uma vegetação sempre-verde, praias poucas frequentadas, cascatas e chaminés de vulcões e, não menos importante, os ilhéus amigáveis, são pressupostos favoráveis ao turismo.

Para o fomento deste ramo da economia precisa-se de uma restauraçäo e ampliação da rede rodoviária sobre as duas ilhas, a construção de um porto em águas profundas e uma melhor conexão com a rede aérea internacional em Libreville.

Do meu ponto de vista, o pequeno Estado não pode sobreviver sem ajuda do exterior. Uma incorporação de São Tomé e Príncipe na União Aduaneira e Económica da África Central (UDEAC) resultaria numa vantagem para o Estado insular na aceitação do Franco CFA, garantido pela Tesouraria da França. São Tomé e Príncipe deveria seguir o exemplo da Guiné Equatorial vizinha que faz parte da Zona CFA desde 1985.

Uma alternativa para a época, após ter alcançado uma solução pacífica no Sudoeste da África, seria uma associação ou uma reunião de São Tomé e Príncipe com a República de Angola, país irmão também de língua portuguesa.

© Março de 1990 por Dietrich Köster, D-53115 Bonn

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Colonialismo português Língua Portuguesa Moçambique

Português em Moçambique: História, Situação e Política linguísticas – uma Exposição sumária

Escrito por Dietrich Köster

1.° Dados gerais

Moçambique está situado no sudeste da África no Oceano Índico e possui como países vizinhos a Tanzânia no norte, o Malávi, a Zâmbia, o Zimbabué e a África do Sul no oeste e a Suazilândia e mais uma vez a África do Sul no sul. A República de Moçambique tem 19406703 habitantes (situação em Julho de 2005) sobre uma superfície de 801.590 km². A densidade populacional perfaz 24 habitantes por km².

2.° Os portugueses em Moçambique desde 1498 até 1885

O navegador português Vasco da Gama chegou a Moçambique em 1498 a caminho para a Índia. Durante séculos a influência de Portugal e da língua portuguesa limitava-se ao litoral de quase 3000 km e ao vale do Zambeze.

3.° Os portugueses em Moçambique desde 1885 até 1974

Apenas durante a Conferência de Berlim sobre o Congo, convocada por Bismarck em 1884/85, as potências interessadas em África decidiram que territórios coloniais serão reconhecidos pelo direito público internacional se estes não foram somente descobertos, mas que é exercida também uma autoridade pública de facto por uma estrutura administrativa, polícia e forças armadas. Só agora Portugal deveria ocupar Moçambique de maneira exaustiva territorialmente – no sul de Moçambique pelo uso de força militar – e estabelecer uma administração até ao canto mais remoto do território. Apenas depois da Primeira Guerra Mundial era que Portugal detinha o controle completo sobre Moçambique. Mas foi até 1942 que partes do território ficavam sob domínio de sociedades majestáticas coloniais com competências de soberania conferidas pelo Estado Português.

O número de portugueses como detentores da língua portuguesa deveria subir só de uma maneira lenta. Elevou-se a 187.000 no ano de 1970. A única língua oficial e de ensino durante o domínio português era a língua portuguesa. Este regulamento esteve em vigor também para as escolas missionárias estabelecidas pelas sociedades missionárias cristãs. Os portugueses distinguiram até 1961 na população indígena entre civilizados e não-civilizados. Somente o 1% de civilizados dominava a língua portuguesa oralmente e por escrito. Enquanto que a população europeia fez escolarizar as suas crianças quase totalmente, a percentagem dos analfabetos entre a população negra elevava-se a 97%. Outras pessoas da população maioritária negra possuiam, pelo contacto com portugueses, conhecimentos orais da língua portuguesa. Por ocasião do censo do fim de 1970 a população de Moçambique atingiu 8,233 milhões, entre os quais 187.400 brancos – na maioria esmagadora portugueses – , 39.300 mestiços, 18.400 indianos – sobretudo goeses – e 2.700 chineses, na maioria naturais de Macau.

4.° A política linguística da FRELIMO desde 1962 até 1974

A luta armada de libertação foi introduzida, a partir da Tanzânia com a travessia do rio fronteiriço Rovuma, para o norte de Moçambique e pelo fornecimento de armas da parte do Bloco Oriental. Este combate foi executado depois uma fusão de três organizações em 1962 na Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) a partir de 1964. Com a excepção de poucos combatentes que tinham um contacto intensivo com a língua inglesa nos países vizinhos, a FRELIMO defendia desde o princípio, o português como laço unificador – língua da unidade nacional – para não fazer surgir uma mentalidade tribal.

5.° A política linguística do Governo da FRELIMO após a independência no dia 25 de Junho de 1975

5.°1.° O português como língua oficial e de ensino

Com a independência política de Moçambique – separando-se da metrópole Portugal – o objectivo pretendido pelo movimento de libertação no poder, a FRELIMO, era a redução do número de analfabetos. Visto que já antes do dia da independência os portugueses – excepto um número restante de mais ou menos 20000 – saíram do país precipitadamente, a FRELIMO dirigiu-se aos Estados do Bloco Oriental. Assim docentes da antiga RDA chegaram para ser empregues como formadores de professores. Desde há vários anos, Portugal coopera na reactivação do sistema escolar. Há pouco a RFA presta também apoio à educação em Moçambique, sobretudo da parte da GTZ (Sociedade Alemã para a Cooperação Técnica/Serviço Administração de Projectos). Todas as medidas de educação são efectuadas em princípio na língua portuguesa. Considerações de escolarizar os alunos moçambicanos em uma língua autóctone existem sob a presidência da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) somente na fase de experimentação de pouca envergadura. Apesar de todos os esforços de reduzir o número de analfabetos a quota dos iletrados oscila ainda hoje, à volta de 70%. Todas as instituições estatais servem-se exclusivamente da língua portuguesa. Esta vale para as autoridades, tribunais, polícia e forças armadas. Todas as publicações são redigidas sem excepção em português. Uma outra prática é apenas imaginável em contactos orais com funcionários públicos individuais. Foi expressamente estabelecido no artigo 10 da Constituição de 2004: Na República de Moçambique a língua portuguesa é a língua oficial.

5.°2.° A alfabetização dos adultos e a língua portuguesa

Como a maioria da população vive ainda no campo e a rede escolar é ainda pouco desenvolvida, o número de analfabetos entre os adultos é especialmente grande. Para esta camada populacional existem sempre mais aulas de alfabetização que facilitam no quadro de cursos destinados a principiantes e avançados de nove meses a aprendizagem das bases da língua portuguesa. Quem quer seguir uma carreira escolar regular só tem esta possibilidade acabar com os estudos secundários nas capitais de Província, sobretudo em Maputo, na Beira e em Nampula.

5.°3.° A relevância da imprensa, da rádio e da televisão para a difusão da língua portuguesa

A imprensa está concentrada – com a excepção de um diário de tiragem modesta na Beira – em Maputo, a capital do País. Essencialmente trata-se do diário notícias, do semanário dominical domingo e dos semanários Tempo e SAVANA. Todos estes periódicos são publicados em português e são acessíveis sobretudo aos leitores da capital. Enquanto que a televisão é difundida apenas nas aglomerações urbanas e em língua portuguesa – os filmes de produção estrangeira são projectados no tom original com legendas em português -, serve-se a rádio ao lado do português também das seis línguas regionais mais importantes. Neste contexto cabe um papel destacado à língua changana entre estas línguas autóctones. Em resumo: Pode-se dizer que, exceptuando a rádio, a língua portuguesa detêm também uma posição dominante no quadro dos meios de comunicação social.

5.°4.° O português moçambicano

Antes da independência o português da metrópole era prescrito compulsivamente como norma linguística (língua-padrão) para toda a vida pública no seio da política de assimilação portuguesa. Desta maneira, a política ultramarina na altura tencionava como objectivo a longo prazo transformar todos os moçambicanos linguística e culturalmente em portugueses. Desvios da norma europeia foram considerados com desdém como pretoguês. Esta obrigatoriedade para o respeito da norma da metrópole deveria diminuir com a independência. Agora, palavras das línguas autóctones foram introduzidas no português. A orientação para o sistema político e económico do Bloco Oriental conduziu também para a adopção de novas noções. Com o vento da mudança política no começo da década de 1990 o léxico de uso político deveria ser abandonado parcialmente de novo.

6.° Bibliografia

– Leiste, Doris, Die portugiesische Sprache in Moçambique – eine Untersuchung zur Entwicklung der Sprachsituation von der Kolonialzeit bis in die Gegenwart, dissertação A, Universidade Karl Marx, Lípsia 1988

– Perl, Matthias u.a., Portugiesisch und Crioulo in Afrika, Geschichte – Grammatik – Lexik – Sprachentwicklung, Universitätsverlag Dr. N. Brockmeyer, Bochum 1994, ISBN 3-8196-0261-5

– Leclerc, Jacques, L’aménagement linguistique dans le monde, Mozambique, Universidade Laval, Quebeque 2006, https://www.axl.cefan.ulaval.ca/afrique/mozambique.htm

– Jacob, Ernst Gerhard, Grundzüge der Geschichte Portugals und seiner Überseeprovinzen, Wissenschaftliche Buchgesellschaft, Darmstadt 1969

– Klett-Handbuch für Reise und Wirtschaft Afrika, publicado pelo Afrika-Verein e.V. de Hamburgo, tomo III Südliches Afrika, capítulo Moçambique, pág. 301-324, 2.ª edição, casa editora Ernst Klett, Estugarda Janeiro de 1975, ISBN 3-12-949020-5

© Maio de 2006 por Dietrich Köster, D-53115 Bonn

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Colonialismo português Índia

Os Portugueses em Baçaim (Bassein, Vasai): as ruínas de uma cidade Portuguesa na Índia

Escrito por Marco Ramerini

Bassein-Vasai (Baçaim) está situada a cerca de 70 quilômetros ao norte de Bombaim, no Mar da Arábia. Encontra-se em uma ilha na foz de um rio e foi graças a esta posição facilmente defensável. A cidade, que pertencia ao Reino de Cambaia, era muito importante antes da conquista Português. As fontes de riqueza de Baçaim (Bassein) foram: o comércio dos cavalos, a pesca, o sal, a madeira, a pedreira de pedra (basalto, granito) e os estaleiros navais. Naqueles dias, a cidade estava situada no centro de um distrito agrícolo rico, que rendeu arroz, betel, algodão, cana-de-açúcar e muito mais.

Em 1528 o Capitão Heytor de Silveira capturou e queimou a cidade de Baçaim. Depois disso, o Senhor do Thana apresentou voluntariamente como tributário de Portugal. Em 1532 os Portugueses de novo atacaram Baçaim e depois de uma fraca resistência eles entraram no forte eo destruíram. As cidades de Thana, Bandora, Mahim e Bombaim foram colocados sob tributo. Em 23 de dezembro de 1534 o Sultão de Gujarat cedeu, por tratado, a cidade de Baçaim com as suas dependências (Salcete, Bombaim, Parel, Vadala, Siao, Vorli, Mazagao, Thana, Bandra, Mahim, Caranja) para Portugal.

Baçaim (Vasai), ruínas da igreja, aguarela por Roberto Ramerini
Baçaim (Vasai), ruínas da igreja, aguarela por Roberto Ramerini

Em 1535 a Feitoria ea Igreja de Nossa Senhora da Vida foram construídos. No mesmo ano, o Sultão de Gujarat agrediu a cidade, por esta razão, em 1536 uma fortaleza foi construída, em torno do qual a cidade português floresceu. Em 1540,  foi fundada a “Confraria da Misericórdia”. Em 1547, os franciscanos fundaram o Convento ea Igreja de Santo António ea Igreja Matriz de São José.

Em 1548 São Francisco Xavier ficou em Baçaim e uma parte da população indígena foi convertida ao cristianismo. Em 1549 os jesuítas construíram as Igreja do Sagrado Coração de Jesus. Mais tarde, em 1561, eles começaram a construir o suo grande colégio. Em 1556 os Portugueses ocuparam a montanha da “Serra de Açarim”, eo forte de Açarim / Asserim eo de Manora foram ocupadas na vizinhança.

Um pequeno forte foi construído em Caranja. Na ilha de Salcete (Salsette) 9 igrejas foram construídas: Nirmal (1557), Nossa Senhora dos Remédios (1557), Sandor (1566), Agashi (1568), Nandakal (1573), Papdy (1574), Pale (1595), Manickpur (1606), Nossa Senhora das Mercês (1606). Em 1559 Damão foi ocupada e no mesmo ano o forte de Bulsar foi colocado sob controle Português, mas já foi abandonado em 1560.

Baçaim, as ruínas do claustro e da torre da Igreja franciscana de Santo António, aguarela por Roberto Ramerini
Baçaim, as ruínas do claustro e da torre da Igreja franciscana de Santo António, aguarela por Roberto Ramerini

Em 1564 a Igreja de São Gonçalo foi construída pelos dominicanos. Na segunda metade do século XVI a construção de um novo forte tinha começado e toda a cidade estava cercada por muros com 10 baluartes. O desenho da fortaleza e dos bastiões foi inspirado as fortificações do Renascimento italiano. Em 1581 os jesuítas construíram a Igreja de Nossa Senhora da Graça e, finalmente, os Agostinianos construíram a Igreja de Nossa Senhora da Anunciada em 1596.

Baçaim foi conhecida durante o período dos Portugueses para o refinamento ea riqueza dos seus edifícios e palácios e pela beleza de suas igrejas. A Província do Norte incluiu um território que se estendia desde que 100 quilômetros da costa, entre Damão e Bombaim e em alguns lugares estendido 30-50 km em direção ao interior. Ele foi a mais produtiva área da India sob o domínio Português. Em defesa da província foram construídas várias fortalezas. As mais importantes foram em Damão, Damão Pequeno, São Gens, Danu, Serra de Asserim, Trapor, Sirgao, Mahim, Agaçaim (Ilhas das Vacas), Manora, Baçaim, Thana (Santa Cruz, Passo Seco, Baluarte do Mar), Bombaim e Caranja. No final do século XVII Baçaim atingiu o auge de seus dias de glória. Em 1611 uma “Casa da Moeda” foi criada em Baçaim.

Velha mapa de Baçaim (Vasai)
Velha mapa de Baçaim (Vasai)

Em 1615 um forte triangular foi construído em Damão Pequeno (perto de Damão), que foi chamado Forte de São Jerónimo. Em 1634 Baçaim numerou uma população de 400 famílias portuguesas, 200 famílias indígenas cristãos e 1.800 escravos. A cidade, em caso de ataque inimigo, numerou cerca de 2.400 homens, como defensores.

Em 23 de junho de 1661 um Tratado Casamento entre Inglaterra e Portugal entregue aos britânicos o porto e a ilha de Bombaim (Bombay). O governador Português de Bombaim recusaram-se a abandonar a ilha. Depois de uma longa batalha diplomática Bombaim foi cedida ao Inglês em 18 de fevereiro 1665, mas sem qualquer de suas dependências.

Em 1674 Baçaim numerou dois colégios, quatro conventos e seis igrejas. Em 1685 a Igreja de Nossa Senhora da Saúde foi fundada pelos Cavaleiros Hospitalários de São João. O declínio do poder Português no Oriente ea transferência de Bombaim (Bombay) para os britânicos em 1665 enfraqueceu Baçaim. A cidade foi atacada várias vezes pelos mahrattas.

A ilha de Bombaim (Bombay-Mumbai) ea fortaleza de Caranja, do Livro das Plantas das Fortalezas, Cidades e povoações do Estado da Índia
A ilha de Bombaim (Bombay-Mumbai) ea fortaleza de Caranja, do Livro das Plantas das Fortalezas, Cidades e povoações do Estado da ÍndiaOriental 1600s

Apesar disso, em 1719 a província de Baçaim ainda numeradas cerca de 60.000 habitantes, destes 2.000 eram Português e 58.000 eram índios cristãos. Em 1720 umo dos portos de Baçaim, Kalyan, foi conquistado pelo mahrattas, e em 1737 eles também tomaram posse de Thana e de todos os fortes na ilha de Salcete e os fortes de Parsica, Trangipara, Saibana, a Ilha das Vacas, Manora , Sabajo, as colinas de Santa Cruz e Santa Maria.

Os únicos lugares na Província do Norte, que agora ficaram com os Portugueses foram Chaul, Caranja, Bandora, Versova, Baçaim, Mahim, Quelme, Seridao (Sirgao), Danu, Asserim, Trapor e Damão. Em novembro de 1738, o Mahrattes capturaram o forte de Danu e em 20 de janeiro de 1739 Mahim capitulou. A perda de Mahim foi rapidamente seguida pela captura dos fortes de Quelme, Seridao, Trapor e Asserim (13 de fevereiro de 1739). Em 28 de março de 1739 a ilha e fortaleza de Caranja, também foram perdidas. Este foi o prelúdio de perda final da cidade, de fato, em fevereiro 1739 o Mahrattes atacaram Baçaim e depois de uma resistência desesperada, os últimos defensores portugueses renderam-se em 16 de Maio de 1739. Os Portugueses deixaram Baçaim em 23 de Maio 1739.

As colônias portugueses na Província do Norte. Autor Marco Ramerini
As colônias portugueses na Província do Norte. Autor Marco Ramerini

Depois de 205 anos de governo ininterrupto dos Portugueses, Baçaim (agora sob a Mahrattes) foi progressivamente negligenciadas ea vizinha cidade Inglesa de Bombay, tomou seu lugar. Durante a guerra contra os mahrattas (1737-1740) os Portuguese  perderam, além de Baçaim, oito cidades, quatro portos principais, vinte fortalezas, dois montes fortificados, a ilha de Salcete (Salsette) com a cidade ea fortaleza de Thana, as “ilha das Vacas”, a ilha de Karanja (Juem) e 340 aldeias. As perdas atingiram a quase toda a Província do Norte, apenas a cidade de Damão foi mantida.

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VASAI (BAÇAIM): OS RESTOS DE UMA CIDADE-FORTALEZA PORTUGUESA NA ÍNDIA

Vasai (Baçaim) está localizada no distrito de Thane, 70 km ao norte de Mumbai (Bombaim). A cidade está localizada na margem norte do Vasai Creek, uma parte do estuário do rio Ulhas. Para chegar a Baçaim de Bombaim Central tomar um trem de passageiros para Surat via Dadar e descer na estação de Vasai Road (Baçaim Road). Os restos do forte podem ser atingidos por ônibus ou táxi da estação ferroviária de Vasai (11 km).

Claustro da Igreja Franciscana de Santo António. Baçaim (Vasai). Autor e Copyright Sushant Raut
Claustro da Igreja Franciscana de Santo António. Baçaim (Vasai). Autor e Copyright Sushant Raut

De todos os fortes Portugueses ainda existente na Índia, Baçaim (Vasai hoje), é um dos mais imponentes. Hoje Baçaim é um emaranhado de ruínas, a cidade tem, ainda bem conservados, suas imponente paredes de contorno, com suas duas portas de acesso (“Porta do Mar”e “Porta da Terra”) e seus 10 baluartes.

Dispersas no interior das muralhas existem as ruínas de várias casas de cidade e igrejas, entre outras coisas: a igreja eo convento dos dominicanos, a igreja franciscana de Santo Antônio (com numerosas lápides Português, os restos do claustro e as ruínas de a torre sineira), a igreja de Nossa Senhora da Vida, a igreja e conventos dos agostinianos, o palácio da “Câmara”, a Misericórdia, a Igreja Matriz de São José, as ruínas da igreja e do convento jesuítas. Bem conservada também estão os restos da antiga cidadela de São Sebastião.

BIBLIOGRAFIA:

– Albuquerque, Teresa “Epigraphy of Bassein” In: Mare Liberum, Revista de História dos Mares N° 9, ” VII Seminário internacional de História Indo-Portuguesa, Goa 1994″, pp. 311-320, 1995, Lisbon, Portugal.

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– Barros, Joseph de “A presença portuguesa em Baçaim: sua génese geo-histórica” In: Mare Liberum, Revista de História dos Mares N° 9, ” VII Seminário internacional de História Indo-Portuguesa, Goa 1994″, pp. 41-47, 1995, Lisbon, Portugal.

– Borges, Charles J. “Jesuit economic interests in the Portuguese Province of the North till the mid-18th century” In: Mare Liberum, Revista de História dos Mares N° 9, ” VII Seminário internacional de História Indo-Portuguesa, Goa 1994″, pp. 49-56, 1995, Lisbon, Portugal.

– Bras, A. Fernandes “Armas e inscrições do forte de Baçaim” 282 pp. maps, ill. Academia Portuguesa da História 1957 Lisboa, Portugal. The complete list and also the descriptions of the inscriptions present in Baçaim fort.

– Couto, Dejanirah “Em torno da concessão e da fortaleza de Baçaim 1529-1546″ In: Mare Liberum, Revista de História dos Mares N° 9, ” VII Seminário internacional de História Indo-Portuguesa, Goa 1994″, pp. 117-126, 1995, Lisbon, Portugal.

– Couto, Dejanirah “A fortaleza de Baçaim” In: “Oceanos” n° 28 Oct/Dec. 1996 pp. 105-118 – Couto, Dejanirah “Baçaim a capital do norte” In: “Oceanos” n°19-20, Sep/Dec. 1994 pp. 258-266

– Cunha, J. Gerson da, “The origin of Bombay” 368 pp Asian Educational Services, 1993 (1900), New Delhi, India.

– Cunha, G. da “Notes on the history and antiquities of Chaul and Bassein” 278 pp. Map & ills. 1993 (1876), Bombay, India.

– Gaspar Rodrigues, Vitor Luis “A organização militar da Província do Norte durante o séc. XVI e princípios do séc. XVII” In: Mare Liberum, Revista de História dos Mares N° 9, ” VII Seminário internacional de História Indo-Portuguesa, Goa 1994″, pp. 247-265, 1995, Lisbon, Portugal.

– Hull, Ernest R. “Bombay mission-history, with a special study of the padroado question (1534-1858)” ? vii+493 pp. 7 color maps Bombay Examiner Press, 1927,

– Leão, M. C. “A Província do Norte do Estado da India” 223 pp. several maps and illustrations, Instituto Cultural de Macau, 1996, Macau.

– Martires Lopes, Maria de Jesus dos “Aspectos da política religiosa na província do Norte, em setecentos” In: Mare Liberum, Revista de História dos Mares N° 9, ” VII Seminário internacional de História Indo-Portuguesa, Goa 1994″, pp. 175-179, 1995, Lisbon, Portugal.

– Meersman, A. “The Franciscans in Bombay. History of the Franciscans in the territory comprised within the boundaries of the present archdiocese of Bombay” xvii+279 pp. 1957, Bangalore, India.

– Oliveira e Costa, Joao Paulo “Simão de Andrade fidalgo da Índia e capitão de Chaul” In: Mare Liberum, Revista de História dos Mares N° 9, ” VII Seminário internacional de História Indo-Portuguesa, Goa 1994″, pp. 99-111, 1995, Lisbon, Portugal.

– Pereira, A. B. de Bragança “Os portugueses em Baçaim” ? 220 pp Sep. de: O Oriente Português Tip. Rangel 1935 Bastorá In: Oriente Portugues N° 7/8/9 pp. 97-313

– Rossa, W. “Indo-Portuguese cities” 117 pp. illust. Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses 1997 Lisboa Very interesting descriptions of the Portuguese town of Goa, Chaul, Baçaim, Damao, Diu, Cochin.

– Santos, Isau “A cedência de Bombaim aos Ingleses” In: Mare Liberum, Revista de História dos Mares N° 9, ” VII Seminário internacional de História Indo-Portuguesa, Goa 1994″, pp. 267-290, 1995, Lisbon, Portugal.

– Shirodkar, P. P. “Bombay and the Portuguese impact and influences with special reference to etymology” In: Mare Liberum, Revista de História dos Mares N° 9, ” VII Seminário internacional de História Indo-Portuguesa, Goa 1994″, pp. 291-301, 1995, Lisbon, Portugal.

– Soeiro de Brito, Raquel “Goa e as praças do Norte” 196 pp Junta de Investigaçoes do Ultramar, 1966 (CNCDP 1998), Lisbon, Portugal.

– Varela Gomes, Paulo and Rossa, Walter “O primeiro territorio. Bombaim e os Portugueses” In: “Oceanos” n° 41, 2000.

– Velinkar, Joseph “Early Jesuit presence in Bassein” In: Mare Liberum, Revista de História dos Mares N° 9, ” VII Seminário internacional de História Indo-Portuguesa, Goa 1994″, pp. 305-310, 1995, Lisbon, Portugal.

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Brasil Colonialismo francês

Os Franceses no Brasil: Saint-Alexis, Rio de Janeiro, Ibiapaba e São Luís do Maranhão

Escrito por Marco Ramerini. Tradução feita por Márcia Siqueira de Carvalho

Os portos franceses na Normandia, especialmente o de Rouen e Dieppe, onde no século XVI estava estabelecida uma indústria têxtil florescente que se tornava a principal atividade econômica que competia com Portugal pelo mercado brasileiro. Atentos à presença de vastas florestas com “Pau Brasil” (usado no tingimento de tecidos) no litoral brasileiro, os franceses logo estabeleceram relações comerciais com os indígenas. A primeira viagem data de 1503-1504, quando a embarcação “Espoir” chegou às costas brasileiras. Após este primeiro contato, multiplicaram-se as expedições.

Em 1531, dois navios franceses e 120 homens sob o comando de Jean Dupéret, aportaram nas costas brasileiras. Na ilha de Santo Aleixo (próximo de Recife), chamada pelos franceses de “Ile Saint-Alexis”, eles construíram um forte e uma feitoria comercial. Esta feitoria francesa teve vida breve. Os portugueses capturaram os navios franceses na sua viagem de volta à Europa e em dezembro de 1531 sitiaram o forte francês até a rendição.

Os franceses fizeram três outras tentativas para se estabelecerem no Brasil. A primeira delas foi no Rio de Janeiro (1555-1560), a segunda em Ibiapaba-Ceará (1590-1604), e a terceira em São Luís do Maranhão (1612-1615).

A FRANÇA ANTÁRTICA 1555-1560

Na década de 1550, a região de Cabo Frio até o Rio de Janeiro estava mais sob o controle dos franceses do que sob o domínio dos portugueses. Por quase cinco anos, entre 1555 e 1560, os franceses mantiveram um forte numa pequena ilha na Baía de Guanabara (Rio de Janeiro): o Forte Coligny.

O calvinista Nicolas Durand de Villegagnon foi enviado ao Brasil em 1555 para marcar a presença francesa naquele lugar. Em 14 de agosto de 1555, com três navios, 600 marinheiros e colonos, ele partiu em direção ao Brasil.

A Ilha de Villegaignon sob ataque Português (1560)
A Ilha de Villegaignon sob ataque Português (1560)

A expedição francesa chegou entre 10-15 de novembro de 1555, na Baía de Guanabara e desembarcaram numa ilha deserta, a atual ilha de Villegagnon. Nela foi construído o Forte Coligny e logo estabeleceram boas relações com os indígenas que lá habitavam. Os membros desta primeira expedição eram quase todos da Bretanha e da Normandia e subdividiam-se entre Católicos e Protestantes.

Pouco tempo depois, em março de 1556, chegou uma segunda expedição composta de três navios e 190 homens. A colônia teve um bom desenvolvimento, mas as normas intolerantes e rigorosas de Villegagnon paralisaram o crescimento do promissor núcleo francês. As regras opressoras de Villegagnon obrigaram uma boa parte dos colonos a abandonarem o local. Entre eles, alguns huguenotes que voltaram para a França, onde suas denúncias levaram à desistência de uma expedição de 700 a 800 colonos que estava sendo organizada.

Em 1559, Villegagnon também voltou à França, deixando o comendo da colônia para seu sobrinho Bois-le-Comte. Portugal que não estava disposto a tolerar a presença francesa em suas terras, enviou uma expedição de 120 portugueses e 1.000 índios, sob as ordens de Mem de Sá, Governador Geral do Brasil (1558-1570), que em 16 de março de 1560, após dois dias e duas noites de um enfrentamento encarniçado, destruiu a colônia francesa. Os 70 sobreviventes franceses e seus 800 índios aliados, desmoralizados, abandonaram o forte e se refugiaram entre outros indígenas.

Como W.J. Eccles escreveu em seu livro “France in America”: “For a century, French traders had challenged the Portuguese hold on this vast region, with little or no aid from the Crown. But for religious dissension at Rio de Janeiro, and the unfortunate character of Villegagnon, France rather than Portugal might well have established a vast empire in South America.” Traduzindo, “Durante um século, os comerciantes franceses desafiaram os portugueses nesta vasta região, com pequena ou nenhuma ajuda da Coroa. Mas por causa da dissenção religiosa no Rio de Janeiro, e do péssimo caráter de Villegagnon, a França, mais do que Portugal, poderia ter fincado bases de um grande império na América do Sul.

IBIAPABA 1590-1604

Em 1590, sob o comando de Adolf Montbille, uma expedição francesa se estabeleceu em Ibiapaba (Viçosa-Ceará), onde os franceses fundaram uma feitoria e um forte, e comercializavam “pau brasil” com os índios que habitavam o núcleo comercial francês.

Os franceses viveram em paz com os indígenas por 14 anos, mas em 1604 uma expedição portuguesa chefiada por Pero Coelho atacou a colônia e após uma batalha violenta, foçaram os franceses a se renderem.

SÃO LUÍS DO MARANHÃO 1612-1615

Em 19 de março de 1612, três navios franceses partiram do porto francês de Canacale em direção ao Maranhão. Esses navios eram: “Regent” sob o comendo de Rasilly e La Ravardière, “Charlotte” comandado pelo Barão de Sancy e o “Sainte-Anne”.

Em 24 de junho os navios chegaram à Ilha de Fernando de Noronha onde permaneceram até 8 de julho. Lá eles encontraram um português e 17 ou 18 escravos indígenas. Todos eles foram levados para o Maranhão. Em 29 de julho, os franceses alcançaram a ilha “Pequena do Maranhão”, que se encontrava deserta. Esta ilha foi batizada pelos franceses como Ilha de Santana (Sainte-Anne). De lá os franceses se deslocaram para a ilha “Grande do Maranhão” onde eles encontraram alguns navios de Dieppe e de Le Havre com 400 franceses que comerciavam com os indígenas. Nesta ilha os capuchinhos construíram o convento de São Francisco (Sainte Françoise) e perto dele, um forte chamado Forte São Luís (Saint-Louis). Em 20 de dezembro de 1612, uma capela religiosa foi inaugurada.

São Luis do Maranhão (1629) por Albernaz
São Luis do Maranhão (1629) por Albernaz

Ali os franceses viveram em paz por quase dois anos. Em 1613, os líderes do assentamento resolveram retornar à França em busca de reforços. Após algumas tentativas junto à Corte, eles começaram a preparar uma expedição mais próspera. Na Páscoa de 1614, o navio “Regent” com 300 franceses partiram na direção do Maranhão. Em 14 de junho, o navio passou em frente do forte português do Ceará, and em 18 de junho a expedição chegava ao “Buraco das Tartarugas” ou Jaracoará onde havia outro forte português. Apesar dos obstáculos, os reforços franceses chegaram a salvo no Maranhão.

Reconhecendo a presença contínua dos navios na região, os portugueses construíram vários fortes para controlar a costa com o intuito de acabar com o comércio francês. Em 1611 ou 1612, os portugueses haviam fundado o forte do Ceará, chamado Nossa Senhora do Amparo; em agosto de 1613, eles haviam fundado também o forte de Jaracoará, chamado Nossa Senhora do Rosário.

Em 26 de outubro de 1614, uma tropa portuguesa de 500 homens (portugueses e índios), chegou à terra-firme, perto dos assentamento franceses, com o objetivo de os expulsar. Os portugueses acamparam em Guaxenduba onde construíram um acampamento fortificado, chamado Forte de Santa Maria. Os franceses do Maranhão, sendo superiores em número, decidiram tomar a iniciativa e em 19 de novembro de 1614, com 7 navios, 50 canhões e o reforço de 200 franceses e 1.500 índios atacaram o forte português. O ataque se transformou, porém, numa derrota esmagadora para os franceses.

Em 27 de novembro de 1614, foi assinado um armistício de duração de um ano, com o objetivo de permitir ao rei da França e da Espanha estabelecer uma saída diplomática. Também decidiu-se enviar emissários franceses e portugueses à Europa para explicar a questão. Então, em 16 de dezembro de 1614, o navio “Regent”, partiu para a Europa tendo a bordo emissários portugueses e franceses. Os resultados desta missão não são bem conhecidos.

Porém os reforços franceses para o Maranhão nunca chegaram. Entretanto, em 1º de novembro de 1615, uma frota portuguesa de 9 navios e de várias centenas de homens, sob o comando de Alexandre de Moura, chegou aos assentamentos franceses. Os portugueses aportaram na ilha “Grande do Maranhão” e entrincheiraram-se na altura de São Francisco. O forte foi chamado de “Quartel de São Francisco”. Em 3 de novembro de 1615, os franceses já desmoralizados, se renderam sem lutas.

BIBLIOGRAFIA:

– Parkman, Francis “Pioneers of France in the New World” University of Nebraska Press, 1996

– Daher, Andréa “Les Singularités de la France Équinoxiale : Histoire de la mission des pères capucins au Brésil (1612-1615)” Préface de Roger Chartier., Paris, Champion, coll. « Les Géographies du Monde »,‎ 2002, 346 p.

– Thevet, André “Les singularités de la France antartique” 1558, new ed. (Paul Gaffarel, ed.) 1878

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África America Ásia Colonialismo português

As Independências do Ultramar Português

Escrito por Dietrich Köster

Brasil: 7 de Setembro de 1822

Cabo Verde: 5 de Julho de 1975

Guiné: proclamação unilateral: 24 de Setembro de 1973, independência definitiva: 10 de Setembro de 1974

São Tomé e Príncipe: 12 de Julho de 1975

São João Baptista de Ajudá: ocupação pela República do Daomé (Benim): 1 de Agosto de 1961

Angola: 11 de Novembro de 1975

Moçambique: 25 de Junho de 1975

Fortaleza de Diu, Índia
Fortaleza de Diu, Índia

Estado da Índia (Goa, Damão, Diu): apoderamento pela União Indiana: 19 de Dezembro de 1961

Estado da Índia (Dadrá e Nagar-Aveli): apoderamento pela União Indiana: 2 de Agosto de 1954

Macau: transferência de poderes políticos à República Popular da China: 20 de Dezembro de 1999

Timor: proclamação unilateral: 28 de Novembro de 1975, invasão pela República da Indonésia: 7 de Dezembro de 1975, independência definitiva: 20 de Maio de 2002

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Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP): Dados gerais

Escrito por Dietrich Köster

Cabo Verde
denominação oficial: República de Cabo Verde
capital: Cidade da Praia
língua: A língua oficial é o Português, utilizando-se localmente o Crioulo.
número de habitantes: 530.000
superfície: 4.036 km²
unidade monetária: Escudo de Cabo Verde (CVE)
dia da independência: 5 de Julho de 1975

Guiné-Bissau
denominação oficial: República da Guiné-Bissau
capital: Bissau
língua: A língua oficial é o Português, utilizando-se localmente o Crioulo, Mandjaco, Mandinga, entre outros.
número de habitantes: 1.696.000
superfície: 36.100 km²
unidade monetária: Franco CFA da África Ocidental (XOF)
dia da independência: 10 de Setembro de 1974

Guiné Equatorial
denominação oficial: República da Guiné Equatorial
capital: Malabo
língua: As línguas oficiais são o Espanhol, o Francês e o Português; fala-se regionalmente Fang, Bube e Anobonense.
número de habitantes: 676.000
superfície: 28.050 km²
unidade monetária: Franco CFA centro-africano (XAF)
dia da independência: 12 de Outubro de 1968

Ilha de Gorée, Senegal
Ilha de Gorée, Senegal

São Tomé e Príncipe
denominação oficial: República Democrática de São Tomé e Príncipe
capital: São Tomé
língua: A língua oficial é o Português. Localmente, também se fala Crioulo.
número de habitantes: 158.000
superfície: 1.001 km²
unidade monetária: Dobra (STD)
dia da independência: 12 de Julho de 1975

Angola
denominação oficial: República de Angola
capital: Luanda
língua: A língua oficial é o Português. São falados outros idiomas, sobretudo o Umbundo, Kimbundo, Kikongo e Tchokwé.
número de habitantes: 16.949.000
superfície: 1.246.000 km²
unidade monetária: Kwanza (AOA)
dia da independência: 11 de Novembro de 1975

Moçambique
denominação oficial: República de Moçambique
capital: Maputo
língua: A língua oficial é o Português. Há numerosas línguas nacionais, como o Changane, Lomué, Shona, Tsonga, Chicheva e Macua.
número de habitantes: 21.372.000
superfície: 799.000 km²
unidade monetária: Metical (MZN)
dia da independência: 25 de Junho de 1975

© Junho de 2012 por Dietrich Köster, D-53113 Bonn

BIBLIOGRAFIA:

Compilado com a base de dados da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e do Fischer Weltalmanach 2010 e por meio de conhecimentos próprios.
Veja também: As Independências do Ultramar Português

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A Herança da Língua Portuguesa na África

Escrito por Marco Ramerini. Tradução feita por Dietrich Köster.

Após a conquista da fortaleza árabe de Ceuta em Marrocos em 1415 os portugueses foram os primeiros europeus a explorar a costa africana e na década de 1460 eles construíram o primeiro forte em Arguim (Mauritânia). 1482 foi o ano da construção do castelo de São Jorge da Mina na Costa do Ouro (Gana). Em 1487 o explorador português Bartolomeu Diaz dobrou o Cabo da Boa Esperança e em 1497 Vasco da Gama circumnavegou o continente africano e chegou à Índia (1498).

Os portugueses dominaram incontestavelmente a costa africana durante os séculos XV e XVI. Os assentamentos portugueses em África foram usadas pelos navios portugueses como estações de fornecimento na rota para a Índia, mas também eram estações comerciais, onde os portugueses fizeram negócios de ouro, escravos e especiarias com os africanos e o idioma português foi usado como língua franca ao longo das costas de África.

Agora o português é falado em vários países da África, principalmente nas ex-colónias portuguesas: É a língua oficial em Moçambique, Angola, São Tomé e Príncipe, na Guiné-Bissau e em Cabo Verde. Uma espécie de crioulo português é usado no Senegal, na Guiné-Bissau, em Cabo Verde, em São Tomé e Príncipe e também na Guiné Equatorial. Uma grande comunidade de portugueses de Portugal, Angola e Moçambique reside na África do Sul.

O idioma português também influenciou várias línguas africanas. Muitas palavras portuguesas foram permanentemente emprestadas a vários tipos de línguas africanas como o suaíli e o africâner.

COSTA DA ÁFRICA OCIDENTAL E ILHAS DE CABO VERDE

No século XVI ao longo da costa do Senegal, da Gâmbia e da Guiné o assentamento de vários grupos de comerciantes portugueses e de Lançados (mestiços) contribuíram para a difusão da língua portuguesa nessas áreas. Hoje um crioulo português é ainda falado em Casamança (crioulo de Ziguinchor), na Gâmbia e na Guiné-Bissau (crioulos de Bissau-Bolama, Bafatá e Cacheu), seu nome local sendo Kriol. Esta linguagem é a primeira língua crioula, que surgiu a partir do contato entre europeus e os povos africanos.

Na Guiné-Bissau o Kriol é a língua nacional e o português é a língua oficial. As Ilhas de Cabo Verde foram uma colónia portuguesa até 1975 e assim o português é hoje a língua oficial do arquipélago. O crioulo de Cabo Verde é falado por toda a população e é semelhante ao da Guiné-Bissau e da Casamança. O português é a segunda língua para muitas pessoas.

Cabo Verde: Para 350.000 caboverdianos o crioulo é a primeira língua (1990), enquanto que o português é a segunda língua para a maioria.

Guiné-Bissau: 150.000 falantes de crioulo como primeira língua (1996) e 600.000 usuários do crioulo como segunda língua; 20.000 falantes de português como primeira língua (1991).

Senegal e Gâmbia: 55.000 falantes do crioulo de Ziguinchor na Casamança como primeira língua (1990). O dialeto do Senegal é um pouco diferente que na Guiné-Bissau. Tem algum vocabulário francês.

Comunidades de língua portuguesa na África hoje. Herança da língua Portuguesa em África. Autor Marco Ramerini
Comunidades de língua portuguesa na África hoje. Herança da língua Portuguesa em África. Autor Marco Ramerini

GOLFO DA GUINÉ

Uma espécie de português (crioulo) desenvolveu-se ao longo da costa de Gana (Costa do Ouro) e foi falado por comerciantes nativos nos seus negócios com os outros europeus (neerlandeses, ingleses, dinamarqueses, brandenburgueses, franceses, suecos) durante os séculos XVI, XVII e XVIII até mesmo vários anos após o abandono português da Costa do Ouro. Até 1961 Portugal teve um forte em Daomé, hoje chamado Benim. Seu nome é São João Baptista de Ajudá (Ouidah). Aqui o português foi usado nos últimos séculos por uma comunidade de descendentes mistos portugueses. O português foi também utilizado no Reino do Daomé como língua para as relações externas com os outros europeus.

Em algumas ilhas do Golfo da Guiné o crioulo português é falado ainda hoje. Estas ilhas são: as Ilhas de São Tomé e Príncipe (São Tomé e Príncipe) e a Ilha de Anobom (Guiné Equatorial). Sãotomense (Forró) e angolar (Moncó) são falados na Ilha de São Tomé e principense na Ilha do Príncipe. Estes crioulos são bastante distintos dos crioulos de Cabo Verde, da Guiné-Bissau, do Senegal e da Gâmbia.

O português é a língua oficial de São Tomé e Príncipe e é falado como segunda língua pela maioria dos habitantes em 1993, apenas 2.580 pessoas usaram-o como primeira língua. Na ilha de Anobom (Pagalu, Guiné Equatorial) a população fala um tipo particular de crioulo português, chamado anobonense ou Fá d’Ambô, uma rara mistura de dialetos angolanos Bantu e de português antigo, que é semelhante ao de São Tomé. O português tornou-se a terceira língua oficial da Guiné Equatorial desde 20 de julho de 2010.

São Tomé e Príncipe: 85.000 falantes de sãotomense como primeira língua (Ilha de São Tomé), 9.000 falantes de angolar como primeira língua (Ilha de São Tomé) e 4.000 falantes de principense como primeira língua (Ilha do Príncipe) em 1989; 2.580 portugueses falantes de português como primeira língua (1993) e uma grande parte dos habitantes fala o português como segunda língua.

Guiné Equatorial: 8.950 falantes de Anobonense como primeira língua (Ilha de Anobom) em 1993. O português tornou-se a terceira língua oficial da Guiné Equatorial desde 20 de julho de 2010.

ÁFRICA AUSTRAL: Congo, Angola, África do Sul e Moçambique.

Durante o século XVI no Reino do Congo muitas pessoas da classe dominante falavam português fluentemente. Esta lingua foi também o veículo para a propagação do cristianismo. O testemunho de um viajante europeu em 1610 prova que no Soyo todas as crianças aprenderam o português. No Reino do Congo há provada da existência de escolas portuguesas gerenciadas pelos missionários durante os séculos XVII e XVIII. Nos séculos XVI, XVII e XVIII a influência e o uso do português como língua de comércio espalhou-se ao longo da costa do Congo e de Angola de Loango para Benguela.

Em Angola – uma colónia portuguesa até 1975 – o português é a língua oficial e é falado por muitas pessoas. A maioria dos mestiços (em 1995 cerca de 1,5% da população angolana, que resultam em 170.000) fala o português como língua de casa e eles tendem a se identificar com a cultura portuguesa. Em Moçambique – uma outra colónia portuguesa até 1975 – o português é a língua oficial e é falado por muitas pessoas, principalmente como segunda língua. Na África do Sul o português é falado por pessoas de ascendência portuguesa e pelos imigrantes de Angola, Moçambique e Brasil (600.000).

Angola: 57.600 falantes de português como primeira língua (1993) e uma grande parte dos habitantes fala o português como segunda língua.

Moçambique: 30.000 falantes de português como primeira língua e quatro milhões de habitantes falam o português como segunda língua, cerca de 30% da população (1991).

África do Sul: Mais dum meio milhão de falantes de português como primeira língua.

ÁFRICA ORIENTAL: Quênia e Tanzânia.

O português foi usado como língua franca nos séculos XVII e XVIII. Isto foi devido à dominação portuguesa da costa oriental da África até o fim do século XVIII. Mombaça foi mantido até 1698 e uma reocupação breve foi tentada em 1728/1729. Há evidência dada por um tenente britânico que em 1831 um português confuso foi falado por um homem em Mombaça. O contato entre os portugueses e os africanos também influenciou a língua suaíli, que hoje é usada ao longo de toda a costa oriental de África. Há mais de 120 palavras de origem portuguesa na língua suaíli.

BIBLIOGRAFIA SOBRE A LÍNGUA PORTUGUESA EM ÁFRICA:

– Chataigner, Abel “Le créole portugais du Sénégal: observations et textes” ?, in: Journal of African languages Vol. 1,1 1963, pp. 44-71

– Cardoso, Eduardo “O Crioulo da Ilha de São Nicolau de Cabo Verde”, 142 pp., Imprensa Nacional, 1989, Lisbon, Portugal.

– Couto, Hildo Honório do. “The genesis of Portuguese creole in Africa”, in: Holm, John & Frank Byrne (eds.).”Atlantic meets Pacific: a global view of pidginization and creolization”, John Benjamins Publishing Company,1993, Amsterdam, The Netherlands, pp. 381-389.

– Dalphinis, Morgan, “African language influences in Creoles lexically based on Portuguese, English and French with special reference to Casamance Kriul, Gambian Krio and Saint Lucia Patwa”, 756 pp. PhD. Thesis, University of London, 1981, London, United Kingdom.

– Ferraz, Luís Ivens “The creole of São Tomé”, 122 pp., Separata African Studies, 37, Witwatersrand University Press, 1979, Johannesburg, South Africa.

– Günther, Wilfried “Das portugiesische Kreolisch der Ilha do Príncipe” Selbstverlag, 1973, Marburg an der Lahn.

– Kihm, Alain “Kriyol syntax: the Portuguese-based Creole language of Guinea-Bissau”, VIII, 310 pp. Creole language library n° 14, John Benjamins Publishing Company, 1994, Amsterdam and Philadelphia.

– Lorenzino, Gerardo A., “The Angolar Creole Portuguese of São Tomé: its grammar and sociolinguistic history”, 290 pp. Unpublished Ph.D. Thesis, City University of New York, 1998, This Thesis deals with the genesis and development of the Angolar Creole Portuguese of São Tomé and Príncipe (Gulf of Guinea), off the coast of West Africa. Angolar is the language spoken by descendants of maroon slaves who escaped from Portuguese plantations on São Tomé in the mid-sixteenth century.

– Maurer, Philippe “L’angolar. Un créole afro-portugais parlé à São Tomé”, Buske, 1995, Hamburg.

– Moreau, Marie-Louise “Destino de uma sociedade, destino de uma língua. Balizas para a história do crioulo português em Ziguinchor” in: “PAPIA Revista de Crioulos de Base Ibérica”, Universidade de Brasília, Volume 3, nº 1, 1994

– Perl, Mathias “Acerca de Alguns Aspectos Históricos do Português Crioulo em África”, in: “Biblos”, vol. LVIII (Segunda Parte da Homenagem a M. Paiva Boleo), 1-12 pp. FLUC, 1983, Coimbra, Portugal.

– Perl, Mathias “A reevaluation of the importance of early Pidgin/Creole Portuguese”, pp. 125 – 130, JPCL (Journal of Pidgin and Creole Languages) N° 5/1 (April 1990), John Benjamins Publishing Company, Amsterdam and Philadelphia.

– Ploae-Hanganu, Mariana “Le créole portugais de l’Afrique: sa base portugaise”, 2 vols. (251, 58 f.) : [10] maps, 1991, Lisbon.

– Washabaugh, William and Greenfield, Sidney M. “The Portuguese Expansion and the Development of Atlantic Creole Languages” In: “Luso-Brazilian Review” n. 18 (2),1981, 225-238 pp.

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Fortalezas portuguesas de Luanda

Escrito por Marco Ramerini. Fotos por Virgílio Pena da Costa

A cidade de Luanda, capital de Angola, foi fundada pelo explorador Português Paulo Dias de Novais em 25 de janeiro 1576. A cidade foi nomeada pelo Portugueses como “São Paulo da Assumpção de Loanda”. Os Portugueses, nos anos seguintes, construiam três fortalezas: a Fortaleza de São Pedro da Barra (1618), a Fortaleza de São Miguel (1575) e o Forte de São Francisco do Penedo (1765-6). A mais bem preservada das fortalezas portuguesas de Luanda é a de São Miguel.

FORTALEZA DE SÃO MIGUEL

A Fortaleza de São Miguel, em Luanda, está localizada perto da ponte que liga a ilha de Luanda  (Restinga) para o continente, no alto do morro de São Paulo. A fortaleza tem uma planta complexa em forma poligonal com numerosos baluartes, e está em excelente estado de conservação.

Fortaleza de São Miguel, Luanda, Angola. Autor e Copyright Virgilio Pena da Costa.
Fortaleza de São Miguel, Luanda, Angola. Autor e Copyright Virgilio Pena da Costa.

O primeiro forte foi construído pelo primeiro governador Português de Angola Paulo Dias de Novais em 1575. Foi o primeiro forte a ser construído em Luanda, no século XVI, o forte foi primeiro construído em taipa e adobe (material de construção natural feito de areia, argila, água e algum tipo de material fibroso ou orgânico), substutuídos mais tarde, por argila, taipa e adobe.

A fortaleza foi restaurada e reforçada em 1634 quando os portugueses temerosos de um ataque holandês reconstruíram as defesas da cidade. No entanto, a cidade de Luanda e a fortaleza de São Miguel foram ocupadas pelos holandeses em 1641, que, durante o período de ocupação, que durou até 1648, renomearam a fortaleza Fort Aardenburg.

O aspecto actual da fortaleza datada do século 17, quando sob o governo de Francisco de Távora (1669-1676), a fortaleza foi reconstruída em alvenaria, sendo ser completada com um baluarte e duas cortinas. Hoje, a fortaleza, abriga o Museu das Forças Armadas.